//Séries//no mundo

“O que nos faz vibrar é a música brasileira!”

Percussionista Adriano Adewale conta sua trajetória no mercado inglês

texto Itamar Dantas

O percussionista Adriano Adewale durante apresentação no Auditório Ibirapuera (SP). Foto: Itamar Dantas

Adriano Adewale [pronúncia: Adeualê] é natural de São Bernardo do Campo (SP) e radicado na Inglaterra desde 2000. Graduado em música pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mudou-se para Londres para fazer o mestrado. Nesse percurso, estudou música africana e se identificou com a sonoridade do continente. O pseudônimo Adewale demonstra essa ligação: “É um nome da língua iorubá, que significa criança real que volta para casa”. Para o percussionista, o fato de conhecer a cultura africana o aproximou ainda mais de suas raízes. “Meu nome de batismo é Adriano Silva Pinto, que tem uma ligação com os senhores de engenho aqui do Brasil. Quando fui para a Nigéria, acabei tendo contato com minhas raízes mais íntimas e com um universo sonoro que me tocou muito”, conta o artista.

Atualmente, o percussionista trabalha no lançamento do segundo disco de seu quarteto, Adriano Adewale Group, e tem outros projetos em andamento. Ao lado do violonista italiano Antonio Forcione, lançou o álbum Sketches of Africa em 2012 e mantém parceria com o pianista Benjamim Taubkin. Deste duo, o primeiro registro fonográfico deve nascer ainda neste ano.

No dia 16 de setembro, o Núcleo Contemporâneo, misto de gravadora e produtora encabeçada por Taubkin, se apresentou no Auditório Ibirapuera para comemorar seus 15 anos de estrada. O show contou também com os grupos Cantos do Nosso Chão, Moderna Tradição e Orquestra Popular de Câmara, e as participações de Adewale e do cantor Vitor Ramil.

Em entrevista ao Álbum, Adewale falou sobre sua história, o que anda fazendo no momento e quais são as diferenças entre desenvolver um trabalho musical na Inglaterra e no Brasil.

ÁLBUM – Como foi o início de seu trabalho musical na Inglaterra?
ADEWALE – Quando você chega a um lugar fora do seu país, a primeira coisa que faz é procurar a sua comunidade; dá aquela vontade de estar em casa. E foi assim que eu conheci esses músicos: Mateus Nova, baixista baiano; Josué Ferreira, cantor e violonista alagoano; e o Marcelo Andrade, saxofonista, flautista e violinista do Rio de Janeiro. Dessa mistura louca, resolvemos montar uma banda. Mesclamos todas as nossas influências, que passavam do erudito ao rock and roll, da MPB ao jazz, e montamos a banda Samburá. Lançamos um CD (Cru, 2002) e gravamos outro, mas que não foi lançado porque a banda se desfez. E foi então que comecei a minha jornada solo.

Como foi a repercussão desse trabalho?
Muitas pessoas acompanhavam a banda. Eles gostam muito de música brasileira por lá. Mas a gente não estava sendo tradicional, estava experimentando muito. Parecia muito com os Novos Baianos. Quando os músicos têm uma relação que é maior do que apenas se encontrar para tocar, isso aparece na música.

Fale sobre o seu trabalho com o Segue.
É um selo e uma companhia de produção artística também. A diretora se chama Fiona Mason. Trabalhamos juntos por muito tempo; ela foi a minha produtora. Eu fiz uma residência artística na universidade Essex, na cidade de Colchester, Inglaterra. Como parte dessa residência, fiz várias coisas e uma delas foi trabalhar com um mentor, o Benjamim Taubkin. Também assinei a curadoria de um festival de música brasileira. Foram três dias, vários músicos tocaram, teve aulas de dança, debates com professores da universidade e uma exposição de artes plásticas. Nessa universidade há o maior acervo de artes plásticas da América Latina na Europa. E o Segue lançou também o primeiro álbum do Adriano Adewale Group, Sementes (2007).

