//Séries//no mundo

Violino francês de sotaque brasileiro

Comemorando 15 anos de carreira no Brasil, Nicolas Krassik fala de sua relação com o país e a música brasileira

texto Itamar Dantas

O violinista francês Nicolas Krassik foi um dos pioneiros no Brasil em incluir o violino na música popular. Foto: Paprica Fotografia.

Nicolas Krassik é um violinista francês de espírito bem brasileiro. Radicado no país desde 2001, o músico circula com fluência na música popular, já tendo tocado com alguns dos mais conhecidos nomes do meio, entre eles Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Carlos Malta, Marisa Monte, Beth Carvalho, João Bosco e Gilberto Gil.

Com formação firmada na música erudita e no jazz, no Brasil Krassik se estabeleceu na música popular em ritmos como o samba, o baião e o choro. Em 2016, lança o álbum Mestrinho & Nicolas Krassik, com temas de Dominguinhos, Baden Powell, Sivuca e Jacob do Bandolim, entre outros. Completam sua discografia os discos Nordeste de Paris (2014), Odilê, Odilá (2010), Nicolas Krassik e Cordestinos (2008), Caçuá (2006) e Na Lapa (2004).

No dia 11 de setembro, o músico se apresentou no Itaú Cultural com o Nicolas Krassik Trio, ao lado dos músicos Nando Duarte (violão de sete cordas) e Carlos Cesar (bateria e percussão), onde tocaram repertório que passeia por temas que integram os 15 anos do músico francês no Brasil.

ÁLBUM – Sua formação principal se deu com a música erudita e o jazz na França. Quando você chegou ao Brasil e decidiu se dedicar à música popular, quais foram os principais desafios?

NICOLAS KRASSIK – Eu estudei durante 14 anos música clássica e um ano numa escola de jazz em Paris. Quando iniciei minha carreira profissional como músico de jazz, tive a oportunidade de tocar músicas de vários lugares: África, Turquia e Brasil. Eu me apaixonei de cara pela música brasileira e, antes de vir para cá, toquei com muitos brasileiros na França. Cheguei sabendo algumas coisas, mas faltava muito ainda. O principal desafio foi pegar a ginga dessa música e seus milhões de ritmos. Acho que a maior escola para mim, além da convivência quase diária no início com os músicos cariocas, foi ter começado a animar bailes na Lapa. Fazer os brasileiros dançar, para um gringo, é um desafio.

O que o violino tinha a acrescentar em ritmos como o choro e o samba?

Quando cheguei ao Brasil, quase ninguém tocava violino na música instrumental popular brasileira, tirando o Ricardo Herz, que tinha acabado de se mudar para a França. Acho que meu violino foi muito bem recebido, trouxe um novo timbre e também uma linguagem um pouco diferente, por causa de minha formação jazzística. Os músicos daqui me receberam com o maior carinho e as portas se abriram muito rápido.

Seja com o uso da rabeca em Cordestinos, seja no projeto com o acordeonista Mestrinho, você está trabalhando com instrumentos musicais que propiciam notas mais longas. Isso é uma opção para trabalhar com linguagens similares à do violino? Isso acaba criando uma linguagem diferente?

É verdade, nesses dois trabalhos eu me cerquei de instrumentos parecidos com o violino nesse aspecto. São instrumentos que podem compor melodias duplas, contracantos, e criar uma textura interessante. No caso de Cordestinos, a ideia foi realmente tentar fundir o violino e a rabeca para substituir o acordeom, um acompanhando o outro com cordas duplas ou fazendo segundas vozes. No caso do duo com o Mestrinho, foi um acaso. O duo se formou a partir de um convite para o festival de Jazz de Paraty; gostamos muito e resolvemos seguir. Esses dois instrumentos, além das semelhanças existentes, são interessantes pelo papel que ocupam na música popular de nossos países, França e Brasil. O violino tem uma tradição muito forte no jazz francês, com Stéphane Grappelli, Jean-Luc Ponty, Didier Lockwood e muitos outros. Aqui no Brasil, ele é representado pela rabeca. O acordeom é importantíssimo na música brasileira, de norte a sul e também é popular na França, com as valsas musettes.

