//Séries//no mundo

“O complexo não é o mais difícil, é o inimaginável”

Moçambicano Stewart Sukuma e sua música: do ritmo marrabenta ao jazz e ao pop contemporâneo

texto Itamar Dantas

Sukuma se apresentou no Auditório Ibirapuera no dia 24 de fevereiro. Foto: Itamar Dantas

“Numa floresta, um homem barbudo e cabeludo esculpia em madeira a figura de uma mulher com todos os detalhes e em seu tamanho natural. Ele se sentia completamente só e queria uma companheira. Depois do trabalho feito, ele constrói uma cabana e põe essa mulher à porta, na esperança que um dia ela se transforme em uma mulher de verdade. E, um dia, ela ganha vida”, assim Stewart Sukuma descreveu a história contada em “Mahuta”, uma das canções apresentadas pelo músico moçambicano no dia 24 de fevereiro, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

O tema vem do folclore de Moçambique, uma das bases do trabalho musical do artista. No show, ele e sua banda Nkhuvu mostraram um pouco dessa cultura, indo do tradicional ritmo marrabenta a canções que passeavam entre jazz, música pop contemporânea e outros elementos da cultura moçambicana. Apesar de já conhecer o Brasil de outros carnavais, foi a primeira vez que o músico se apresentou no país com toda a sua estrutura e banda. E, com inúmeros amigos presentes, a banda Nkhuvu e Stewart dançaram, cantaram e tocaram.

Em Moçambique, Sukuma é uma figura conhecida: tem um programa de TV no canal RTP África voltado ao turismo, é cantor e compositor com mais de 30 anos de estrada e, em dezembro, foi nomeado pela Unicef como Embaixador da Paz de seu país, aumentando suas responsabilidades em trabalhos sociais que já vinha desenvolvendo ao longo de sua trajetória.

Esses trabalhos têm muita influência em sua história. Ainda criança, vindo de uma família pobre e em meio à luta de seu país pela independência [até 1975, Moçambique era colônia de Portugal], uma ação social do governo realizada no Natal anunciou seu futuro: ele ganhou uma guitarra de plástico. “Depois disso, entrei para um grupo de dança tradicional e isso aguçou ainda mais a minha busca pela música.”

A carreira toma corpo com o passar dos anos. Entre os 18 e 20 anos de idade, começou sua carreira profissional, solo. Em 1987, o músico integrou a Orchestra Marrabenta Star de Moçambique, a primeira banda que levou o ritmo tradicional moçambicano para o mundo. E, dali para frente, não parou mais. Em entrevista ao Álbum, o músico conta um pouco sobre a sua trajetória, os problemas de seu país e os seus trabalhos para melhorar o lugar onde vive.

ÁLBUM – Como surgiu o seu interesse pela música?
STEWART SUKUMA – Quando eu era criança, lembro de algumas coisas engraçadas. O fato de ouvir rádio, um elemento tão pequeno, e pensar que lá dentro tinham pessoinhas a cantar e tocar mesmo. Nunca havia pensado que a rádio fosse uma transmissão de ondas, curtas, médias. O meu fascínio pela música e pelas artes começa nesse período, de uma forma muito inconsciente. Eu venho de uma família pobre, sem muitas posses; venho de Quelimane, que é a capital de uma província no centro de Moçambique. E nós nos beneficiávamos muito de ajuda social. Havia o Natal dos pobres. E foi ali que eu ganhei uma guitarra de plástico. Acho que aquilo foi claramente uma indicação do que eu, no futuro, iria seguir. Esse foi o primeiro indício. Depois, entrei para um grupo de dança tradicional e isso aguçou ainda mais a minha busca pela música. Mas, profissionalmente, comecei a cantar com 18 e 20 anos.

Em 1975, Moçambique finalmente alcançou a independência de Portugal. Como isso se refletiu na sua música?
Quando ouvíamos falar da revolução, da independência, nós queríamos fazer parte dela, eu queria fazer parte dela. Eu atravessei um período muito difícil porque as pessoas pensavam que quem iria trazer a independência era o poder negro. E eu não era nem branco nem negro o suficiente para embarcar na independência. Havia uma expressão que me marcou muito: “misto não tem bandeira”. Não está nem de um lado nem do outro, não é branco nem preto. Isso me motivou a enveredar por um estilo de música que representasse o país. Eu queria provar que, independentemente da minha cor, eu era moçambicano e iria defender a minha bandeira, muito mais do que aqueles que se consideravam pretos originários ou seja lá o que for. Isso fez com que eu pegasse a cultura, a tradição de Moçambique, e a transformasse para mostrar ao mundo da melhor forma.