O que você tem feito agora?
Nesta visita ao Brasil, estou tocando com o Benjamim e fazendo uma performance com uma dançarina lá na Casa do Núcleo (SP) também. Além disso, estou lançando o segundo disco do Adriano Adewale Group. O grupo é formado por mim (percussão), Nathan (baixista), Rick Thompson (flauta e calimba) e Marcelo Andrade (flauta, sax e rabeca). O nome do CD é Raízes, somente com composições minhas, e é parte de uma trilogia. O primeiro foi o Sementes, agora o Raízes, e o terceiro ainda não sei como vai se chamar. Em novembro, abrirei um show do Paco de Lucia, provavelmente junto com o quarteto. E também estou planejando uma turnê com o Benjamim Taubkin para o ano que vem, no Brasil e em Londres.

Quem são os brasileiros que têm conseguido espaço na cena musical londrina?
A Mônica Vasconcelos é uma cantora que já está lá há um tempo e tem seis trabalhos gravados; é amiga do Benjamim também. Tem um percussionista que agora que se mudou para o Brasil, uma pessoa fantástica, de um conhecimento absurdo: Bosco de Oliveira. O próprio Marcelo Andrade acabou de lançar um CD e também é bem conhecido… Tem o Gustavo Marques… A música e os músicos brasileiros são muito respeitados.

E o seu trabalho com o Antonio Forcione?
O Antonio é uma pessoa fascinante, muito importante na minha carreira. Eu o conheci por meio de outro violonista italiano com quem toquei, que mostrou uma gravação nossa para o Antonio. Ele ouviu e perguntou: “Opa, quem é o percussionista?”. Nós nem nos conhecíamos muito, mas ele me chamou para conversar e começamos a tocar junto. Deu muito certo. Tocamos desde 2002! Ele tem muita experiência: 16 álbuns gravados.

Você participou de quantos discos?
Eu participei de Touch Wood (2003), Tears of Joy (2005), Antonio Forcione Quartet – Live (2007) (CD e DVD) e Sketches of Africa (2012). 

Você tem planos de trazer algum desses projetos aqui para o Brasil e de voltar a morar aqui?
Sim, quero voltar. Não sei exatamente como isso vai se dar, porque estou fazendo muita coisa por aqui agora. Tenho esse trabalho com o Benjamim, fiz uma participação no disco da cantora Mariane Mattoso… Quero trazer os projetos de lá para cá e também quero levar os projetos daqui para lá, fazer essa ponte. É simplesmente o trabalho de achar pessoas que estejam interessadas em fazer isso, porque é uma coisa que tem um custo. Agora é um momento legal de fazer, porque o pessoal daqui está conhecendo mais o meu trabalho.

Quais são as suas principais referências musicais?
Gosto do Naná Vasconcelos, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Carlos Malta e, claro, Luiz Gonzaga, Pixinguinha… Essas pessoas desenvolveram uma linguagem, existe uma criatividade enorme dentro disso. Esses músicos estão ligados a uma tradição, mas criaram coisas novas. Fazem um arroz com feijão diferente. Você passa pelo arroz com feijão. Você come aquilo todo dia, mas pode mudar algumas coisinhas, com todo o respeito. E aí você cria a sua linguagem. Eu me identifico muito com isso. Nós estamos desenvolvendo uma linguagem com o Adriano Adewale Group também.

Como é o universo da música em Londres? É mais fácil viver de música lá do que no Brasil?
Na verdade, acho que a dificuldade está em todos os lugares. A profissão de músico exige muito da pessoa e o mercado, às vezes, é cruel. Para a pessoa sobreviver, ou ela se vende ou, se ela não quiser se vender, passa por uns momentos difíceis no caminho. Eu acredito que a minha carreira teria sido diferente se eu estivesse aqui, mas simplesmente por eu estar em um lugar diferente. O que está dentro de mim já está definido há muito tempo. Eu sempre soube que gostaria de ter um trabalho solo. Aqui no Brasil mesmo eu já tinha trabalhado como regente e fiz arranjo para coral e grupo de percussão. Então, já tinha isso muito forte em mim. A única coisa é que as pessoas de lá são mais abertas, nesse sentido de experimentar. Aqui no Brasil, as pessoas poderiam ter mais esse desejo de experimentar sons diferentes.

