//Séries//

“Aqui, as pessoas novas têm chances”

Para a pianista armena Tatevik Artinian, um dos principais atrativos da cultura brasileira é a diversidade

texto Itamar Dantas

Pianista armena Tatevik Artinian, radicada em São Paulo, fala de sua relação com o Brasil. Foto: Photo Shant/ divulgação

Tatevik Artinian  é uma pianista armena residente no Brasil desde 2014. Formada em um dos mais renomados conservatórios do mundo, o Yerevan State Conservatory After Komitas, na Armênia, Artinian casou-se com um brasileiro e veio estabelecer residência no Brasil desde então.

Mantém suas atividades como musicista no país, normalmente em eventos ligados à comunidade de seu país residente em São Paulo, normalmente ligados à Igreja Católica Armena. A pianista já tocou e estudou com nomes importantes da música erudita armena, como Kevork Hadjian e Aram Petrosyan.

Em entrevista para a série No Mundo a musicista fala de sua relação com o Brasil, suas impressões sobre o país e sua formação.

ÁLBUM – Como você inicia sua vida na música?
TATEVIK ARTINIAN – Eu comecei a estudar no Conservatório Nacional de Comitas quando eu tinha só dezenove anos de idade. Eu vivia no Líbano e tive uma boa oportunidade de ir para a Armênia para estudar com uma bolsa. Eu fiz um exame, passei. Eles tinham espaços reservados para armenos que viviam fora da Armênia, para estudar de graça. Então eu apliquei e passei. Enquanto isso, eu tinha tentado entrar para Universidade Libanesa de Beirute, para estudar arquitetura, porque eu amo arquitetura. Meu pai é um engenheiro civil, arquiteto, e eu sou muito inspirada nele. Mas eu era muito boa na música também. Eu já tinha participado de outras competições na música, no Oriente Médio, Líbano, e eu disse, eu vou tentar. E fui aceita. E eu disse, ok, eu vou para Yereman. Meu pai é superprotetor, super tradicional. Ficou com medo. Eu estava apenas com 19 anos de idade. E fui a primeira criança da família a sair de casa. Ele disse, você não vai. E eu disse: Eu vou. Essa é minha paixão. Voltei para a Armênia. O primeiro ano foi muito difícil. É um país muito frio. 27, 28 graus negativos. Eu tinha que praticar. Minhas mãos ficavam geladas. Meus dedos sangravam. E eu pensava: Meu Deus, como vou continuar com isso? Mas eu disse: Vou fazer isso até o final. E eu vou, não importa o que aconteça. Eu vou! E eu fiz isso. Foi muito difícil porque tinha o curso profissional e outros cursos extracurriculares para os quais eu tinha que estudar muito, muito. Normalmente, na universidade, você pega 12 créditos, no máximo 18, o que significa que você está fazendo três quatro cursos. Na Armênia, eu tive dez cursos, fiquei exausta, muito deprimida. E o que eu pensei: eu vou ignorar tudo isso e vou seguir.

