//Séries//no mundo

Frames de um Brasil musical

Em 13 curtas, cineasta francês Vincent Moon registra a música folclórica e a nova safra de compositores e intérpretes

texto Itamar Dantas

Em 13 curtas-metragens, Vincent Moon retrata a produção musical contemporânea. Fotos: divulgação

Vicente Moon é um cineasta francês que, apesar dos 34 anos, já conta com uma extensa lista de filmes realizados. Independente, o profissional não costuma usar equipes em suas filmagens ou na edição do material. Trabalha sozinho. E também não planeja muito o que irá filmar, fica atento ao que acontece na hora. Nos últimos dez anos, tem viajado o mundo registrando trabalhos musicais, desde grandes shows em estádios a rituais religiosos de povos isolados.

Vincent já esteve no Brasil duas vezes. Em sua primeira visita, em 2011, registrou uma série de artistas pelo país. Tom Zé, Luiz Melodia, Elza Soares, Letuce, Thiago Petit, Carlinhos Brown, Sebastião Tapajós e Jards Macalé foram alguns dos que passaram por suas lentes. Em 2013, o filmmaker voltou ao país e fez mais 13 curtas, que intitulou Sons do Brasil. Nessa visita captou Metá Metá, Criolo, Uakti, Yamandu Costa, o Carnaval Bate Bola (zona norte do Rio de Janeiro), Roberto Menescal, Teresa Cristina, BNegão, Dona Cila do Coco, Tião Duá, Iconili, Raízes Caboclas e Ritmo do Rio.

Em entrevista ao Álbum, o cineasta fala de sua visita ao Brasil e de seu interesse pela nova música e pelas tradições religiosas do país.

ÁLBUM  Como iniciou o projeto Sons do Brasil? Quanto tempo demorou para preparar tudo?
VINCENT MOON  Sons do Brasil é o meu segundo projeto no país  depois da primeira visita em 2011 quando gravei vários retratos de músicos, de Elza Soares a Ney Matogrosso, de Tom Zé a Gaby Amarantos, de Carlinhos Brown a Thiago Petit… Nessa época fiz cerca de 20 filmes para o meu selo Petites Planetès. Eu queria voltar e explorar mais a fundo, claro, mas eu tinha menos tempo e pude fazer apenas esses 13 filmes que compõem o Sons do Brasil. A ideia é dar uma visão geral da música atual do Brasil, mas sem focar apenas nos novos sons (Metá Metá, que eu adoro, Criolo, Iconili, BNegão…), mas também retratar outras bandas folclóricas mais antigas (Raízes Caboclas, que compôs uma música para o filme, Uakti, Dona Cila de Coco…). Como é usual no meu trabalho, não houve preparação. Somente um encontro em algum lugar com um músico e a improvisação a partir disso.

Quanto tempo durou sua visita ao Brasil? Como foi?  
Fiquei menos de três meses. Paralelamente, eu estava filmando um grande projeto no Chile sobre uma música popular local (la cueca), e passei muito tempo expondo meu trabalho [Sesc Pompeia, em SP, Sesc Palladium, em BH]. Portanto, essa visita foi menos completa do que aquela que fiz há três anos, quando eu ia de São Paulo para o Rio, de BH para Brasília, de Salvador para Recife, de São Luís para Belém… Desta vez eu descobri somente Manaus e a Amazônia, onde filmei durante duas semanas O Ritmo do Rio. Em suma, foi um pouco frustrante não poder ficar mais tempo e ir mais fundo, especialmente na música religiosa. É por isso que estou voltando neste ano, mas para ficar pelo menos por um ano no país, para fazer um projeto maior sobre cultos afro-brasileiros e vários rituais sincréticos. O projeto chama-se Híbridos e vai tomar muitas formas, de um documentário de longa-metragem a webdocumentários e instalações.

Como você chegou a todos os músicos?
Eu pesquiso quando chego ao lugar. Tenho muitos amigos em todo o país que me ajudam a localizar os músicos mais interessantes na cidade e ao redor, e eu estou sempre à procura de algo novo. Todos os filmes que faço são de graça, não há dinheiro por trás; eu não tenho patrão, por isso tudo é feito por prazer, ninguém me diz para gravar isto ou aquilo. Quero manter essa independência tanto quanto possível e continuar a liberar os meus filmes de graça na internet, em www.vincentmoon.com, tudo sob a licença Creative Commons, que também é bastante popular no Brasil.

O que você acha desta nova produção musical brasileira?
Há tantas coisas que constantemente aparecem; tenho de me manter atualizado. Estou muito interessado em toda a cena da música experimental no Brasil, e também irei focar isso da próxima vez que estiver em São Paulo. No geral, eu amo esse aspecto absolutamente local de qualquer música no Brasil  nada vai soar como se fosse feito em Nova York ou Los Angeles. Na minha opinião, Metá Meta é uma das bandas mais empolgantes do mundo, por sua música e sua forma de trabalhar com as próprias referências.

Alguma dificuldade inesperada durante as gravações?
Há sempre coisas inesperadas, mas você tem de transformá-las em coisas boas, mesmo que soe como uma má notícia a princípio. E, mais uma vez, desde que você não tenha nenhuma expectativa antes da gravação, você só poderá ter uma boa surpresa.

Para ter acesso aos filmes produzidos pelo cineasta, visite o site www.vincentmoon.com.

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