Lá é mais fácil criar público?
Sim, com certeza. Talvez porque a identidade cultural de lá não esteja tão ligada às raízes deles. De repente, eles abriram demais para outras culturas e perderam as próprias raízes. Estou só especulando, OK? No Brasil, a gente tem isso muito vivo. O que a gente escuta no rádio, o que nos faz vibrar, é a música brasileira. Lá tem essa coisa toda do rock and roll e da música erudita. Mas eles não têm essa identidade tão forte. Acho que se perdeu um pouco. Aqui, você vai ao bumba-meu-boi, vai ao forró; as pessoas se identificam com isso.

Como você se define musicalmente?
Há três lados. Um é o percussionista: tambores, pandeiro, efeitos, berimbau. Tenho como mestre o Naná Vasconcelos. O Naná é uma pessoa que me toca muito quando se apresenta. Tem outro Adriano que é o compositor, que gosta de trabalhar com formações diferentes, com a criatividade, compor músicas. Lá na Inglaterra eu tenho a minha banda, o Adriano Adewale Group, e nesse grupo eu experimento muito com a composição. Faço arranjos. Trabalhei também com uma big band lá. Então, faço esse trabalho de compor, arranjar, escrever para essa formação e ensaiar e reger. E, finalmente, tem o lado da performance, que é a junção do compositor com o percussionista. Trabalhei com teatro e dança por um tempo e isso aparece. Acabei de fazer um trabalho que se chama Ball Room of Joys and Sorrows, que misturou cultura brasileira e cultura britânica. Compus a trilha sonora para isso. Estou desenvolvendo uma peça que vai pra Nova York. Chama-se Mojo. Fiz a trilha sonora e vou participar com uma performance. Então, esses são os Adrianos! [risos]

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. “Tive inveja de não ter o samba em Portugal”

    Cantora portuguesa, Sara Serpa fala de sua carreira e da segunda visita ao Brasil

  2. Naná Vasconcelos falece aos 71 anos no Recife

    Internado desde 29 de fevereiro, músico lutava contra um câncer no pulmão

  3. Ôctôctô do outro lado do Atlântico

    Saxofonista Luís Málaga comenta a experiência do grupo na Europa

  4. A música na essência

    Naná Vasconcelos lança novo álbum inspirado nos quatro elementos da natureza

  5. Brasil e Argentina no mesmo palco

    Carlos Villalba e Ensamble Chancho a Cuerda falam sobre o projeto Músicas del Sur

  6. O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

    Norte-americano que trocou a guitarra pelo pandeiro, Scott Feiner fala ao Álbum

  7. Sem raízes, pelo mundo

    Dom La Nena lança seu primeiro disco, aclamado pela crítica internacional

  8. “New Order e Joy Division revolucionaram!”

    O baixista inglês Peter Hook fala da herança das bandas que integrou

  9. “A improvisação está mais para o circo do que para a música”

    Júnior Areia, baixista da Mundo Livre S/A, fala sobre seu disco solo Para Perdedores

  10. Correção de rota

    Membro da Orq. Contemporânea de Olinda, Juliano Holanda lança primeiro CD

  11. “Tem gente que diz assim: não é só tu que tá tocando”

    Sebastião Tapajós conta sua trajetória à Série +70 e relata impressões sobre seu disco Guitarra Criolla, de 1982

  12. “Ser compositor de música erudita no Brasil é muito difícil”

    Criar a partir da união do folclore com a música clássica é a missão do maestro Yves Rudner Schmidt

  13. O fole e as cordas

    Marco Pereira e Toninho Ferragutti lançam álbum conjunto em que revisitam suas obras em violão e acordeão

  14. “O complexo não é o mais difícil, é o inimaginável”

    Moçambicano Stewart Sukuma e sua música: do ritmo marrabenta ao jazz e ao pop contemporâneo