Você já conhecia o repertório que era trabalhado? Era muito diferente?
Muito diferente. Muito mais difícil. Porque a Armênia é o terceiro conservatório da União Soviética. É um conservatório muito significativo. Eles têm um monte de grandes compositores, pianistas, violinistas formados no conservatório até hoje. Então eu continuei. E eu trabalhei ainda mais duro. No segundo ano, eu recebi um convite do Irã para fazer um concerto lá. Existe um grande tenor armeno, conhecido mundialmente, seu nome é Kevork Hadjian. Ele me convidou para acompanhá-lo em um concerto. Eu fui, fizemos um grande concerto por lá. No terceiro ano, veio mais um convite, de novo no Irã. Por três dias, nós participamos de um festival dedicado ao centésimo quadragésimo aniversário de Komitas (1869-1935), muito famoso na Armênia, no Oriente Médio, no mundo. E voltamos para o Irã depois de maravilhosos concertos. Conhecemos pessoas ótimas de diversas partes do mundo. Foram bonitos. No quarto ano, eu decidi fazer o meu próprio concerto na Armênia, no Museu Aram Khachaturian, que tem o melhor piano da Armênia e um dos melhores pianos do Oriente Médio. E eu tive um concerto lá. E eu tive que trabalhar muito duro com meu próprio professor, Aram Petrosyan. Ele é filho de um dos mais famosos tenores da era soviética, Avak Petrosyan. Eu precisava alugar um apartamento perto do conservatório, dividi com uma amiga. E na próxima porta do nosso apartamento vivia o Aram Petrosyan. E um dia eu estava praticando e alguém bateu a porta. Nós ficamos com medo. Eu abri a porta, e era Aram Petrosyan. E ele disse, posso ouvir você tocando? E eu disse, claro! Minha colega de quarto fez café, eu toquei e ele disse: Você pode tocar da décima terceira frase? Você pode tocar da segunda frase? Eu disse: não. Do início? Eu disse sim! Ele falou: isso está muito fraco. Nós precisamos trabalhar juntos. Eu fiquei muito preocupada. Meu Deus, quanto vai ser isso? Aram Petrosyan seria muito caro. Mas eu não podia perder a oportunidade de ter aulas com ele. Ele disse: você não precisa me dar nada, eu só quero ajudar você. E nós praticamos todos os dias juntos. Todos os dias. Sua esposa era uma mulher maravilhosa. Ela costumava fazer bolos, levar para nós. E aí sua esposa tornou-se como uma mãe para nós. E ele tornou-se como um pai para nós. Ele tomou muita conta de nós. Nós  fizemos o concerto, que foi maravilhoso. E então eu me graduei. E aí comecei a pensar em fazer meu mestrado. Eu continuei meu mestrado, mas não continuei como uma pianista, eu continuei com a musicologia. Aram e sua esposa indicaram-me para alguns dos melhores professores doutores na academia e no conservatório, que moram nos Estados Unidos, Lilit Yernjakyan. Ela foi minha professora no mestrado. Eu continuei meu trabalho, fiz minha tese.

Como você veio para o Brasil?
Certa vez, por conta do conhecimento de meu pai com comunidades católicas em todo o mundo, eu fui convidada a fazer um concerto em São Paulo. E dessa vez eu convidei o Kevork Hadjian para apresentar-se comigo aqui. Nós praticamos juntos, somente por dois dias e nós viemos para São Paulo. Nós praticamos por mais dois dias e tivemos um concerto maravilhoso por aqui. Nós tivemos o concerto na igreja apostólica armena. Nós tivemos um concerto maravilhoso, as pessoas saíram chorando. No concerto, eu conheci os primos de um dos meus melhores amigos, e lá estava o Victor, que hoje é meu marido. O concerto foi em 2013. Em 2014, nos casamos e então eu me mudei para o Brasil.

Como era o repertório das suas apresentações em São Paulo? O público conhecia as músicas que você apresentava?
Eu dividia o repertório entre música clássica, música folclórica e música sacra. Havia algumas peças de Komitas, Arno Babadjanian, Aram Khachaturian, o compositor de The Sabre Dance. Talvez eles tenham ouvido apenas algumas vezes, talvez nunca tenham ouvido. Mas o concerto foi muito fascinante para eles. Eles querem voltar para suas raízes. Haviam pessoas chorando ao final do concerto. Havia armenos que sobreviveram ao genocídio de 1915. Eu tenho certeza que durante o concerto eles estavam pensando em suas famílias. Que, ao terminar o concerto, eles ligaram para seus parentes para saber como eles estavam e tudo mais. Arte e cultura são coisas que colaboram para o ser completo, onde sua alma, suas emoções e seu cérebro têm que estar em sintonia. Apresentar-se em um palco não é apenas você tocar algo porque você tem dedos rápidos. Não é nada disso. Apresentar-se é levantar sua inteligência e suas emoções todas juntas. Se você tiver uma que não estiver boa, você irá falhar. Ou você vai ser um artista mediano. Essas três coisas, você tem que combiná-las. Você deve saber onde você precisa usar melhor o seu cérebro. Você tem que saber como usar suas emoções e como liberá-las de sua alma. Porque há peças em que você tem que trabalhar mais a sua inteligência, por exemplo, no caso de Bach. É tudo matemático ali. É uma construção. Às vezes eu digo para as pessoas, cada peça de Bach é uma construção. Todos riem, mas é algo assim. É matemático. Você vai fundo dentro disso.

