//Séries//no mundo

“New Order e Joy Division revolucionaram!”

O baixista inglês Peter Hook fala da herança das bandas que integrou

texto Itamar Dantas

Peter Hook fala de suas escolhas para o show que faz no país e sua relação com o Brasil. Foto: Itamar Dantas

O baixista Peter Hook fará um show com sua banda Peter Hook & The Light nesta sexta-feira, 31 de outubro, às 23h, no Clash Club, em São Paulo (Rua Barra Funda, 565). Dois álbuns de sua carreira serão revisitados: Lowlife (1985) e Brotherhood (1986), lançados pelo New Order. Hook foi criador e baixista por mais de 30 anos do grupo inglês de Manchester. Acumula também a criação de outra banda referência da música independente e do pós-punk, a Joy Division, formada anos antes do New Order pelos mesmos amigos e encerrada com o suicídio do vocalista, Ian Curtis, em 1980.

Hoje desafeto dos antigos parceiros do New Order, o músico não perde oportunidade para alfinetá-los. Quando fala dos shows em que a banda faz por aí, deixa claro sua opinião: “Eles estão sendo uns chatos e eu faço isso de uma outra maneira”.

Em entrevista ao Álbum, o músico fala sobre a turnê, a relação com o Brasil, o universo independente e a distribuição de música na internet: É esperado do músico que ele aceite ser roubado. Isso é muito estranho”, defende.

ÁLBUM – Como você concebeu o show e resolveu tocar esses álbuns na íntegra?
Peter Hook – Quando comecei a pensar nisso eu não estava tocando com banda, estava tocando como DJ. Eu queria celebrar Ian Curtis nos 30 anos de sua morte. OK se eu ignorar o Joy Division e me concentrar no New Order, né? À medida que o New Order ficava mais e mais conhecido, eu me incomodava com o fato de nós nunca celebrarmos a obra do Joy Division, 1, 5, 10, 20, 25 anos depois… Para mim soava ridículo não celebrar. Então, não tenho uma boa relação com eles; a nossa relação está muito ruim. E eu decidi fazer isso com meus amigos, tocar Joy Division no meu próprio clube e foi muito bom. Isso foi em Manchester. E  foi muito bem recebido! Comecei a pensar que seria ótimo tocar músicas do New Order que foram ignoradas pelo próprio New Order. Várias dessas músicas que vamos tocar não são tocadas há 25 anos. É ridículo! Na minha opinião eles eram muito preguiçosos, foram muito conservadores nas escolhas musicais. É muito legal vê-los tocando o mesmo set list de 2000, 2006, 1998. Eles estão sendo uns chatos e eu faço isso de uma outra maneira. É meu modo de tocar e celebrar esse som que eu fazia antes que o Ian se fosse, até que eu vá encontrar com ele no andar superior ou me aposente. O que vier primeiro… [risos]

Sua primeira visita ao Brasil foi em 1988, certo?
Não, nós viemos ao Brasil muito cedo, acho que em 1984.

Vocês tinham um grande público por aqui?
Sim, é interessante. Revenge veio. Monaco veio [bandas que Hook integrou]. O New Order veio aqui quatro ou cinco vezes. Tocávamos na Inglaterra para 500, 800 pessoas e quando viemos ao Brasil nós tocamos para milhares. Ficamos muito surpresos e muito felizes! O promotor dos shows que era muito famoso e se chamava Phill Rodriguez dizia que nós éramos muitos jovens. O Brasil era um país fascinante, mas os preços subiam muito porque a inflação era muito alta. Entre a nossa chegada e a hora de irmos embora, os preços subiam radicalmente. É bizarro! No Brasil, podemos ver os problemas imediatamente, a pobreza, as favelas são muito presentes. É uma cultura chocante para nós.

Você tem alguma relação com a música brasileira?
Ouço música brasileira, mas quando as pessoas vêm me mostrar. Eu não toco música brasileira porque quando sou chamado querem ouvir o meu set list, seria meio estranho. Mas eu tenho uma relação confortável com o Brasil. Conheço ótimas pessoas, ótimos lugares. Visito muitos lugares, vejo os problemas locais, da Inglaterra, inclusive com meu trabalho. Vejo que as pessoas resolvem os problemas do jeito delas.

Sobre bandas que você ouve agora, reconhece as influências de vocês (Joy Division e New Order) em alguém atual?
Quando se torna um músico, você começa graças a tudo aquilo que ouviu antes. Você pega as suas experiências… Ouço Lady Gaga! Estava ouvindo na escada do hotel: “é horrível!”. Não ouço muitas coisas que sejam revolucionárias. O New Order e o Joy Division revolucionaram! O Metronomy é uma grande banda inglesa, é fantástica. Às vezes é muito bom estar em um clube e ouvir uma nova banda, mas não sou um grande juiz.

Você é quem escolhe as bandas que tocam na sua casa noturna?
Eu não sou o curador. Se eu fosse o curador, provavelmente os mais jovens diriam: “O quê?!”. O conceito original do clube era para ser para pessoas mais velhas. Mas as pessoas querem coisas novas. O conceito mudou. Tenho pessoas que escolhem as bandas que vão tocar lá, mas meu negócio é a música. É lógico, oferecer isso a novas bandas, dar oportunidade a novas bandas para tocar.

Vocês foram uma das maiores bandas independentes dos anos 1980. Como você avalia esse universo agora? É mais fácil ou mais difícil para as bandas atuais?
É exatamente o que você disse. É mais fácil e mais difícil. Com a internet é mais fácil para uma pessoa alcançar a música, mas é mais difícil ser pago por isso. Os que mais sofreram com a pirataria na internet foram os músicos. Porque as pessoas pegam a sua música e não pagam por isso. Então, considerando que venho dos anos 1980 e 1990, em que cada gravação era um disco vendido, nós conseguíamos sobreviver. Isso já era! É esperado do músico que ele aceite ser roubado. Isso é muito estranho! Sou sortudo porque faço muitas músicas com muitas pessoas, e eu faço muita música do meu jeito, com o grupo que defendo e crio do meu jeito, Peter Hook and The Light. Mas fazer um álbum do seu jeito com 12 músicas matadoras, em um ano de trabalho, é difícil. Você cai em problemas. Os novos músicos estão acostumados com isso. Na minha época o álbum era o rei. Mas para mim a internet é um monstro faminto, que engole tudo. E você tem de sentar lá e desejar boa sorte! Colocar uma música na internet não é nenhuma garantia de sucesso. Por causa disso vários músicos e promotores têm de fazer a música e promover muito. Ou o que se tem a fazer é ficar bêbado. Hoje o músico tem de ser um empresário de sorte e um personagem do rock and roll. Isso que acontece é interessante! No New Order, nós odiávamos tocar ao vivo. Gostávamos de estar no estúdio. Hoje não existe isso. Nós temos de tocar, senão não há dinheiro. Tem um grupo na Inglaterra chamado Blue Nile que nunca tocou ao vivo, mas eles fizeram alguns álbuns ótimos. Blue Nile não pôde continuar. É um tempo interessante! Em 2014, supostamente é o primeiro ano da história da música em que não existe um disco de platina. As vendas digitais estão caindo. Só conseguiremos dinheiro tocando e passando o chapéu. Isso não é distante. Tenho amigos que estão fazendo isso.

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