//Séries//no mundo

“O mercado europeu de música instrumental acabou!”

Clarinetista italiano, Gabriele Mirabassi comenta sua relação com a música brasileira

texto Itamar Dantas

O clarinetista italiano Gabriele Mirabassi: música erudita, brasileira e jazz. Foto: reprodução

Gabriele Mirabassi é um clarinetista italiano apaixonado pela música brasileira. Ainda jovem, entre os anos 1970 e 1980, teve o primeiro contato com a cultura do país. Encantava-se com os discos de Egberto Gismonti, mesmo sem saber a nacionalidade do intérprete. “Eu só me tocava que era um compositor maluco, que colocava frevo e maracatu nos temas!”

Da música erudita, o instrumentista foi para o jazz, gênero em que se consagrou. Foi somente no final dos anos 1990, quando recebeu um convite de sua gravadora para fazer um disco com o violonista Sérgio Assad (Velho Retrato, 1999), que mergulhou de vez na música brasileira. Já em 2004, registrou com Guinga o disco Graffiando Vento e, em 2009, gravou com o pianista André Mehmari o álbum Miramari.

Mirabassi afirma que a riqueza harmônica e poética da música popular do Brasil chamou sua atenção. “Para vocês, brasileiros, ter compositores do nível de Tom Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque na música popular é normal. Vocês estão acostumados com essa cultura musical. Mas o nível de conteúdo é muito erudito, muito complexo. Naturalmente, a complexidade vem de uma tradição folclórica”, afirma o músico.

No dia 30 de novembro, Mirabassi se apresentou ao lado de Guinga no Festival Choro Jazz, realizado em Jericoacoara, Ceará. Em entrevista ao Álbum, o clarinetista fala de sua relação com o Brasil e a quantas anda a vida cultural na Europa.

ÁLBUM – Como se deu o seu primeiro contato com a música brasileira?
GABRIELE MIRABASSI – Desde adolescente eu ouvia Egberto Gismonti. Ele foi o primeiro brasileiro que eu gostei. Eu não sabia que ele era brasileiro; era fácil achar os discos dele na Europa, mas não tinha nenhuma indicação de que era do Brasil. Eu só me tocava que era um compositor maluco, que colocava frevo e maracatu nos temas, mas ainda não tinha essas referências. Depois disso, muitos anos mais tarde, tive uma grande oportunidade. Um produtor me contratou para gravar um disco de duo de violão e clarinete com um compositor erudito. Ele tinha um nome estranho, Assad. Foi uma semana no estúdio com o Sérgio Assad. Foi tão fascinante que eu comecei a pedir informações sobre a música brasileira. Ouvi pela primeira vez falar do choro, de um cara que se chamava Pixinguinha. Depois conheci Nelson Cavaquinho, Cartola. As canções têm um requinte, uma dificuldade harmônica impressionante, e são populares. Dez anos depois, em outra situação, acabei fazendo outro disco em duo, desta vez com o André Mehmari. O André é outro milagre que só poderia acontecer no Brasil. Ele transita entre o erudito e o popular com uma fluência impressionante. Então, com todas essas experiências, eu comecei a visitar o país, pesquisar, aprender a língua. Isso se tornou fundamental para a minha formação.

O que te chamou mais atenção na música popular daqui?
Para vocês, brasileiros, ter compositores do nível de Tom Jobim, Edu Lobo e Chico Buarque é normal. Vocês estão acostumados com essa cultura musical. Mas o nível de conteúdo é muito erudito, muito complexo. Naturalmente, a complexidade vem de uma tradição folclórica. E isso tudo faz com que aconteça um milagre. Ninguém entende bem o que é um compositor como o Guinga na Europa. É um dos compositores contemporâneos mais impressionantes com quem eu já tive contato. Comecei estudando música erudita. Depois encontrei o jazz. Mas ainda me faltava um pedaço. A música brasileira tem uma coisa que mistura o erudito e popular, reúne os pedaços espalhados da minha formação, me completa.

O que chega da música brasileira na Europa?
Trabalho muito com o Guinga, fiz um disco com o André Mehmari. É difícil explicar que isso é música brasileira na Europa. Eles esperam João Gilberto, a bossa nova, existe esse estereótipo. Quando chegam músicos como esses lá, é difícil explicar que isso é Brasil. Fico muito orgulhoso. Agora, está surgindo um movimento de choro na Itália. Tenho um pouquinho de participação nisso. Sempre levei músicos daqui para tocar lá e eles sempre me convidam para participar dos seus shows. Hamilton de Holanda e Yamandu Costa estão montando carreiras importantes no mercado europeu. Eles estão tocando muito por lá no meio jazzístico. Nos últimos anos, o interesse pela música brasileira cresceu muito.

Como anda o mercado europeu de música instrumental?
Acabou. A Europa está passando por uma das piores crises econômicas desde a Segunda Guerra Mundial. Acabou a verba completamente, de um dia para o outro. Festivais estão acabando, pagando metade do cachê. Gravadoras e lojas de discos estão fechando. As gravadoras estão mandando muita gente embora. Pobre não tem dinheiro para comprar discos.

Foi difícil se adaptar a esse “sotaque” da música do Brasil?
Desde que eu me aproximei da música brasileira, venho buscando cada vez mais referências. Agora eu posso dizer que conheço um pouco da música daqui. Mas é um mundo tão enorme; eu só peguei uma pontinha. Eu não troquei de nacionalidade, continuo italiano, minha formação principal é de lá. Mas, trabalhando com a música daqui, e ciente dessa complexidade, acho que é necessário conhecer cada vez mais para me adaptar às nuances. É um ato de amor, de respeito.

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