//Séries//+70

Autodidata e cara de pau

O perfil e as histórias de um dos ícones da percussão brasileira, Robertinho Silva

texto Itamar Dantas

Robertinho Silva e, à direita, com Naná Vasconcelos e Milton Nascimento. Fotos: Aluizio Jordão/Museu Clube da Esquina.

Robertinho Silva é um dos principais bateristas e percussionistas da história da música popular brasileira. O músico é um dos fundadores da banda Som Imaginário, acompanhou Milton Nascimento por mais de 25 anos e tem no currículo incontáveis gravações com a boa safra de músicos nacional e internacional. Atualmente, Robertinho trabalha no lançamento de sua biografia e de um livro sobre rudimentos de bateria para ritmos brasileiros. Com a recente reunião da Som Imaginário, o instrumentista faz shows pelo Brasil com seus antigos parceiros e participa de uma série de projetos. Aos 71 anos de idade, Robertinho se define como um músico “autodidata e cara de pau” e, no auge de sua experiência, concedeu entrevista exclusiva ao Álbum.

A música

Robertinho Silva nasceu em 1941 no Rio de Janeiro. Desde muito novo, esteve sempre atento aos sons que o cercavam. Uma de suas atividades favoritas era ouvir o barulho percussivo do trem, no bairro do Realengo, onde foi criado e viveu até a idade adulta. Quando moleque, batucava como podia. “Na época, a gente usava sapato só nos fins de semana, para ir a festas. De segunda a sexta era só tamanco. Eu ia correndo pela calçada fazendo som com os tamancos e andava sempre com uma vareta, batendo nas grades do quartel. Mas sem pensar que estava tocando percussão. Era natural”, conta o músico.

Com um ouvido apurado, a educação musical começou cedo, com o rádio da marca Telefunken comprado pelo pai. Nele, ouvia programas de jazz e de música clássica, sem desconfiar que ainda faria esse tipo de música. “Descobri o jazz no rádio sem que ninguém me falasse o que era jazz. Minha criação veio do rádio. Comecei a sonhar em tocar pelo mundo, mas não como músico militar.”

Em seu bairro havia um quartel e quem era bom músico “entrava pela janela”, conta Robertinho. Foi ali que o músico teve contato pela primeira vez com a bateria. Certo dia, descobriu onde morava um percussionista da banda militar e foi visitá-lo. “Ele me perguntou: ‘Você toca bateria?’. Eu nunca tinha tocado, mas respondi na lata: ‘Toco!’. Sentei à bateria e comecei a tocar um baião, por causa da influência nordestina. Ele iria tocar à noite em um baile e me chamou para acompanhá-lo. Eu fui!” Dessa experiência viria o primeiro convite para integrar uma banda.

Músico da noite

A trajetória como músico profissional começou em boates da cidade do Rio de Janeiro. Depois de montar o primeiro grupo, Ases do Ritmo, com amigos do bairro e passar rapidamente pelo serviço militar, Robertinho Silva começou a tocar na noite carioca, primeiramente como baterista do Conjunto Flamingo, em que  trabalhou até 1963. “Eu estava tocando quando apareceu um cara todo bem vestido e começou a me olhar. Eu pensei: é cana! Então, ele me chamou e perguntou se eu conhecia a Boate Drink. Queria me levar para lá.”

A boate ficava em Copacabana e era uma das melhores e mais conhecidas. À época, Cauby Peixoto havia acabado de comprá-la do pianista Djalma Ferreira (1913-2004). Lá, Robertinho Silva gravaria a primeira participação em um álbum de sua carreira, acompanhando Cauby no disco de 1964, Cauby Interpreta, lançado pela RCA Victor.

Gravação do disco “Milton”, de Milton Nascimento. Atrás: Ronaldo Bastos, Robertinho Silva, Flora Purim Milton Nascimento, Novelli e Laudir de Oliveira. À frente: técnico não identificado. EUA – 1976. Foto: Museu Clube da Esquina

Em 1967, mudou-se para a casa Dancing Avenida, onde conheceu Dominguinhos, então chamado de Neném do Acordeom. Ali, ficou pouco tempo, mas o suficiente para trombar com uma das figuras que marcaria sua carreira, o pianista mineiro Wagner Tiso. Quando viu o futuro amigo ao piano, pensou: “Pô, o novo garçom toca piano”. Tempos depois, Tiso e Robertinho – que já havia passado pelo Canecão e cuja música era quase a titular da gravadora Odeon – tomavam cervejas na Taberna do Leme, lugar frequentado pelos músicos universitários da época (Gonzaguinha, Ivan Lins, Zé Rodrix), quando foram convidados a montar uma banda instrumental para acompanhar Milton Nascimento. “Chegou um cara do nada e falou que estava montando uma banda para acompanhar o Milton Nascimento. Ninguém acreditou. Mas o cara voltou depois com a mesma história. No terceiro dia, falei para eles: ‘Acho que esse cara tá falando sério!’”, revela.

