//Séries//no mundo

Musicalidade fluida com profundidade ancestral

André Ricardo, do Höröyá, fala da interseção cultural entre Brasil e África promovida pelo grupo

texto Itamar Dantas

Höröyá durante a apresentação no Itaú Cultural. Foto: Christina Rufatto

O grupo Höröyá se apresentou no Itaú Cultural no dia 10 de junho de 2016 e mostrou sua música baseada na fusão entre a cultura afro-brasileira e a africana. Formada por músicos do Brasil e da África, a banda utiliza instrumentos tradicionais do continente africano – como ngoni, dunun e djembê – e outros mais comuns no Brasil – como cuíca, guitarra e atabaque.

Em entrevista à série No Mundo, o idealizador do grupo, André Ricardo, fala sobre o trabalho que guiou a criação da banda e também sobre a sonoridade e os ideais do Höröyá.

ÁLBUM – Conte um pouco sobre a formação do Höröyá.
ANDRÉ RICARDO – Höröyá nasce com a ideia da recriação de linguagens que eu toco e estudo, como música malinqué, sabar [culturas do oeste da África] e samba. Estudei e toquei com vários mestres dessa cultura, como Famoudou Konate e Bolokada Conde, fiz parte de escola de samba, toco em rodas de samba tradicionais e acompanho sambistas como o mestre baiano Riachão. No disco, além da produção, gravei os dununs, caxixis, krin, sabares, tama, ngoni, balafom, cuíca e berimbau. Fazendo a ponte com o mundo mais ocidental, Tobias Kraco criou as guitarras, com influência de diferentes musicalidades negras, como afrobeat, funk e reggae. Nando Vicêncio entrou com as linhas de baixo, completando o groove e a estrutura de base da musicalidade.

Os arranjos de sopro, no geral, foram feitos por mim, cantados ou tocados em instrumentos de percussão e depois arranjados em saxofone por Nando Vicêncio e Richard Fermino. Nas gravações, Fermino trabalhou com sax barítono e tenor, trombone, trompete e clarone; e Sintia Piccin, com sax tenor. Nos djembês, o mestre guineano Bangaly Konate faz as frases de solo que complementam e “disputam” rítmicas com os solos de sopro, costurando o tradicional e o moderno e formatando a cara do grupo. Por fim, Alysson Bruno – ogã de terreiro de candomblé Ketu, excelente percussionista – gravou os atabaques com linguagem afro-brasileira. Assim se deu o processo de criação e produção musical do grupo e do disco. No formato ao vivo, também são parte integrante do time Adilson Fernandes, Jefferson Cauê e Romulo Nardes, outros excelentes percussionistas.

Höröyá bebe na cultura mandinga e na cultura de terreiros brasileira, entre outras manifestações. Como se dá o processo de composição em meio a essas influências?
O processo se dá ao longo da vida. Pode parecer exagero, mas é por aí mesmo… Música é linguagem. E para entrar nesse mundo complexo e profundo de culturas muito antigas, com forte tradição, ritmos seculares… tem de escutar, estudar e tocar muito, durante anos, até passar a incorporar as linguagens, adaptar a execução técnica dos instrumentos… É um processo ao longo da vida mesmo. Eu toco há 20 anos e, nos últimos oito, dez anos, me dedico a essas linguagens do oeste da África e às culturas de matrizes africanas diariamente.

O primeiro passo das composições é a parte rítmica. A criação do ritmo é feita com a instrumentação definida como base da musicalidade do grupo (dununs, djembê, caxixi, krin e sabar, principalmente). Não são ritmos tradicionais, são invenções nossas nesse formato criado. O restante das linhas dos outros instrumentos também é criado sob essa concepção. Quando um percussionista cria as frases de sopro, algo diferente acontece. Segue um caminho de “evolução” musical de concepção africana, e não o caminho ocidental, de variações melódicas. Sem usar a ideia de refrão, usando métricas irregulares, com os sopros não fazendo função de tema: música instrumental, complexa, porém sem soar “cabeçuda”. Tentamos manter uma musicalidade fluida, orgânica e dançante, mas com profundidade ancestral.

Poderia falar sobre temas que trazem o aboio (“Aboyhörô”) e o samba (“Samba Recck”) nessa perspectiva da música apresentada pelo grupo?
O disco tem uma faixa de abertura que expõe uma crítica à nossa formação como país, os ideais centrais do grupo e os mestres e os caminhos que exaltamos. Depois passa por um mundo africano mais moderno, falando de uma África mais tradicional, porém revisitada em nosso formato. No fim, segue para uma reafirmação de afrobrasilidades. Aí se encaixa “Samba Recck”, misturando uma parte que tem o samba com cuíca – convenção de estilo de escola de samba – e depois muda de rumo, seguindo para uma levada do mundo do sabar, da Guiné e do Senegal. Já “Aboyhörô” fecha o disco, com uma primeira parte de canto de aboio feito por Naruna Costa e um texto de reafirmação de valores e ideais de Roberta Estrela D’Alva, tendo ao fundo uma composição rítmica que remete à abertura, porém no mundo afro-brasileiro, com a participação de Maurício Badé no ilú.

Quais são os próximos passos do grupo?
O grupo está firmando seu formato e sua musicalidade, tentando atingir cada vez mais pessoas, formar público, e armando uma sequência de shows em São Paulo e outros estados. Fora isso, já temos algumas ideias novas gravadas para o próximo álbum e também estamos formando parcerias para expandir nossa música… Várias novidades virão!

  1. talento puro e denso! <3

    | camila

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