  15. Nascimento parcelado

    Mês a mês, o violeiro Hugo Linns apresenta duas músicas de seu terceiro álbum

  16. Diálogos musicais para além-mar

    Projeto Casa de Bamba reúne os pianistas André Mehmari e Mário Laginha. Confira a entrevista

  17. Pixinguinha de roupa nova

    Novo álbum de Hamilton de Holanda reúne visões estrangeiras da obra do chorão carioca

  18. “Música Eletrônica”, de Jorge Antunes, será relançado

    Disco de Jorge Antunes lançado em 1975 será relançado pelo selo Guerssen Records

  19. O primeiro voo autoral de Badi Assad

    Cantora e violonista fala de seu álbum Amor e Outras Manias Crônicas

  20. A malícia e o jazz do choro carioca

    Em Rio, Choro, Jazz... Antonio Adolfo revisita obra de Ernesto Nazareth e lança música em sua homenagem

    1. “Sempre quis desafiar os dogmas consolidados pelo tropicalismo!”

      Criado pelo baixista Munha, grupo de música instrumental mescla influências de Mahler, bossa nova e rock

    2. Ricardo Herz e Samuca do Acordeon

      Duo de violino e acordeom interpreta a autoral "Novos Rumos"

    3. Zé Menezes: “Tocador de violão não tinha valor nenhum”

      Músico cearense relembra a Rádio Nacional, as orquestras e Garoto

    4. Mistura e Manda, por Banda Pequi

      Choro que batiza disco de 1983 de Paulo Moura ganha versão de big band pelo grupo goiano

    5. Vovô Manuel, por Banda Mantiqueira

      Música foi lançada originalmente no CD Terra Amantiquira, de 2006

    6. “Donzela Teodora”, por Vanja Ferreira e Itamar Vidal

      Duo de harpa e clarinete é uma das formações surgidas no Rumos Música Coletivo

    7. Itamar Vidal e Vanja Ferreira

      O quarto ensaio do duo formado pelo clarinetista e harpista

      1. Sons que fizeram o som do Duofel

        Genesis, Los Indios Tabajaras, Pink Floyd e Baden Powell estão na lista de Luiz Bueno e Fernando Mello

      2. Hector Costita homenageia Astor Piazzolla

        Em show no Auditório Ibirapuera, músico argentino revê carreira e homenageia o renovador do tango

      3. Sem bandleader

        O rock instrumental brasileiro, de Os Incríveis a Pata de Elefante e Macaco Bong

      4. Hermeto Pascoal no Auditório Ibirapuera

        Hermeto Pascoal e Grupo realizaram apresentação recheada de improvisações

      5. A música de Paulinho da Viola pela Escola do Auditório Ibirapuera

        Cinco formações da Escola interpretaram músicas do sambista e de outros artistas brasileiros

      6. Especial Jacob do Bandolim

        A carreira de um dos instrumentistas mais originais surgidos no Brasil. Por Carlos Careqa

      7. O berimbau, a percussão e a voz de Naná Vasconcelos

        Playlist contempla trabalhos de autoria de Naná Vasconcelos e suas contribuições nos trabalhos de amigos

      8. Especial Kuarup Disco (Parte 2)

        Segunda parte do especial sobre a gravadora carioca focaliza a música instrumental. Com Dino 7 Cordas e Raphael Rabello, Carlos Poyares e Paulo Moura

      9. “O diferencial do Paulinho Nogueira eram os acordes”

        Ele começou sua carreira como desenhista de publicidade e, anos depois, assumiu o violão profissionalmente. Juju Nogueira recorda a trajetória do pai

      10. Série Instrumento: Violão

        Seleção lista interpretações de Dilermando Reis, Rosinha de Valença, Vera Brasil, Geraldo Vespar e Sebastião Tapajós

      11. Série Instrumento: Baixo

        Playlist reúne os titulares do ritmo Luizão Maia, Luiz Chaves, Liminha, Jamil Joanes e Arthur Maia

      12. Série Instrumento: Bateria

        Com os craques do ritmo João Barone, Milton Banana, Edison Machado, Zé Eduardo Nazário, Nenê e Chico Batera