Você participou da Orchestra Marrabenta Star de Moçambique, a primeira a levar a música tradicional moçambicana para o exterior. Conte um pouco dessa fase.
Nessa altura eu já era solista; esse era um projeto que levava convidados para tocar com a banda da rádio pública de Moçambique. Eu era um desses convidados. Deu-se o nome da banda Orchestra Marrabenta Star de Moçambique. Era uma banda representativa desse estilo musical: a marrabenta. Durante quatro anos, transportamos essa música para vários palcos do mundo. Tocamos em palcos onde só tocavam grandes bandas africanas, como Manu Dibango. Eu tocava percussão e cantava. E as coisas não acontecem por acaso, porque a minha música é muito percussiva. A Orchestra Marrabenta me deu bases bem seguras para fazer uma música representativa de Moçambique. A música moçambicana cresceu muito e sofreu muitas modificações, com todas as influências que nós recebemos de fora. E há outro lado, com aspectos culturais que nós conseguimos manter intactos. Essa miscelânea toda gera a minha música. A Orchestra Marrabenta foi uma escola; quando eu saí, já tinha uma noção daquilo que queria fazer, era só ir buscar. Hoje eu sei para onde quero ir. Eu sei o caminho que devo tomar para atingir os meus objetivos na composição musical.

Para onde você quer ir?
Eu quero ir para uma música mais tradicional, mais simples, mas, de certa forma, mais complexa. Complexo não é necessariamente o mais difícil. O complexo é o inimaginável. Você ouve uma música e diz: “Como é que eu não pensei nisso antes? Isso é complexo porque não é simples de atingir”. Só quem trabalha muito, quem faz muitas experiências, quem está muito ligado ao que gosta de fazer na música é que consegue um feito desses. Eu estou à procura disso. Ainda não cheguei, não atingi esse nível que tracei para mim mesmo como uma meta. Mas também não estou muito longe, acho que o caminho é esse. Buscar uma música mais soul, mais minimalista, sem uma banda muito grande, com mais canto. É isso que eu quero no futuro.

Muitos músicos de Moçambique, quando começam a ter mais destaque, acabam saindo de lá para países próximos, como a África do Sul, ou com mais estrutura. Por que isso acontece?
Moçambique não tem uma indústria musical formada. Depois da independência, havia outras prioridades. E uma delas era a reconstrução nacional. A música era considerada uma coisa supérflua. A cultura sempre foi mais respeitada pelos governantes do que a própria música. Perdemos essa base do negócio, do trabalho. É difícil traçar um caminho com uma dinâmica contínua. Nós tivemos uma guerra civil em Moçambique [a guerra civil moçambicana durou de 1976 a 1992], que não permitia que as pessoas se movimentassem; todas as vias de circulação foram cortadas, havia escassez de tudo. E nós tínhamos de fazer das tripas filé mignon. Eu sou desse tempo da guerra. No meu caso, para sobreviver de música, o que eu fiz foi criar uma indústria para mim mesmo, onde eu me movimento, onde sei como fazer as coisas. Em Moçambique há no máximo 15 músicos que têm a mesma articulação, a mesma facilidade de movimentação que eu tenho. E mesmo assim é difícil. Moçambique é um país com músicos fantásticos, muito bons. Sejam eles músicos de acompanhamento, solistas ou intérpretes, tem uma variedade muito grande. Não tem uma indústria que suporte esses músicos todos. E faço a minha própria produção de espetáculos, edição discográfica. Nós conseguimos fazer em média de 40 a 50 shows por ano, entre Moçambique e fora do país.

Conte um pouco do trabalho que você apresenta aqui no Auditório Ibirapuera.
Enquanto o meu próximo disco não fica pronto, vamos apresentando esse, que é a celebração da música moçambicana. Estou preparando um trabalho, que é o segundo da trilogia Boleia Africana. É uma colaboração entre a minha música e músicos de todos os países onde a cultura da África já esteve presente. A Península Ibérica foi colonizada por mouros durante sete séculos, do século VII até o XIV. E os mouros vinham do norte da África, eram árabes de pele escura. Agora, você imagina a influência que esses povos deixaram na Europa? Eu decidi que ia buscar essas influências e misturar com os elementos africanos, aqueles que permanecem mais puros do que outros que foram adulterados por outras culturas. Ia também passar por onde os portugueses passaram: Brasil, Índia, São Tomé, Cabo Verde, Angola… fazer um álbum que tivesse essas referências. O disco em que estamos trabalhando é um projeto mais minimalista do que esse, mostra outro lado da música moçambicana; mostra mais aspectos das danças, da cultura, misturadas a uma técnica moderna de instrumentistas.

O que é necessário mudar em Moçambique?
Acho que é a educação. O sucesso da minha carreira pode ser um bom indicador e dar autoridade à juventude para ter uma boa perspectiva de seu futuro. Isso só pode acontecer pela educação, com um bom currículo. Em relação aos adultos, sempre que pudermos, é preciso olhar pela capacitação, no sentido de desenvolver o país. O desenvolvimento do país vem do povo. Se o povo não tem boa educação, o crescimento do país não se sustenta.

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