//Séries//no mundo

“Ouça esta nova banda, nós gostamos dela!”

Editor inglês Stuart Stubbs fala da Loud & Quiet, revista dedicada à música alternativa

texto Redação

Stuart Stubbs, fundador de Loud & Quiet, e uma imagem promocional do periódico londrino. Fotos: reprodução

O jovem da foto acima, de cabelos penteados para frente, bem que poderia ser um rock star do britpop ou um integrante de banda cover dos Beatles. Mas ele é Stuart Stubbs, um londrino que, em 2005, colocou nas ruas a revista Loud & Quiet. Distribuída mensal e gratuitamente em cafeterias, casas de shows e lojas de discos na capital inglesa e nas cercanias do Reino Unido, a revista de música alternativa aponta os holofotes para bandas e artistas que ainda não foram absorvidos pelos grandes veículos de comunicação e pela indústria cultural. Ou ainda, como o idealizador afirma, “o que tentamos fazer em cada edição é dizer ‘ouça esta nova banda, nós gostamos dela!’”.

Em entrevista exclusiva ao Álbum, Stubbs fala da motivação para criar a L&Q, da importância da comunicação visual, dos desafios de manter a versão impressa na era digital, da influência de revistas como a NME e a MelodyMaker e da relação atual entre música e política.

ÁLBUM – Em que contexto musical nasceu a Loud & Quiet? Quais foram as motivações e os maiores desafios?
STUART STUBBS – Loud & Quiet é um projeto que iniciei quando saí da universidade, em 2004. Eu estudei cinema e drama, mas sempre fui mais um fã de música do que qualquer outra coisa. Eu também adorava revistas, mas sentia que não havia publicações sobre música que trouxessem novas bandas – sempre havia apenas uma ou duas páginas para novas produções e o restante era dedicado a bandas já conhecidas. Além disso, nenhuma revista de música tinha um bom design, e as revistas que eu gostava de ver – que geralmente eram sobre moda, como a Dazed e a i-D – não traziam artigos que eu gostava de ler; elas simplesmente eram bonitas. Então, o objetivo era, e ainda é, produzir uma nova revista de música, que informasse a nós, fãs, sobre novas bandas, mas que se assemelhasse a uma revista de moda. Afinal, por que os grupos indie são formados para parecer tão bonitos?

Que dificuldades a L&Q enfrenta para se manter ativa e influente nos dias de hoje, em que todos podem ser editores, com seus blogs e podcasts?
É verdade que todo mundo é crítico hoje em dia, postando suas opiniões em blogs e no Twitter, e que você pode escutar uma música sem ninguém lhe dizer se ela é boa ou não, mas isso é exatamente o que está dando trabalho aos editores. Há tanta coisa na internet que é impossível saber por onde começar. Então, o que tentamos fazer em cada edição é dizer “ouça esta nova banda, nós realmente gostamos dela!”. E fazemos isso de uma maneira que os outros não fazem, que é conduzindo uma entrevista e uma sessão de fotos de verdade, dando um espaço em nossa revista que eles nunca conseguiriam na mídia tradicional. Assim, as pessoas podem ler tudo que elas precisam saber sobre esse novo grupo, e então, claro, podem ouvir a música e decidir por elas mesmas.

Em entrevista, um editor brasileiro de uma revista de pop rock alegou que publicações desse universo não vendem mais tanto quanto nas décadas de 1970 e 1980 porque as referências mudaram: uma capa com John Lennon ou Bob Marley não vende tanto quanto uma sobre qualidade de vida. Você concorda? O mercado britânico de música e cultura também passa por essa crise?
Ah, claro. Publicações sobre música não vendem muito mesmo, porque o rock não é mais novidade. Mas, principalmente, porque a música é gratuita e a internet é muito poderosa. Tornou-se algo de nicho – ser obsessivo por música nova –, mas que vai morrer completamente. Existem pessoas que sempre vão querer saber mais sobre as bandas e o porquê de suas músicas terem a sonoridade que têm. Pode ser que seja um pouco menos aqui no Reino Unido, simplesmente porque a música pop tem sido uma grande parte de nossa cultura, dos Beatles ao Sex Pistols, do Queen ao Oasis. Não há como negar que o público em geral anda mais interessado em celebridades e fofocas. E essas são as revistas que mais vendem agora; o que é muito triste.

Houve matérias na L&Q sobre música ou artistas brasileiros?
Sinto em dizer que, além de CSS e Bonde do Rolê, dois grupos que fazem muito sucesso por aqui, pouquíssimos artistas brasileiros saíram na Loud & Quiet.

Do jornalismo musical de algumas décadas atrás, quais são as virtudes que a L&Q persegue e quais são os pecados dos quais tenta escapar?
Honestidade é a chave. Muito da imprensa musical é decidido com base em pressões externas, como propaganda e o que é considerado cool, mais do que naquilo que é realmente bom ou não. Infelizmente, Londres, em particular, tem entrado em um mundo pós-irônico, em que você não pode mais dizer se algo é apreciado de verdade ou não. Nós tentamos ser o mais honestos possível, e eu nunca digo a um colaborador se ele deve dar uma crítica positiva ou negativa a um disco.

L&Q fala sobre música alternativa. Como você define o que é música alternativa?
Ah, essa é difícil, porque isso não existe mais. “Indie” costumava ser o termo, mas todos os selos indie foram comprados ou fecharam, e, então, os selos maiores começaram a assinar com bandas indie. Com a música alternativa acontece o mesmo, já que bandas no Reino Unido têm sido mainstream desde o pop britânico, o britpop… especialmente depois do surgimento do Franz Ferdinand, em 2003.

Se você pudesse identificar a origem da L&Q, as publicações e outros produtos culturais que a inspiraram, como seria?
Seria provavelmente uma mistura entre NME, MelodyMaker (de 1986) e um jornal de moda. É assim que o design era tratado – como uma plataforma tanto para os fotógrafos quanto para as bandas que apareciam nas fotos.

Em tempos de crise econômica na Europa, qual tem sido o papel da música, por exemplo, quanto à xenofobia?
As pessoas que tendem a apreciar as músicas sobre as quais escrevemos não são xenofóbicas. São pessoas que gostam de bandas inspiradas pelo punk, e o punk sempre foi sobre multietnicidade e tolerância a diferentes culturas. Hoje em dia, no entanto, as bandas não são mais politizadas, e é fácil dizer que isso é algo ruim, porque provavelmente é. Mas, por outro lado, estamos todos nos tornando tão cínicos que, se um grupo quisesse fazer um álbum político, diríamos que o The Clash já o fez – o que é muito injusto, porque eles não o fizeram em 2012, sob este estado lamentável em que os banqueiros nos deixaram. É quase um suicídio profissional querer trazer a política para a música pop ultimamente… basta ver quem as pessoas menos querem ouvir – Bono (U2), Chris Martin (Coldplay) e Bob Geldoff –, três homens que só querem salvar crianças famintas e nós (e talvez seja algo muito particular dos ingleses) não os suportamos. É muito esquisito.

Em que nível você ama ou odeia música?
Não teria sido possível, para mim, fazer isso sem amar a música completamente. Começar a sua própria revista sobre música, aparentemente, não é a melhor maneira de se tornar rico. No momento da impressão, eu AMO completamente 90% das bandas que entrevistamos e apresentamos, e talvez apenas goste dos 10% restantes, que alguém que contribui com a revista ama por mim! Mas, quando você odeia algo, enquanto está elaborando sua crítica tem de dizer, ou ninguém nunca vai saber o que é realmente bom e o que não é.

>> Assista ao curta-documentário de Timothy Cochrane sobre a L&Q.

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