//Séries//no mundo

Brasil e Argentina no mesmo palco

Carlos Villalba e Ensamble Chancho a Cuerda falam sobre o projeto Músicas del Sur

texto Itamar Dantas

No palco, os músicos Carlos Moscardini e Vitor Ramil (à frente) em meio ao grupo Ensamble Chancho a Cuerda. Foto: Rogério Vieira

Um dos projetos selecionados no edital Rumos Itaú Cultural 2013-2014, o Músicas del Sur mostrou em dois shows no Auditório Ibirapuera, dias 6 e 19 de setembro, uma parcela da música popular contemporânea produzida entre Brasil, Argentina e Uruguai. Na primeira noite, subiram ao palco os artistas Vitor Ramil (Brasil) e Carlos Moscardini (Argentina), seguidos por Ensamble Chancho a Cuerda (Argentina) e Benjamim Taubkin (Brasil). Já na segunda apresentação, dividiram o palco Dolores Solá (Argentina) e Arthur de Faria (Brasil), Liliana Herrero (Argentina) e Toninho Ferragutti (Brasil), Diego Schissi (Argentina), Marcelo Pretto e Ná Ozzetti (Brasil).

Em entrevista ao Álbum, o produtor proponente Carlos Villalba fala das escolhas dos artistas e dos desafios da integração entre a cultura dos países latino-americanos.

O produtor e compositor argentino Carlos Villalba. Foto: Pablo Radaelli

ÁLBUM – Como você chegou a esses nomes para integrar o projeto?
CARLOS VILLALBA – A ideia principal foi privilegiar artistas que estão há muitos anos trabalhando nessas trocas. É o caso de Benjamim Taubkin, que faz isso há 20 anos, não somente na América Latina como em todo o mundo. É o caso também de Arthur de Faria e seu intercâmbio com Dolores Solá, Liliana Herrero e Diego Schissi. Quase todos já têm uma relação. Diego Schissi já fez shows com Marcelo Pretto e Toninho Ferragutti. O encontro de Carlos Moscardini e Vitor Ramil também se dá pelo intercâmbio entre Argentina e Porto Alegre. É interessante buscar esses nomes. É o caso ainda do Ensamble Chancho a Cuerda, um grupo jovem que tinha muito interesse em trabalhar com o Benjamim Taubkin. O mesmo se passou com Liliana Herrero, que tinha dois sonhos: tocar no Auditório Ibirapuera e tocar com Toninho Ferragutti. Ela foi bastante privilegiada, pois conseguiu realizar os dois. Está muito bem paga [risos].

Como as músicas dos artistas selecionados se relacionam aos ritmos?
Não estamos pensando propriamente em ritmos. Estamos lidando com a ideia de música popular contemporânea que dialoga com a tradição e com distintas correntes musicais. No caso de Liliana Herrero seria uma música de folclore. Mas isso não serve para defini-la adequadamente; se fosse na música brasileira, seria um nativismo. E isso não a define bem. Como eu também não vincularia o Vitor Ramil somente à milonga, ritmo que une Uruguai, Argentina e Brasil. De certa maneira, são todos músicos pop, de popular. São contemporâneos, mas fazem um trabalho resgatando ritmos. Ferragutti e Benjamim Taubkin são casos emblemáticos. É MPB? Não é MPB. Tampouco é world music. São músicos brasileiros, com uma música brasileira. No entanto, lidam com muita informação. E esse parece ser o grande atrativo, seja com Ná Ozzetti, seja com Diego Schissi. Diego Schissi é um músico de jazz, mas é um músico que faz tango. Não há nenhuma dificuldade em tocar com Ná Ozzetti, Marcelo Pretto ou Toninho Ferragutti. Essa é um pouco a ideia, que nenhum deles perca a sua essência, mas que eles possam intercambiar e que tenham talento na formação e desejo de formar esses intercâmbios. Eles não têm nenhum problema em criar uma unidade com os elementos de cada um. Nenhum deixa de ser. Todos são. E encontram um lugar para propor entrecruzamentos que dão resultados muitos bons, mas também porque são muitos bons artistas. E é muito difícil que saia alguma coisa ruim.

Há a ideia de levar esse projeto a outros países?
Estamos estudando mostrar os resultados desses intercâmbios em Buenos Aires e Montevidéu. É um projeto de acumulação. Se fizermos o encontro em Buenos Aires, provavelmente chamaremos outros nomes também. Mas o importante é que esses encontros não estejam reduzidos a encontros ocasionais. Essa é um pouco também da graça do Música del Sur. Mais que um festival, é um encontro. Seria fantástico fazê-lo na Europa, em várias partes do mundo. É um roteiro comum. Músicas del Sur proporciona um diálogo do que se passa na música brasileira, argentina e uruguaia. Na Argentina há distintas músicas, distintas regiões, por isso denominamos os grupos que trazemos como música popular contemporânea. É possível dialogar com outras músicas que não sejam populares nem contemporâneas? Sim. Fazendo reduções, isso pode funcionar. Muitas das coisas do Músicas del Sur foram parte da programação do Programa Rumos. Uma das edições foi a que apresentou o Rumos à música da América do Sul. Luís Felipe Gama e Ana Luiza, Rubi, Alessandro Pennezzi e Alessandra Leão foram selecionados no Rumos. Por exemplo: podemos propor um encontro de músico mais contemporâneo com um músico mais regionalista. Eles vão se comunicar se houver interesses, se houver comunicações. Tem de haver um diálogo, porque os músicos têm de apresentar um resultado em dois ou três dias.