No trio, você acaba optando por outro repertório por estar trabalhando com sete cordas e percussão?

Atualmente, com meu trio, estou apresentando uma mistura de músicas de toda a minha discografia, ou seja, toco um pouco todos os estilos, do choro do Jacob do Bandolim ao forró de Dominguinhos, passando pelos sambas de Nelson Cavaquinho e Chico Buarque. Acabo dividindo melodias e improvisos com o violão, que se torna um segundo solista.

O violino nunca foi muito utilizado como solista na música popular brasileira. Você e Ricardo Herz, por exemplo, são nomes dessa renovação no Brasil. Com o trabalho de vocês, o instrumento ganhou outras possibilidades?

Espero que sim, novas perspectivas para os violinistas clássicos, principalmente. Recebo muitos pedidos de aulas e e-mails de violinistas do país inteiro se interessando pelo assunto. Muitos deles falam que se inspiram no trabalho do Ricardo e no meu. Isso me enche de orgulho e me ajuda a continuar acreditando nessa missão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. Perdido no mundo até virar canção

    Meno del Picchia conta no álbum "Barriga de Sete Janta" a história de seu primo andarilho, Dico

  2. Psicodelia à brasileira

    Livro Lindo Sonho Delirante, do jornalista Bento Araújo, analisa 100 discos psicodélicos nacionais

  3. “Sinto minha história parecida com a do Cem Anos de Solidão”

    Clássico do colombiano Gabriel Gárcia Márquez é uma das sugestões de Jerry Espíndola

  4. Garotas Suecas regrava clássico da tropicália

    Banda indie liberou na internet sua versão para “Bat Macumba”; single será lançado em vinil

  5. Meu tempo é hoje

    Entre as dicas de Lucas Santtana está o pianista britânico James Blake, uma das sensações da música contemporânea

  6. Na íntegra, on-line

    Seleção traz 25 discos de 2012 disponibilizados pelos próprios artistas para download ou audição on-line

  7. Sons bordados

    A música "A Linha e o Linho", de Gilberto Gil, é revista pela artista plástica Marcela Fernandes de Carvalho

  8. O violino e o vibrafone

    Ricardo Herz (dir.) e Antonio Loureiro promovem encontro inusitado em disco

  9. “A música brasileira rivaliza com os maiores poetas”

    Em entrevista à Série +70, Jorge Mautner fala de militância, literatura e música

  10. Gilberto Gil é internado em São Paulo

    Músico, que retornou no último domingo de uma turnê pelos Estados Unidos e Europa, está no Hospital Sírio Libanês

    1. Ricardo Herz e Samuca do Acordeon

      Duo de violino e acordeom interpreta a autoral "Novos Rumos"

      1. Manoel Barenbein: “Gravei a 1ª música do Chico”

        Produtor do álbum inaugural do tropicalismo revê sua carreira, pontuando-a com músicas marcantes

      2. Especial Rogério Duprat

        A história do maestro tropicalista que reinventou a estética da música popular nos anos 1960 e 1970

      3. Gil, o herege

        Álbum seleciona versões de clássicos da música brasileira subvertidas por Gilberto Gil. Tudo para celebrar seus 70 anos de vida

      4. Gil, o herege (versões originais)

        As inspirações do tropicalista Gilberto Gil: Dorival Caymmi, Jimi Hendrix, Luiz Gonzaga e Steve Winwood

      5. Disco Brasil

        O som das pistas dos anos 1970 e 1980: Rita Lee, Lady Zu, Ronaldo Resedá, Jerry Adriani, Marisa Monte e Dudu França

      6. Segundo Mergulho no Escuro no ar!

        A música vai de Charlie Brown Jr. ao grupo de música instrumental Saçurá

      7. Maysa, Pato Fu e Conversa Ribeira

        Sexto programa de Zuza Homem de Mello traz vanguarda paulista e Milton Nascimento revistos por novos nomes da MPB