//Séries//no mundo

Sem raízes, pelo mundo

Dom La Nena lança seu primeiro disco, aclamado pela crítica internacional

texto Itamar Dantas

Dom La Nena lança seu primeiro disco com apenas 23 anos e consegue críticas favoráveis em veículos internacionais. Foto: divulgação

O país de origem de Dom La Nena é abstrato. Suas raízes, na verdade, estão divididas entre três distintas nações: Brasil, Argentina e França. Dominique Pinto nasceu em Porto Alegre e se mudou para Paris com a família aos 8 anos de idade, época em que iniciava seus estudos de violoncelo. Aos 13 anos, mudou-se para a Argentina para estudar com Christine Walevska, conhecida internacionalmente como a “deusa do violoncelo”. Cinco anos depois, voltou para Paris e começou a se apresentar com a cantora e atriz Jane Birkin, realizando uma turnê internacional.

Da música clássica, a artista partiu para um projeto mais pop, em que também canta. Em janeiro de 2013, com apenas 23 anos de idade, Dom lançou nos Estados Unidos o primeiro disco de sua carreira, Ela, pelo selo norte-americano Six Degrees Records. Em fevereiro é a vez da Europa; e, segundo a cantora, ainda no primeiro semestre será lançado no Brasil. O disco recebeu críticas favoráveis em jornais como The New York Times e The Wall Street Journal, entre outros veículos europeus e norte-americanos.

O álbum é coproduzido pelo parceiro de gravadora Piers Faccini. Entre os convidados estão a cantora francesa Camille e os brasileiros Kiko Dinucci e Thiago Pethit. No repertório, há o despretensioso “Sambinha” de quem não sabe sambar; a falta de origens é contada na música “No Meu País”; e sua passagem portenha é homenageada em “Buenos Aires”, com participação de Thiago Pethit.

Em entrevista ao Álbum, Dom falou um pouco de sua trajetória, de seu primeiro trabalho e do que vem por aí.

ÁLBUM – Você nasceu no Brasil, mas ganhou maturidade entre a Argentina e a França. Onde estão suas raízes musicais?
DOM LA NENA – Minhas raízes musicais são várias e estão espalhadas por onde passei… Primeiro, vem a raiz da música clássica, que é uma das mais fortes. Depois, vem a da música brasileira, que também é grande. Por mais que minha música não seja propriamente o que se chama de música brasileira, uma das minhas principais influências segue sendo essa. E, na sequência, estão as raízes da chanson francesa, do folclore argentino e também da música pop e folk americana.

Você ainda atua como violoncelista? Como foi sua passagem de instrumentista para cantora?
Sim, ainda atuo como violoncelista, mas não somente como acompanhante. O que gosto mais é de trocar repertório com quem toco – o que faço com Piers Faccini, por exemplo, e também com o Kiko Dinucci quando vou ao Brasil. Tenho um projeto chamado Birds on a Wire com a cantora Rosemary Standley, do grupo franco-americano Moriarty, no qual fazemos um songbook somente com violoncelo e voz (com músicas que vão do renascimento italiano até Leonard Cohen), e esse trabalho de arranjos também me interessa muito. Eu não diria que houve uma real passagem de instrumentista para cantora, pois ainda me considero instrumentista, e é algo que nunca deixarei de ser. Por isso, sou minha própria acompanhante e sigo tendo muito prazer em tocar com outros músicos.

Como foi a participação dos músicos brasileiros Thiago Pethit e Kiko Dinucci na gravação do disco?
As duas participações foram feitas de modo bem casual. Eu conheci os dois há quase 3 anos, quando fui pela primeira vez a São Paulo. Na época, eu estava começando a gravar o disco, aos poucos, e tinha feito somente uma primeira base das músicas. Tinha um show marcado com o Kiko (justamente para fazermos essa troca de repertório e de ideias musicais) e, com o convívio, ficamos bem amigos. Foi um trabalho super enriquecedor para mim, um encontro realmente muito interessante. Antes de voltar, decidi tentar gravar umas percussões em uma música, e perguntei ao Kiko se teria percussionistas para me indicar. E ele mesmo se propôs a tocar, junto com o Guilherme Kastrup, um percussionista incrível de São Paulo. Eles me mandaram algum tempo depois o que haviam feito e ficou absolutamente perfeito, não mudei uma notinha sequer dos arranjos. O encontro com o Pethit também foi muito interessante; ficamos bem próximos e nos demos conta de que tínhamos vivido no mesmo ano, na mesma rua (a uma quadra de distância), em Buenos Aires. Justamente, eu tenho uma música chamada “Buenos Aires” e me pareceu evidente que deveria convidá-lo para cantá-la e gravá-la comigo.

