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Norte-americano que trocou a guitarra pelo pandeiro, Scott Feiner fala ao Álbum

texto Itamar Dantas

Da guitarra jazzística, Scott Feiner partiu para o pandeiro e criou o Pandeiro Jazz. Foto: Jason Gardner

Scott Feiner é um nova-iorquino radicado no Rio de Janeiro desde 2001. Sua formação musical vem do jazz e, como guitarrista, circulou entre os principais músicos da cena jazzística de NY no início dos anos 1990. Com a guitarra, lançou dois discos, Under the Influence (1993) e Feiner’s Keepers (1994). Nessa época, ainda não conhecia nada de música brasileira. Em 1993, veio o primeiro contato com a bossa nova por meio de um amigo fã do estilo. O músico pesquisou como podia, comprou discos e, em 1999, aterrissou pela primeira vez no país. Em sua primeira visita, levou um pandeiro. E não parou mais.

Em 2001, o músico se mudou para o Rio de Janeiro e as rodas de samba e choro da Lapa foram a sua grande escola. Juntou a batida do pandeiro brasileiro com seus conhecimentos no jazz e gravou, em 2006, o disco Pandeiro Jazz. Hoje com três álbuns lançados com o pandeiro na linha de frente, Feiner cedeu entrevista ao Álbum e falou de seus trabalhos, da relação com o pandeiro e do que vem por aí.

ÁLBUM – Como foi o seu primeiro contato com a música brasileira?
SCOTT FEINER – Meu primeiro contato com a música brasileira foi em 1993. Na época, eu era guitarrista de jazz em Nova York. Fazia parte de uma cena legal de jazz, ao lado de músicos como Brad Mehldau. Tocava com um pianista italiano, Renato Chicco, e ele adorava bossa nova. Eu tinha preconceito, tenho até vergonha de falar: achava que música brasileira era música de coquetel. Lá, a bossa nova é muito tocada em ambientes assim, mas muito mal tocada, inclusive. Um dia, ele me disse: “Vou te dar uns CDs e você me fala o que acha”. Ele me deu três CDs do João Gilberto. Quando eu ouvi, fiquei fascinado: “Que som, que suingue!”. E aí não parei mais de ouvir música brasileira… até chegar ao ponto de dar um tempo com o jazz. Achar discos bons de música brasileira era um desafio. Eu perguntava aos amigos brasileiros. Comprava errado. Não tinha a facilidade do YouTube naquela época.

E o interesse pelo pandeiro?
Em 1999, visitei pela primeira vez o Brasil. Vi um moleque tocando pandeiro na rua e, no fim das contas, acabei levando um pandeiro a Nova York. Eu já tinha 30 anos. Aí falei: “Vou tocar bateria!”. E foi uma aventura. Conheço alguns brasileiros que moram em Nova York – Duduka da Fonseca, Hélio Alves – e tentava acompanhá-los. Mesmo estando em minha terra natal, virei um gringo com um pandeiro, enchendo o saco para tocar. Foi um ano, dois, assim, meio perdido. Em 2001, resolvi vir para o Rio de Janeiro para ficar um tempo maior e já faz 12 anos que estou por aqui. Eu comecei tocando nas rodas de samba e choro. Eu tinha largado o jazz, me dediquei ao pandeiro e ao samba. Em certo momento, anos depois, comecei a sentir saudade da harmonia, do improviso do jazz. Voltei para Nova York e alguém me ofereceu uma noite para que eu me apresentasse em num lugar. Eu chamei dois velhos amigos, o saxofonista Joel Frahm e o violonista Freddie Bryant, sem saber o que iria acontecer. E deu certo.

Como foi a receptividade ao jazz com o pandeiro?
Não dá para agradar todo mundo, tem gente que acha que pandeiro não é para o jazz. O fato de fazer uma coisa diferente pode abrir portas, e realmente abriu muitas portas para mim. Mas tem gente que vai falar: “Não, isso é jazz demais!”. Outros vão dizer: “Não, isso é samba demais!”. Eu sentia curiosidade e medo de ver como seria recebido. O primeiro disco virou o nome do projeto, Pandeiro Jazz, porque eu saquei que funcionava muito bem. No Brasil, já demonstra de cara o significado, mas lá fora ninguém sabe o que é pandeiro… gera uma curiosidade. Lancei o primeiro disco em 2006. Quando grandes bateristas, que eu respeito muito, como o Marcio Bahia, me disseram que tinham gostado da proposta, eu comecei a ficar mais empolgado. Ele me disse que estava lindo, que essa simplicidade era o charme do negócio. Não tem o mesmo chão quando comparado a uma bateria, mas tem uma aventura dentro dessa experiência.

Quais são suas referências do pandeiro no Brasil?
O Marcos Suzano é como o Jimi Hendrix do pandeiro. Ele ampliou as possibilidades desse instrumento, influenciou todos os pandeiristas que vieram depois dele e querem fazer um som fora do convencional. Agora, aqui no Rio de Janeiro, nós temos músicos como eu, o Sérgio Krakowski e o Bernardo Aguiar, pandeiristas que são band leaders. E isso é muito legal, porque dá outra visibilidade para o pandeiro, e faz com que exploremos mais as possibilidades do instrumento.

Como você vê os diferentes mercados, norte-americano e brasileiro, para a música instrumental?
A resposta mais simples é que está dificil em todos os lugares. Em um mercado como o de Nova York, com muito mais músicos e casas de show, os profissionais passam pelo mesmo perrengue que os daqui. Há muito mais lugares para se visitar com a música instrumental, mas também há um número muito maior de músicos disputando o mercado. Os cachês são iguais aos de 20 anos atrás. Eu estive viajando agora e passei pela Noruega. Lá existe uma cena própria de jazz, com muitos festivais, um monte de clubes. E mesmo assim, conversando com os músicos, eles comentavam que não era fácil também. Aqui no Rio de Janeiro o público tem muita facilidade para aceitar uma música instrumental de caras virtuosos como o Hamilton de Holanda, Yamandu Costa. O público gosta, comenta: “Caramba, toca muito!”. Mas não tem uma casa aqui no Rio de Janeiro que tenha música instrumental todo dia, então é um pouco mais complicado, sim.

E quais são os próximos passos?
Estou me preparando para gravar o quarto disco. No fim de fevereiro entramos em estúdio. Então, neste show do Festival de Guaramiranga/CE [realizado entre os dias 9 e 12 de fevereiro] já vai haver músicas do novo repertório, que são de minha autoria. Estamos trabalhando com uma nova formação, de trio, com pandeiro, teclado (Rafael Vernet) e guitarra (Guilherme Monteiro). É um momento muito bacana, porque agora eu tenho um repertório só com composições próprias para apresentar. O próximo disco já é um trabalho totalmente autoral. Agora, é muito mais do que fazer jazz com pandeiro. É uma oportunidade de criar algo realmente diferente.

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