E, na Sexta-Feira da Paixão de 1970, formada por Wagner Tiso (piano), Luiz Alves (contrabaixo), Robertinho Silva (bateria), Tavito (violão), Zé Rodrix (voz, percussão, órgão e flauta) e Fredera (voz e guitarra), estreava Som Imaginário, acompanhando Milton Nascimento no Rio de Janeiro.

Som Imaginário e outras bossas

Marcada pelos arranjos inventivos, a banda acompanhou Milton Nascimento nos anos seguintes e ainda assinou três discos próprios, além de ter participado de inúmeras gravações de outros artistas, como MPB-4, Taiguara e Marcos Valle. “Quando apareceu a Som Imaginário, todo mundo queria gravar com a gente!”

Em 1971, Som Imaginário acompanhou Gal Costa em uma turnê pelo Brasil. No mesmo ano, a banda havia gravado com a cantora baiana um compacto que continha as músicas “Sua Estupidez” e “Você Não Entende Nada”, sucessos radiofônicos na época. Robertinho viu de perto, nessa viagem, a composição de um clássico nacional da década de 1970, símbolo da chegada do movimento hippie ao Brasil, a música “Casa no Campo”. “Eu sempre acordava mais cedo. Quando estávamos em Goiânia, levantei e vi o Zé Rodrix e o Tavito cantando ‘Eu quero uma casa no campo…’.

Segundo Robertinho, foi a música de Milton Nascimento que o ajudou a criar o seu próprio estilo. “Tocando com o Milton, sempre tivemos muita liberdade. Eu ouvia muito jazz e bossa nova quando ele veio com essa música diferente, que soava sempre bonita, com muito compasso composto. E eu tinha uma formação ampla, com muita pesquisa em música brasileira. Eu colocava na música dele tudo o que conhecia, ritmicamente.” Robertinho se lembra do dia em que gravou a música “A Lua Girou” ao lado de Milton Nascimento – fato que demonstra essa liberdade dada pelo músico. “Todo mundo foi embora e eu fiquei. Quando ele começou a tocar, eu fui para a bateria e ele não falou mais nada.” O resultado ficou registrado no disco Geraes, de Milton Nascimento, lançado em 1976 pela Odeon.

Pelo mundo, raízes brasileiras

Em meados de 1970, o grupo Weather Report veio tocar no Brasil e Wayne Shorter procurou Milton Nascimento e a Som Imaginário. “Nós estávamos tocando e ele apareceu lá. Eu disse que ele era o meu ídolo e nós começamos uma amizade.” Dali para a carreira internacional foi um passo. Em 1975, Robertinho Silva foi chamado por Ailton Correia para participar de um projeto afro em Los Angeles. Ele fez uma exigência: “Só vou se for com o Luiz Alves”. E foram. Nos três anos seguintes, moraram em Los Angeles e trabalharam com a nata da cena jazzística norte-americana. “Tive grandes convites, toquei com o Ron Carter, com o Stan Getz. Fiquei amigo dos meus ídolos. Com o [baterista e percussionista] Airto Moreira comecei a circular em vários lugares, conheci bastante gente. Foi uma temporada muito boa. Mas, depois de um tempo, quando vi o Egberto Gismonti e o Hermeto Pascoal viajando pelo mundo e voltando para casa, eu pensei que queria o mesmo esquema.”

De volta ao Brasil, Robertinho Silva continuou o trabalho com Milton Nascimento, relação que durou mais de 25 anos. Em 1981, o músico finalmente debutou em um disco solo, da série lançada pela Philips chamada Música Popular Brasileira Contemporânea. Foi o primeiro dos nove álbuns assinados pelo instrumentista.

Em 2012, a banda Som Imaginário se reúne novamente e realiza uma série de shows, trazendo no repertório clássicos da própria banda e músicas do disco Milagre dos Peixes, gravado ao vivo com Milton Nascimento em 1974. Além dessa reunião, o músico ministra workshops pelo Brasil, sempre focado em espalhar sua pesquisa sobre os ritmos brasileiros. Para Robertinho Silva, os novos talentos da percussão têm de conhecer os diversos ritmos de seu país. “Uma vez, um músico caribenho me disse: ‘Nós, caribenhos, e vocês do Brasil temos obrigação de aprender os ritmos da terra!’ Concordo com ele e tento repassar isso para a molecada”, arremata. Veja abaixo o registro da autoral “Saudação ao Tambor”, gravada em São Paulo em agosto de 2011, no projeto Sesc Instrumental.

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