//Séries//no mundo

“Jamais reneguei minhas raízes, eu as universalizei!”

Ithamara Koorax fala como o sucesso no exterior prejudicou seu reconhecimento no Brasil

texto Itamar Dantas

Ithamara Koorax (esq.) e a capa de seu mais novo trabalho, o álbum Got to Be Real, lançado em 2012. Fotos: divulgação

Ithamara Koorax é frequentemente chamada de “a mais importante cantora brasileira de jazz” em notícias e reportagens pelo mundo afora. A alcunha, no entanto, em vez de torná-la mais conhecida no Brasil parece afastá-las dos veículos de comunicação. Pouco comentada na mídia nacional, mantém uma rotina de aproximadamente 80 shows por ano no país, sempre apoiada pelo público fiel que angariou ao longo dos anos e pela sua grande representatividade no exterior. Para ter uma ideia, Ithamara foi reconhecida como uma das três maiores cantoras de jazz da atualidade no Prêmio Annual Readers Poll de 2008 e 2009, publicado pela revista norte-americana DownBeat, conhecida como a bíblia do jazz.

Ithamara iniciou sua carreira em 1990, tendo como madrinha a cantora carioca Elizeth Cardoso (1920-1990). De lá para cá, gravou 15 discos, fez 8 trilhas de novelas e já atuou ao lado de Tom Jobim, Airto Moreira, Hermeto Pascoal, Ron Carter, Larry Coryell, John McLaughlin e Gonzalo Rubalcaba, entre outros. Seu álbum mais recente, Got to Be Real, lançado em 2012, foi produzido e arranjado por Arnaldo De Souteiro, com José Roberto Bertrami nos teclados [ex-Azymuth, falecido em 8 de julho de 2012], Haroldo Jobim na bateria e Jorge Pescara no baixo.

Nos dias 28 e 29 de setembro, Ithamara se apresenta ao lado da Orquestra Jazz Sinfônica no Auditório Ibirapuera, quando interpretará canções de João Gilberto. Em entrevista exclusiva ao Álbum, a cantora fala de sua relação com o público e a mídia e de sua visibilidade no exterior, e alfineta o mercado brasileiro de música: “Não existe mercado de jazz no Brasil”.

Álbum O que te impulsionou a levar sua carreira para o exterior?
Ithamara Koorax − Foi uma consequência do interesse do mercado internacional pelo meu trabalho. Minha primeira turnê pelo Japão aconteceu apenas seis meses depois de eu ter iniciado minha carreira profissional, em janeiro de 1990. O primeiro convite para gravar nos Estados Unidos, com o trompetista Art Farmer, surgiu em abril de 1991. Meu primeiro CD também foi lançado no exterior, pela JVC japonesa, em 1993, e só depois distribuído no Brasil. Nada foi planejado. As coisas simplesmente foram acontecendo, e eu não podia desprezar essas oportunidades. Continuava fazendo muitos shows no Brasil e gravando músicas para novelas da Rede Globo (foram dez trilhas no total), mas, a partir de 1995, minha carreira tomou uma projeção internacional significativa. Aprendi com Hermeto Pascoal que os ritmos são regionais, mas a música é universal, então eu jamais reneguei minhas raízes, eu as universalizei.

Como se deu sua entrada no mercado norte-americano?
Durante certa fase, entre 2000 e 2003, passei longos períodos lá porque tinha assinado um contrato de distribuição com a Milestone Records, uma das gravadoras mais importantes da história do jazz. Então eu sabia que deveria estar lá. Estavam investindo em mim, apostando no meu talento, meus discos começaram a tocar muito nas rádios dos Estados Unidos. Antes desse contrato com a Milestone, embora eu já excursionasse e tivesse meus discos lançados na Europa e na Ásia há dez anos, eu era desconhecida nos Estados Unidos; a imprensa norte-americana me ignorava. Mas depois do lançamento do Serenade in Blue, no início de 2000, tudo mudou. Houve um boom e, no final daquele ano, eu já estava colecionando prêmios e fiquei em terceiro lugar como Artista do Ano na votação da revista DownBeat, atrás apenas de Sting e de Carlos Santana, o que dá uma ideia do que aconteceu.

A Elizeth Cardoso foi sua madrinha no início da carreira. Como foi essa relação?
Elizeth foi uma pessoa importantíssima na minha carreira. Minha cantora brasileira predileta, e eu jamais poderia sonhar que ela viesse a me amadrinhar. Sei que realmente me admirava. Convivemos por curto período porque ela veio a falecer cerca de um ano depois de nos conhecermos, mas foi um relacionamento musical muito intenso. Ela me ensinou muitas coisas, me convidou para participar de seu último disco (Ary Amoroso, lançado postumamente) e até hoje é uma grande referência no meu trabalho.

Você já trabalhou com vários grandes nomes da música. Como conheceu toda essa turma, de brasileiros e de estrangeiros?
O prêmio mais importante que recebi na vida foi a chance de trabalhar com os meus ídolos: Antonio Carlos Jobim, Luiz Bonfá, Ron Carter, Larry Coryell, John McLaughlin, Gonzalo Rubalcaba, Jay Berliner, o grupo Azymuth, Mario Castro-Neves, Dom Um Romão, João Donato, Baden Powell, Elizeth Cardoso, Tito Madi, Edu Lobo, Raul de Souza, Dave Brubeck, Claus Ogerman… São a nata da nata, os maiores do mundo! Eu já conhecia todos eles musicalmente, então quando os encontrei fisicamente já havia uma sensação de proximidade. Alguns deles eu ouvia desde criança, outros depois que me profissionalizei. O Tom eu encontrei por meio da irmã dele, a Helena Jobim; ele ouviu meu primeiro CD, que tinha três músicas de sua autoria, me ligou para me parabenizar e se colocou à disposição para participar de um próximo trabalho; pouco depois estávamos gravando juntos. O Bonfá me conheceu e fez uma música para mim após me ver num especial de TV com o Baden Powell. Aí o Bonfá me apresentou ao Ron Carter e ao John McLaughlin. O Jay Berliner, que cresci ouvindo nos discos do Charles Mingus e do Milt Jackson, eu convidei para participar do Serenade in Blue por meio do Eumir Deodato, que era amigo dele. E assim foi indo.

