//Séries//no mundo

“Tive inveja de não ter o samba em Portugal”

Cantora portuguesa, Sara Serpa fala de sua carreira e da segunda visita ao Brasil

texto Itamar Dantas

Cantora de jazz portuguesa se destaca pela falta de vibrato na voz e pela fluência nos vocalises. Foto: João Ornelas

Sara Serpa conquistou a crítica especializada do mundo do jazz. Seu estilo de cantar, sem vibratos, associado à fluência nos vocalises, tem despertado a atenção da mídia internacional.

A cantora tem origem portuguesa, mas vive em Nova York. Iniciou seus estudos no país de origem, mas foi no Berklee College of Music e depois no New England Conservatory, em Boston, que Sara completou sua formação como cantora de jazz, em 2008. Entre seus professores, estavam os pianistas Danilo Perez e Ran Blake, os vocalistas Dominique Eade e Theo Bleckmann, o trombonista Hal Crook e o saxofonista Jerry Bergonzi.

Apesar da origem distante, a vocalista tem muitas referências na música brasileira, principalmente no que se refere à improvisação e aos vocalises. Músicos como Hermeto Pascoal, Milton Nascimento e Edu Lobo influenciaram seu estilo de cantar. Seu primeiro contato com o Brasil se deu pela internet. A cantora brasileira Dani Gurgel a convidou para compor uma música e acabaram se tornando “amigas de e-mail”. Depois, foi a musicista Andrea dos Guimarães que entrou em contato. E essas conversas acabaram em uma série de shows no Brasil, em 2011.

Em novembro de 2012, a cantora esteve novamente no país e se apresentou em São Paulo e no Rio de Janeiro, acompanhada do guitarrista português André Matos e de uma seção rítmica de músicos brasileiros formada por Léo Ferrarini (piano), Felipe Brisola (contrabaixo) e Everton Barba (bateria).

Por e-mail, ela contou ao Álbum sua intensa relação com o país e suas impressões em relação à segunda visita.

ÁLBUM – Conhece a música brasileira? O que costuma ouvir?
SARA SERPA –
Adoro a música brasileira, tenho imenso respeito, admiração e curiosidade pela riqueza e pela cultura musical do país; e toda vez que vou ao Brasil esse sentimento aumenta. Ouço de Tom Jobim a Pixinguinha, passando pelos inevitáveis Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Joyce, Hermeto Pascoal, Rosa Passos, Maria Bethânia, Gal Costa, Edu Lobo, Djavan, Toninho Horta, Jackson do Pandeiro, Guinga, Dorival Caymmi, Luciana Souza, João Gilberto, Gilberto Gil e tantos mais que provavelmente estou me esquecendo. A lista é infinita porque o Brasil tem muitos músicos bons. Quando estive no Rio de Janeiro, fui a uma roda de samba no bar Trapiche Gamboa e me emocionei ao ver os músicos tocando e todo mundo cantando e dançando. Fiquei com uma pontinha de inveja de não ter tido esse tipo de vivência musical em Portugal…

Como você desenvolveu esse interesse pela música instrumental e pelos vocalises? Quais são suas principais referências?
O interesse pela música instrumental surgiu talvez por eu ter começado a minha aprendizagem com o piano, que estudei durante dez anos. Quando entrei para a escola de jazz como cantora, quis aprender o que os instrumentistas aprendem, não só o que estava destinado às cantoras. Fiquei fascinada com a improvisação, a harmonia, a composição e como a voz pode complementar todo esse mundo, funcionando como mais um instrumento, com papel igual ao dos outros músicos, e não como a personagem principal, a diva. Posteriormente, desenvolver o som da voz como um todo, que ressoe e que tenha uma cor característica, ajudou na evolução do meu trabalho. Na música brasileira tem muitos artistas que cantam sem letra, que são grandes improvisadores e uma referência para mim, como Milton Nascimento, Edu Lobo, Joyce, Sivuca, Hermeto Pascoal (que também escreveu música usando vozes como instrumento). Considero todos eles músicos completos. Na minha visão, fazer música instrumental ou vocal é apenas uma forma de categorizar a linguagem vasta e universal que é a música. É uma forma de expressão individual de emoções e vivências. Na realidade, o mais importante para mim é escutar qual a história contada pelo cantor ou músico quando tocam. Fora do Brasil, músicos como Bobby McFerrin, Theo Bleckmann, Jen Shyu e Maria João também são referências. As minhas influências são variadas e fogem do gênero musical que faço. Não ouço só cantores, mas muitos instrumentistas que, por vezes, me tocam de uma maneira mais forte na composição e na improvisação.

Como se deu o contato com os outros músicos brasileiros com quem você trabalhou no Brasil?
Foi por meio da internet. Inicialmente, com a cantora Dani Gurgel, que enviou um e-mail me convidando para escrever um tema para ela cantar. Posteriormente, a cantora Andrea dos Guimarães entrou em contato comigo, me enviou CDs e ficamos amigas de e-mail. Como cantora e pedagoga supermotivada e curiosa, ela levou seu interesse mais à frente e organizou uma série de concertos em São Paulo e no Conservatório de Tatuí no ano passado. Neste ano foi uma turnê pelo Uruguai que possibilitou a minha vinda ao Brasil, com a Andrea, que mais uma vez me ajudou a apresentar a minha música em São Paulo. Fui ao Rio também, a um concerto organizado pelo Arte Institute e pelo Consulado de Portugal.

O que leva de experiências daqui? Tem planos de voltar ao país?
Regressei de alma cheia. Os brasileiros me trataram de forma muito afetuosa e carinhosa. O fato de falarmos a mesma língua facilita toda a nossa interação e comunicação. Tive uma estranha sensação de familiaridade quando andei pelas ruas do Rio ou de São Paulo. O Brasil tem história e cultura ricas e vastas, paisagens incríveis e vivências muito diferentes das que eu conheço. Por isso, tenho muita vontade de retornar e ficar mais tempo para absorver toda essa energia e me inspirar. Fiz muitas amizades fortes e voltarei sempre que for possível.

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