//Séries//no mundo

“A gente quer viver sempre no verão”

Gaúchos da banda Selton fazem sucesso na Itália e falam de sua experiência no exterior

texto Itamar Dantas

Formada por Ramiro, Eduardo, Daniel e Ricardo, a banda Selton lança disco no Brasil depois de sucesso na Europa. Foto: Andrea Raso

O sotaque dos músicos não deixa dúvidas, são brasileiros. Mais especificamente do sul do país. No entanto, fazem sucesso na Itália, depois de terem sido descobertos na Espanha, onde tocavam músicas dos Beatles, no Parque Güell, em Barcelona. Essa história é da banda Selton, quarteto que, depois de uma trajetória de sete anos do outro lado do Atlântico, veio ao Brasil lançar o terceiro álbum, Saudade – também editado em vinil e com turnê que percorreu dez cidades.

Formado em 2005, o grupo tocava músicas do quarteto de Liverpool que chamaram atenção de um produtor, que passava pela praça famosa pelas esculturas e construções de Gaudí. Dali, foram para a Itália e logo lançaram o primeiro disco, com versões em português de canções italianas do cantor Enzo Jannacci [Banana à Milanesa, 2008].

Em 2010 veio o segundo álbum, Selton, já com canções autorais, e em 2013 lançaram Saudade, realizado em duas versões, uma para o mercado internacional e outra exclusiva para o mercado italiano. Em turnê de lançamento pelo Brasil, em que apresenta o novo trabalho, o grupo formado pelos músicos Ramiro Levy (voz, guitarra e ukulelê), Ricardo Fischmann (voz, guitarra e teclado), Eduardo Stein Dechtiar (voz e baixo) e Daniel Plentz (voz, bateria e drum machine) conversou com o Álbum para falar da vida artística fora do país de origem.

ÁLBUM – Por que decidiram tocar Beatles chegando ao Parque Güell, em Barcelona?
DANIEL PLENTZ – A gente começou a tocar um pouco de samba…
RAMIRO – Mas acabamos descobrindo que Beatles é muito um denominador comum. E tinha a coisa de poder trabalhar as vozes. No início o grupo era muito acústico.
PLENTZ – Passavam 14 mil pessoas por dia. Era a ideia de que o mundo estava passando, um monte de gente ao nosso redor. Um amigo tinha dito que rolava ganhar uma grana tocando na rua. E, como a gente não tinha microfone, precisava de um lugar em que não passasse carro, para não ter de gritar muito. Nosso equipamento era muito tosco. Era completamente acústico. Fomos, então, para o parque. E ali começou uma minitrajetória. Começamos num ponto horrível, depois fomos para um ponto melhor.
RAMIRO – E o o legal é que havia muitos músicos, de jazz mesmo, mas acho que a gente era a única banda com logo na bateria, essas coisas… Isso era uma coisa que chamava atenção também. Essa era a nossa vida.

Como foi o convite do produtor da MTV até chegar ao primeiro disco?
PLENTZ – O processo foi bem complicado. Esse cara era produtor de um programa da MTV italiana e nos convidou para fazer uma participação. Eles pegavam atrações que estavam passando em Barcelona e levavam para esse programa, transmitido ao vivo na Itália. A gente fez duas participações. E ele começou a nos estimular como banda. Começamos a escrever umas músicas e aí ele teve a ideia de misturar música italiana com música brasileira. Começamos, então, a ouvir música italiana das décadas de 1960, tentando achar pontos de encontro, e chegamos ao nome do cantor Enzo Jannacci (1935-2013), pois a gente achava que de alguma maneira ele tinha uma brasilidade no jeito de compor. Infelizmente ele faleceu no ano passado. A gente gravou com ele. Uma figura bem importante. Parece até um pouco o Mauricio Pereira.
RAMIRO – É mesmo, tem um quê de Mauricio Pereira. Ele é bem lado B, mas tem um superconceito.
PLENTZ – E a gente começou a gravar dois discos, um de músicas próprias, em que a gente estava começando a se entender. Não é que a gente tinha um som, a gente não tinha nada [risos]. A gente estava se inventando e trabalhando em um projeto dessas músicas, traduzindo, pensando no que ia acontecer. Acabou que esse disco com músicas italianas era muito mais redondo, era um disco mesmo. O resto parecia muito uma colcha de retalhos. E a gente lançou isso. E essas músicas que sobraram se tornaram o nosso segundo disco, com outro produtor, o primeiro disco de música autoral.

Vocês tiveram alguma dificuldade com a língua?
RAMIRO – Quando a gente estava decidindo fazer esse disco de versões, esse era um dos grandes appeals. No final das contas, o disco teve um apelo superlegal na mídia. Era muito estranho, né? Uma banda de brasileiros que vinha da Espanha pegar músicas superlado B italianas e fazer em português. Coisa completamente surreal!
PLENTZ – Todo mundo ficou muito curioso.
RAMIRO – E daí aquele disco acabou abrindo muitas portas mesmo, e ali a gente se tornou uma banda.
PLENTZ – Colocaram a gente dentro de um furgão e de repente a gente estava fazendo cem shows por ano. A gente não sabia nada.
RAMIRO – A gente não sabia nem bem a cidade para onde estava indo. Completamente hippie.

