//Séries//no mundo

Ôctôctô do outro lado do Atlântico

Saxofonista Luís Málaga comenta a experiência do grupo na Europa

texto Itamar Dantas

Grupo Ôctôctô criou seu espaço para experimentação, entre a música popular e a erudita. Foto: divulgação

Formado por ex-alunos do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), o octeto instrumental Ôctôctô busca na música popular suas fontes de inspiração para arranjos e composições. Depois de lançar o primeiro álbum, homônimo, o grupo retorna de viagem à Europa. Lá, com a agenda dividida entre espetáculos e interação multimídia com dançarinos do projeto Trepp, mostrou sua música com apoio do Instituto Lusofonia, do Goethe-Institut e da USP. Em Munique, Alemanha, apresentaram-se nos centros culturais Gasteig e Einstein Kultur e também na Universidade do Porto e no Teatro Manuel Passos e no espaço Garden, em Porto, Portugal.

O Trepp é um projeto de dança contemporânea em que Marina Massoli e Mário Lopes se apresentam sob intervenções visuais em videomapping e grafite digital com Vítor Pardinho e Achiles Luciano, e interação com o ambiente, com trilha sonora construída ao vivo pelo octeto. O Ôctôctô é formado por Cibele Palopoli (flauta), Yuri Prado (guitarra), Migue Antar (baixo), Felipe Roque (trompete), Rubens de Oliveira (bateria), Márcio Modesto (piano), Edinaldo Santos (trombone de vara) e Luís Santiago Málaga (saxofone). De volta ao Brasil, Luís Santiago comentou suas impressões sobre a visita ao Velho Mundo.

ÁLBUM – Fale um pouco do primeiro disco do grupo.
LUÍS SANTIAGO MÁLAGA – O nosso disco é fruto de um trabalho de muitos anos. Ele incorporou músicas de 2009. Todas as canções que passaram pelo grupo já tinham a ver com essa cara que a gente queria dar. O trabalho adquiriu forma mais ou menos em 2009. A gente começou a fazer shows, o repertório foi engrossando e, em 2013, a gente gravou esse disco, produzido de forma independente. Mas muito dos recursos utilizados veio do Nascente-USP [edição 2011] – prêmio de música popular que o Ôctôctô ganhou com “Suíte Serrana”, que não entrou no disco porque as questões de direitos autorais eram muito complicadas. “Suíte Serrana” é uma peça de longa duração do ponto de vista da música popular que o Yuri Prado fez. Ela agrega vários sambas-enredo da Império Serrano, do Rio de Janeiro. Cada música tinha mais de um compositor, alguns falecidos. Então, uma faixa só ia dar mais trabalho do que o álbum todo. Isso em um disco que se pretendia autoral. Por esse motivo, esse arranjo não entrou. Mas o dinheiro ganho no festival Nascente foi usado integralmente para bancar a gravação e o lançamento do disco, feito lá no Espaço Cachuera!, com o Gustavo, o KK Akamine, técnicos supertalentosos. Fizemos nesse estúdio, tinha um piano de cauda maravilhoso…

Como foi o início do octeto?
O octeto surgiu de uma reunião de alunos que queriam montar uma banda de jazz. A gente pensou em participar de uma disciplina na faculdade de música da USP chamada música de câmara. Queríamos uma big band, mas eram quatro sopros. Quatro sopros não é nem uma seção de trompetes de uma big band de verdade. O octeto é uma formação incomum, e exatamente por não poder aproveitar muita coisa que já tivesse sido produzida precisamos criar nossos arranjos. O que era uma dificuldade se tornou um caminho. Começamos a escrever bastante. O Yuri Prado e o Vítor Caffaro, que agora não faz mais parte da banda, começaram a se destacar nessa produção de arranjos e composições originais porque entenderam qual era o som do grupo. Escrevi uma música que ainda está no repertório, mas é pouco em relação ao todo. Quando a gente sentiu que estava explorando as possibilidades sonoras desse grupo, tal como ele é, falamos: “Ah, temos um grupo!”. Aí decidimos o nome. Antes, chamava-se Jazz Band do CMU, um nome descritivo. O Yuri sugeriu Ôctôctô. Em um ano, um negócio que era para praticarmos jazz e improvisação se tornou um espaço para experimentação, com um discurso longo. Um grande espaço para o arranjo soar, não tanto para a individualidade. Tem trechos individuais muito interessantes, mas o diferencial está nos arranjos.