Quais foram os artistas que a influenciaram em cada um dos três países onde viveu?
No Brasil, cresci ouvindo Jorge Ben Jor, Tom Jobim, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Villa Lobos… Virei totalmente adicta de todos eles, se tornaram para mim mestres absolutos. Na França, me atraem muito a melancolia e a força da Barbara e, mais recentemente, a energia e a criatividade da Camille. Quanto à Argentina, ouvi muito Fito Paez, de quem algumas músicas são realmente pérolas! Mercedes Sosa também me marcou muito, assim como o dramatismo do tango dos mestres Pugliese, Piazzola, Troilo, Goyeneche… E, em termos de cancioneiros em espanhol, também ouvi muitíssimo Silvio Rodriguez, que tem músicas absolutamente fantásticas, suspensas no tempo de tanta beleza… E, é claro, Violeta Parra, grande poetisa, grande artista, grande tudo!

Pretende vir ao Brasil para apresentar o trabalho? Como anda a divulgação do disco?
Sim, vou ao Brasil. Está em processo de organização, mas vou ainda nesta primeira metade do ano lançar o disco! Como a minha gravadora é americana, o disco já saiu nos Estados Unidos e no Canadá, onde foi super bem acolhido pela imprensa. Desde o lançamento, está no número 1 da World Music Chart das CMJ (rede de rádios universitárias norte-americanas que são enormes). E recebemos ótimas críticas (The New York Times, The Wall Street Journal, toda a imprensa canadense etc.). Aqui na Europa saiu agora e já estamos com uma turnê para fazer até o final de 2013!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. Brasil e Argentina no mesmo palco

    Carlos Villalba e Ensamble Chancho a Cuerda falam sobre o projeto Músicas del Sur

  2. Quase ricos e xaropes

    A estética minimalista d'Os Mulheres Negras

  3. Da tradição para outro lugar

    Em A Carne das Canções, Marcelo Pretto e Swami Jr. fogem ao convencional na relação entre cantor e instrumentista

  4. Thiago França e a malandragem paulistana

    Novo álbum do saxofonista homenageia conto de João Antônio: Malagueta Perus e Bacanaço

  5. O mundo numa picape

    Alfredo Bello compartilha suas experiências de música da África ao Oriente Médio

  6. A Bahia metafórica de Rodrigo Campos

    Cantor e compositor paulista fala sobre seu segundo álbum, Bahia Fantástica

  7. Frames de um Brasil musical

    Em 13 curtas, cineasta francês Vincent Moon registra a música folclórica e a nova safra de compositores e intérpretes

  8. De volta à manada

    Com o novo disco, Cambaco, Vicente Barreto encerra hiato de dez anos sem gravar, com novos parceiros

  9. “O que nos faz vibrar é a música brasileira!”

    Percussionista Adriano Adewale conta sua trajetória no mercado inglês

  10. Tons do desconforto

    A morte é o tema predominante no disco de estreia da cantora Juçara Marçal

  11. “A Mulher do Fim do Mundo é a que vai permanecer”

    Uma das cantoras mais contundentes da atualidade, Elza Soares relembra capítulos importantes de sua carreira

  12. “Ouça esta nova banda, nós gostamos dela!”

    Editor inglês Stuart Stubbs fala da Loud & Quiet, revista dedicada à música alternativa

  13. “A gente quer viver sempre no verão”

    Gaúchos da banda Selton fazem sucesso na Itália e falam de sua experiência no exterior

  14. “Tive inveja de não ter o samba em Portugal”

    Cantora portuguesa, Sara Serpa fala de sua carreira e da segunda visita ao Brasil

  15. “A gente não escolhe ser músico, a gente é músico”

    João Donato fala de passagens importantes de sua carreira em entrevista ao +70

  16. Os dois primeiros discos de 2013

    Na virada do ano, os músicos Kiko Dinucci e Thiago França publicam na rede seus novos trabalhos

  17. Ôctôctô do outro lado do Atlântico

    Saxofonista Luís Málaga comenta a experiência do grupo na Europa

  18. O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

    Norte-americano que trocou a guitarra pelo pandeiro, Scott Feiner fala ao Álbum

  19. Amor entre Pará e SP

    Natália Matos lança o seu primeiro disco

  20. “O complexo não é o mais difícil, é o inimaginável”

    Moçambicano Stewart Sukuma e sua música: do ritmo marrabenta ao jazz e ao pop contemporâneo

      1. Spinetta y sus camaradas

        Os pioneiros do rock argentino: Charly Garcia, Seru Giran, Vox Dei, La Maquina de Hacer Pájaros

      2. Primeiro semestre em 18 discos

        Seleção contempla Passo Torto, Edi Rock, Andreia Dias, Wilson das Neves, Guilherme Arantes e Antonio Adolfo

      3. Sambando no trem

        O trem é um dos protagonistas das músicas de Moreira da Silva, Chico Buarque, Kiko Dinucci e Joyce

      4. Elza Soares em A Mulher do Fim do Mundo

        Elza Soares apresenta o álbum A Mulher do Fim do Mundo no Auditório Ibirapuera

      5. O som que fez o som do Metá Metá

        Os músicos do Metá Metá - Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França - indicam, cada um, cinco músicas que lhes ensinaram liberdades novas