Quais foram as suas percepções com relação às diferenças de público e de concertos da música erudita no Brasil?
Eu tenho que te dizer uma coisa. Todo mundo diz que os Estados Unidos é o melhor lugar do mundo para você ter uma chance, blá blá blá. Quando eu estive lá, eu fui fazer um concerto com Yuja Wang e a State Orquestra… Não vou dizer que era ruim, mas as minhas expectativas eram muito maiores. E quando eu cheguei aqui e vi a Orquestra Estadual de São Paulo, eu fiquei muito impressionada. Porque o Brasil é um país, não isolado, mas está muito longe da profunda raízes do classicismo, da música clássica, barroca… E as pessoas europeias são muito fechadas. Aqui as pessoas são tão diferentes, talvez por conta do clima, um país tão novo… É um país tão novo. Sabe o que eu gosto daqui? Aqui, as pessoas novas têm chances. Na Europa, eles dão a chance para quem já é muito famoso. Aqui não é como lá. Disso eu gosto muito no Brasil. É um país novo, mas é diferente, nem melhor nem pior, mas diferente. Eu gosto muito disso no Brasil. Sobre a vida cultural, São Paulo é a quarta cidade em cultura no mundo. Sempre tem alguma coisa que você pode fazer, e sempre há coisas diferentes. Eu fiquei impressionada sobre o Itaú Cultural e sobre a Sala São Paulo. No Auditório Ibirapuera, por exemplo, teve a Orquestra Kohar, uma orquestra muito grande, com um grupo de dança. E eu fiquei muito impressionada com isso. Eles selecionam muitas coisas diferentes, mas muitas coisas boas. Amo isso aqui!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. Vitor Araújo: “Eu me desespero com o (disco) independente”

    Ouça o segundo álbum do pianista pernambucano

  2. “Villa-Lobos é o pai da música brasileira contemporânea!”

    Mario Adnet comenta seu novo álbum, dedicado à obra do autor de "Trenzinho do Caipira"

  3. Passando a baqueta

    Professor de percussão da Unesp, o norte-americano John Boudler conta sua história ao Álbum

  4. Atenção, torcida brasileira: hoje é dia de clássico!

    Vasco X Santos ou um sinfonia de Beethoven?

  5. Edmundo Villani-Côrtes é homenageado em CD

    Obra é revisitada pela pianista Karin Fernandes; disco traz peça criada para o projeto

  6. O canto das cordas

    Festival apresenta novos nomes do violão nacional e internacional

  7. Karin Fernandes homenageia Villani-Côrtes

    Pianista paulistana grava obras inéditas em disco de um dos discípulos de Camargo Guarnieri

  8. Ôctôctô do outro lado do Atlântico

    Saxofonista Luís Málaga comenta a experiência do grupo na Europa

  9. Música clássica para todos

    “Temos que mostrar para as novas gerações que é possível escutar sem cair no tédio”, diz o clarinetista belga

  10. “Meu desafio é não tentar agradar todo mundo!”

    Pianista Felipe Scagliusi fala de sua carreira, de Nelson Freire e de Schumann

  11. Seguindo os passos de Mangoré

    Com show e disco, Berta Rojas e Paquito D'Rivera homenageiam Agustín Barrios

      1. Heloísa Fisher: “Não existia um catálogo de quem fazia música clássica no Brasil”

        Jornalista fala do Anuário VivaMúsica! e que o gênero tem de se mostrar contemporâneo

      2. Especial Villa-Lobos

        Folclore e música popular inspiram obra do maestro que tem sua trajetória narrada por Leandro Carvalho

      3. Marcelo Brissac: “A Orquestra Sinfônica Nacional começou na Rádio MEC”

        Flautista aponta os destaques do acervo da emissora carioca