E o projeto com o Trepp? Comente um pouco a interação de linguagens: dança, multimídia e música. 
O Mário Lopes convidou o Yuri e o Vítor Caffaro para fazerem a trilha sonora que seria executada ao vivo durante as apresentações do Trepp. O Trepp é um espetáculo gestado na última passagem do Mário e do coletivo dele, o DMV22, por Munique. E eles terminaram de fazer esse espetáculo em parceria com o Yuri e com o Vítor. Tem projeção, videomapping, grafite digital, música ao vivo com o Ôctôctô e dança e cenários preparados pelo Mário, pela Marina Massoli e pelo DMV22. A Marina e o Mário dançam e improvisam, criando aquelas cenas. Eles falam que é um privilégio estar com aquela música, porque é uma música que conseguiu ser bastante complexa sem roubar a cena. Ela se manteve no pano de fundo da visualidade, que é o grande assunto do Trepp. A receptividade ao Trepp foi impressionante na Europa. O espetáculo é apresentado em espaços públicos e a quantidade de pessoas que se aglomerava para ver era muito grande. A gente se apresentou no Streitfeld, um condomínio/espaço cultural onde muitos artistas efetivamente moram e trabalham. Isso em Munique. No Porto a gente se apresentou em frente à reitoria da Universidade do Porto, onde se aglomerou um monte de estudantes. E foi impressionante! As pessoas ficaram muito emocionadas. O público gostou muito, adicionou uma perspectiva para a carreira do Ôctôctô. O Ôctôctô passou a fazer parte de uma ensemble mesmo, de música que dialoga com outras artes. A gente está lidando com outros artistas. Colocou outras raízes em outras direções para fazer uma imagem, uma coisa que para o grupo está sendo fundamental. Fora que ir para a Europa fazer dois espetáculos foi uma coisa muito legal e excitante. Poder fazer uma atividade diferente da do dia anterior.

Vocês notaram alguma diferença na receptividade do público daqui e de lá?
A receptividade com relação ao Ôctôctô é sempre muito legal. Gosto de ver como as pessoas se surpreendem, tanto em São Paulo quanto lá. O público aqui em São Paulo e na Europa vai esperando alguma coisa entre o contemporâneo e o experimental, mas sempre acaba se emocionando com as melodias, com a generosidade do som. Ou então não espera nada. Está esperando uma banda de música brasileira que vai tocar samba, que é o gênero nacional por excelência. A gente sempre consegue surpreender para o bem. A diferença é que as pessoas na Europa ficaram muito impressionadas com a linguagem. Os músicos brasileiros que  conheço acabaram indo para a Europa em algum momento para aprender. Mais ou menos isto: “Aqui temos uma escola, o brasileiro vem para oferecer matéria-prima. Excelente matéria-prima de ritmos regionais, de uma carga folclórica, de raiz, que deve ser elaborada e misturada com a música de raiz europeia para produzir um som de interesse urbano e atual”. E, na realidade, a gente chegou lá sem nunca ter pisado em solo europeu, sem ter na banda nenhum estudante, nenhum ex-aluno de uma escola europeia. Fizemos um som que eles não conheciam, um som técnico, mas ao mesmo tempo bonito, com melodias confortáveis, que desafiam, mas têm partes de beleza também. A classe artística ficou bem impressionada. No caso dos músicos que tocaram com a gente, eles ficaram preocupados de não conseguir se encaixar no show. Mas não, a gente insistiu e acabou dando certo. Modéstia à parte, foi muito legal ver quanto o artista europeu entendeu aquilo com algo de raiz, original do Brasil, mas que trazia uma elaboração que geralmente é papel da escola europeia dar. E, claro, estudamos muita música europeia, mas estudamos também muita música brasileira. E a música brasileira tem todos esses elementos, a matriz indígena, negra, africana e europeia.

Você destacaria algum tema do repertório de vocês?
“Álbum de Família” é um fenômeno. São canções que o Yuri coletou na família dele, mas ainda tem muitas outras… Ele coletou seis. Duas da mãe, duas de um tio, duas de um primo. O tio e o primo são músicos profissionais. A mãe é professora de artes plásticas, mas compõe também. O tio tem uma quantidade de canções absurda, 800, não me lembro, pode ser que seja menos, mas é um número muito importante. A gente que toca demora um pouco a se conectar com o material que vem antes da música instrumental. É difícil tocar os arranjos, principalmente os do Yuri. Durante muito tempo a gente se prende somente nas questões técnicas. E a mãe dele veio me falar: “Luís, obrigada por tocar essa música de forma tão bonita!“. A letra fala de uma religiosidade sobre aqueles momentos na vida que a gente não tem como oferecer conforto às pessoas, quando não tem nada a dizer, a não ser falar de Deus, de alguma coisa maior e intangível. Passei por um momento desse no começo do ano, quando minha mãe faleceu. Ela estava no hospital e sabia que ia morrer. É isso, não tinha o que falar para ela. Essa música adquiriu um significado enorme. É uma das músicas que mais gosto de interpretar. Quando estou tocando com eles eu me sinto muito especial. É uma conexão muito forte. A letra que está por trás daquelas notas deixa a coisa especial. Fora que as músicas são de uma brasilidade impressionante. Todas! Tem vários ritmos e o Yuri potencializa esses ritmos.

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