Quais são as dificuldades de realizar um projeto como o Músicas del Sur?
A região latino-americana tem uma dinâmica muito maior nos aspectos políticos e econômicos do que nos aspectos culturais. Algumas coisas são muito propagadas, do intercâmbio cultural entre os hermanos, mas quando vamos à prática essas iniciativas não são tão acessíveis. E os artistas têm vontade em fazer esse intercâmbio. Geralmente, eles são parceiros da iniciativa do Músicas del Sur. Muitas vezes esse intercâmbio não se dá por via econômica. Não são artistas que estão querendo ganhar um mercado. Existem outras vias para isso, outros caminhos. Não que isso seja ruim. É só outro caminho. Tomara que ganhem muito dinheiro. Mas é uma preocupação artística e cultural, não uma questão econômica. Se houver uma forma de retirar um ganho econômico, fantástico, mas não é isso que motiva o projeto ou os profissionais. O que é mais interessante é conhecer outras formas de pensar os países latino-americanos. A possibilidade de Vitor Ramil viajar para Buenos Aires lhe deu outras perspectivas. Isso não define a carreira dele, mas teve um impacto muito grande. Foi uma mudança positiva em sua carreira e em sua proposta estética. Ele terminou de consolidar algo que já tinha de particular. Isso é uma coisa desse espetáculo. Todos se sentem felizes e orgulhosos de participar da iniciativa.

O grupo argentino Ensamble Chancho a Cuerda também mostrou seu trabalho no projeto Músicas del Sur, no Auditório Ibirapuera. Formado pelos jovens músicos Nahuel Carfi (piano e voz), Julián Galay (baixo), Agustín Lumerman (percussão), Lautaro Matute (guitarra, violão e voz), Nicolás Rallis (violão e voz), Joaquín Chibán (violino e viola) e Manuel Rodríguez Riva (clarinete), o grupo se apresentou ao lado de Benjamim Taubkin e de Carlos Moscardini e Vitor Ramil.

Em entrevista ao Álbum, Ensamble Chancho a Cuerda fala de suas experiências musicais e sobre o mercado de música alternativa na Argentina.

ÁLBUM – Conte um pouco sobre o grupo e como esses encontros agregam à sua música?
NAHUEL CARFI – Chancho a Cuerda trabalha coletivamente. Todas as individualidades dentro do grupo são importantes. Arranjamos em conjunto. Compomos e trabalhamos juntos. E a música que fazemos é assim também, uma música de fusão.

JULIÁN GALAY – O que nos interessa é o intercâmbio com músicos de outros países. Temos interesse em compartilhar e aprender. Temos o grupo há oito anos e lançamos três discos. O segundo, Subversiones, é um concerto ambíguo em que interpretamos músicas de gente que admiramos, de amigos nossos e até músicas que nossos amigos compuseram especialmente para nós. E o processo de fazer esse disco é tão importante quanto o próprio resultado. Pegamos músicas de Diego Schissi, Egberto Gismonti, Violeta Parra. Conto para acrescentar que isso já estava no nosso grupo há algum tempo, mas se podemos ampliar e cruzar as fronteiras é muito melhor. Há dois anos fomos tocar no Uruguai e tivemos encontros muito enriquecedores.

CARFI – Foi no festival Jazz a la Calle, que aconteceu na cidade de Mercedes, Uruguai.

GALAY – Com músicos, sobretudo, da Argentina, do Brasil e do Uruguai, um núcleo forte para nossa música. Também havia músicos da França e dos Estados Unidos. Enorme prazer conhecer Benjamim Taubkin e tocar com ele, Vitor Ramil e Carlos Moscardini. É muito bom conhecê-los e tocar com eles.

O que vocês buscam na música de outro país?
LAUTARO MATUTE – O que nos importa é a música. Os diferentes encontros que temos com a música que se faz por aqui ou em outras partes do mundo abrem a cabeça, abrem os horizontes. Tocamos e estivemos com Benjamim, que tem uma coleção de discos de todas as partes do mundo na Casa do Núcleo. Saímos todos com a cabeça aberta. Ouvimos diferentes timbres, diferentes formas de tocar, canções de diferentes épocas. Aprender como os profissionais encaram a composição, a interpretação, e ver como funciona o trabalho, a dinâmica de quem tem muitos anos de experiência é uma aprendizagem eterna e bonita.

GALAY – Fico emocionado ao ver profissionais criar músicas com base na cultura popular ou quando temos a sorte de conhecer um músico da Áustria, que vai tocar com a gente hoje. Ele é um dos melhores músicos que escutamos na vida. Faz uma música original, mas tem uma ligação muito forte com a música tradicional. É muito enriquecedor para nós.

Como anda o mercado musical na Argentina?
CARFI – É uma pergunta difícil de responder. Por um lado na Argentina tem havido muitas intervenções de apoio à música por parte do Estado. Por outro lado, é difícil viver de música. Às vezes é difícil conseguir lugares para tocar, e isso é uma ideia louca porque vivemos em uma cidade muito grande como Buenos Aires. Ela está muito desconectada da cena nacional total. Há pouca circulação por todo o território. O movimento de músicos argentinos de fora do mainstream custa muitíssimo a circular e não há muita ferramentas que sustentem esses intercâmbios.

AGUSTÍN LUMERMAN – Depende muito do estilo de música. O folclore argentino tem um circuito armado. No caso de uma música que não tem tanto uma raiz estilística se complica um pouco mais.

GALAY – Isso se passa com o tango, 0 tango que se chama de folclore. O tango tradicional tem uma fatia de mercado muito mais estabelecida, sobretudo com os festivais. Os festivais são mais divididos por gêneros.

CARFI – A impressão que temos do Brasil é que há um maior investimento tanto público quanto privado de apoio à música.

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