No jazz e na bossa nova, o que diferencia o mercado brasileiro musical do mercado internacional? Existe um modelo mais próximo do ideal?
Não existe mercado de jazz no Brasil. Acontecem apenas eventos isolados que são os festivais de jazz. Fui rotulada como cantora de jazz porque a imprensa musical norte-americana me deu esse carimbo. Eles achavam que eu cantava de uma maneira mais sofisticada, em termos de fraseado, do que as cantoras brasileiras que eles conheciam. Mas esse rótulo prejudicou muito a minha carreira no Brasil, porque o jazz é visto aqui como uma coisa elitista, impopular. Virei cantora de jazz mesmo cantando Martinho da Vila, Lulu Santos, Dorival Caymmi, Jorge Ben Jor, Geraldo Vandré. É muito estranho… E um ótimo pretexto para que eu não seja aceita em certas panelinhas da MPB. Faço uma média de 80 shows por ano no Brasil, quase todos lotados, tenho um público fiel, mas é como se nada disso existisse, porque este sucesso (considero um baita sucesso) não é comentado na imprensa. Outro dia peguei uma reportagem de 1990 feita comigo e com outras nove cantoras que estavam começando suas carreiras na mesma época. Fora a Cassia Eller, que morreu, e a Adriana Calcanhotto, que estourou, todas as outras desapareceram. Eu gravei 15 CDs, participei de outros 200 e gravei 8 trilhas para cinema e 10 para novelas da TV Globo etc. Mas esse currículo só desperta raiva e inveja. É lamentável. O (jornalista) Armando Nogueira ficava enlouquecido com isso. Uma vez escreveu um artigo para o Estadão tratando dessa questão; é um texto brilhante. Mas nada mudou.

O brasileiro é musicalmente bem-visto no exterior? As pessoas conhecem outros ritmos brasileiros além da bossa nova?
Existem vários estereótipos: abacaxi na cabeça, pandeiro na mão, o banquinho e o violão da bossa nova, só isso. Faça uma pesquisa para ver quantos discos de música brasileira são lançados no exterior com araras ou bundas na capa; é impressionante! Claro que a internet ajudou a quebrar certas barreiras. Mas geralmente o pessoal usa o Google para fazer média. Na véspera de uma excursão pelo Brasil, o cara dá uma olhada e, na hora de uma entrevista, cita alguém que está na moda. Faz parte do esquema do showbiz, mas não muda a realidade. Outra coisa completamente diferente é o prestígio que certos artistas brasileiros têm no meio jazzístico internacional. Afinal, temos os melhores músicos do mundo.

Você acabou de lançar um disco, o Got to Be Real. Como tem sido a receptividade do álbum no Brasil e no exterior?
No exterior, excelente. E olha que a promoção ainda está no início. Nos Estados Unidos, o disco somente será lançado em novembro, mas algumas lojas já importaram a edição europeia. Está tocando muito nas rádios, inclusive nas de música pop, na mesma linha de nomes como Adele e Jack White. Estou muito feliz.

Como será o concerto no Auditório Ibirapuera?
Meu primeiro concerto com a Jazz Sinfônica aconteceu em 2005, com o Teatro Sérgio Cardoso lotado – o que foi mais um “milagre”, porque não saiu uma matéria sequer na imprensa. Foi um dos três melhores shows de toda a minha carreira, uma noite emocionante. Para este reencontro, decidimos fazer basicamente uma versão sinfônica do meu CD Bim Bom, um songbook da obra autoral do João Gilberto, a última lenda viva da música brasileira. Depois de ter trabalhado com gênios como Jobim, Bonfá, Hermeto e Donato, só faltava me dedicar à obra do João. Não fazendo uma imitação, como tantos e tantas já fizeram, do jeito dele cantar. Mas trazendo à tona a sua criação como compositor, que acabou relegada a segundo plano injustamente. Porque, ouvindo uma música como “Bim Bom”, gravada por ele em 1958, como lado B do 78 rotações que tinha “Chega de Saudade”, você saca que a estética da bossa nova já estava inteirinha ali. “Chega de Saudade” era avançada para aquela época, chocou todo mundo. Mas o minimalismo de ”Bim Bom” ainda era muito mais avançado, muita gente preferiu fingir que não tinha ouvido, porque realmente não conseguiu entender. Tem gente que não entendeu até hoje… Se a cabeça do João não funcionasse na base do “Bim Bom”, não teria existido a concepção que ele aplicou às músicas do Tom. Todas as músicas do João são lindas, mas “Hoba-lá-lá” eu canto desde o meu primeiro show, em 1990. Gravei de um jeito completamente diferente para o Bim Bom, e agora regravei com outro arranjo para o Got to Be Real. Já tinha gravado “Minha Saudade” duas vezes para os CDs Wave 2001 e Bossa Nova Meets Drum ‘n’ Bass. Então, a minha intimidade com a obra autoral do João Gilberto vem de longa data.

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