Como foi essa transição da banda de rua para a banda de estúdio, com todas as novas possibilidades?
RAMIRO – A gente está aprendendo até hoje, na verdade.
PLENTZ – Do ponto de vista de arranjos, sempre foi muito natural. Do ponto de vista de ter ideias e criar dinâmicas, desde o início havia muita sintonia entre nós quatro para desenvolver esse tipo de coisa. Do ponto de vista técnico, foi um horror [risos]. Foi realmente muito difícil. Eu e o Dudu aprendemos a tocar na rua. Eu não era baterista e ele não era baixista. A banda são quatro guitarristas, no fundo. A gente foi escolhendo: “Ah, ele toca melhor guitarra, deixa ele na guitarra”.
RAMIRO – Dei sorte, né? [risos].
PLENTZ – Até o produtor do primeiro disco não queria gravar ao vivo, ele queria gravar por canais, foi um processo bem maluco. Bem legal! A gente ia montando peça por peça, descobrindo o que podia funcionar, o que não podia.

Quando vocês começaram a ser vistos aqui no Brasil?
PLENTZ – Em Porto Alegre desde o início. Quando saiu o nosso disco na Itália, tivemos uma boa visibilidade: saíram resenhas na Rolling Stone, quatro estrelas, resenhas em um monte de lugar. Do ponto de vista midiático, foi bem forte o primeiro disco. Os nossos amigos e familiares tinham visto uma banda sair para tocar na rua e do nada ir a um programa de TV na Itália. Rolou uma coisa muito no nosso pequeno mundo, um boca a boca. Quando a gente voltava de férias, tinha aquele pequeno mundo que estava achando aquilo o máximo. O primeiro show em Porto Alegre tinha quase 600 pessoas. Inacreditável!
STEIN – Tinha essa curiosidade de saber por que a banda fazia sucesso na Europa. Se fez sucesso na Europa é porque é bom.
RAMIRO – Na verdade mesmo, a nossa história no Brasil está começando agora. Começou no ano passado com Saudade, o primeiro disco lançado aqui e agora apresentado na nossa turnê.


A receptividade no Brasil foi melhor?
PLENTZ – Acho que sim. Tem uma coisa de que tudo o que vem de fora é incrível. No Lollapalooza, às vezes uma banda que nem é famosa no país de origem aqui é idolatrada. Sinto que tem essa imposição de qualquer coisa indie, underground, que vai tocar fora e acaba se tornando muito maior do que realmente é.
STEIN – E ao mesmo tempo lá fora eles olham para as bandas brasileiras como coisas muito exóticas. Em um festival na Itália colocaram Caetano Veloso de headliner do festival. É engraçado!
RAMIRO – Isso sempre vai ter. Existe em tudo que é lugar, essa curiosidade pelo que vem de fora. A gente está aproveitando o fato de não ser daqui para vir com outra história. Mas, enfim, é a nossa história, a gente não sabe como seria se fosse uma banda crescida aqui no Brasil.

Conte um pouco do processo desse disco.
PLENTZ – É o nosso terceiro disco, segundo autoral, primeiro lançado no Brasil. Na verdade, tenho a sensação de que é o primeiro. O que sobrou daquele período acabamos gravando no disco só de canções italianas, lançado apenas na Itália, o que acabou sendo mais ou menos uma colcha de retalhos. Foi nesse disco que a gente pegou um grupo de canções que todos nós acreditávamos. Foi bem coletivo o processo. A gente montou um estúdio no quarto do Ramiro e pôde fazer um período de pré-produção muito longo, de meses. As primeiras demos desse disco foram de 2012. A gente foi colocando mais músicas, amadurecendo… Depois fomos ao estúdio para começar a pré-produção.
RAMIRO – Nós tivemos muito tempo para experimentar coisas, e isso acabou se refletindo no resultado também. A gente acabou encontrando uma coisa muito mais nossa, ficamos bem felizes com o resultado.
PLENTZ – Algumas coisas a gente queria experimentar nesse disco e não sabia como. Explorar mais as vozes, explorar mais algumas linhas percussivas, colocar um pouco mais de eletrônico. Eram milhões de ideias. E pelo fato de a gente estar operando a máquina, de estar no controle da produção, a gente se permitiu muito mais. E, de alguma maneira, conseguimos explorar muito melhor.

O que de mais curioso vocês tiveram com a música de lá, da Itália ou da Espanha? Quais foram os contatos mais interessantes que vocês fizeram com os músicos de lá?
RAMIRO – Principalmente na Itália, acabamos fazendo muitos amigos músicos, que influenciaram o nosso trabalho também, como o Calibro 35.
PLENTZ – O Tommy [Tommaso Colliva] foi uma grandíssima influência, virou um superamigo. Ele produziu outros tantos projetos, inclusive o Muse. É um cara que nos guiou bastante. A banda dele, a Calibro 35, faz um funk instrumental: pegam trilhas sonoras de filmes e fazem versões. Esse espírito do cantautor é muito presente na Itália. O cantor-compositor tem a tradição do Paolo Conte. Não sei até que ponto a gente absorveu isso, mas vivemos muito isso. Tem uma nova safra de cantautores que são nossos amigos.
RAMIRO – Um deles é o Dente, que veio ao Brasil com a gente e abriu nossos shows. Amigão nosso que está ficando grande lá.
STEIN – Da mesma forma que vamos ao show de bandas que ouvimos falar e queremos saber como é ao vivo, lá a gente vê a cena e acaba ficando amigo de todo mundo. Isso de alguma forma entra no DNA depois de tantos anos. Tem muita coisa legal rolando na Itália e claro que não sai de lá porque eles cantam em italiano, muita coisa para o consumo interno. Tem um mercado indie com coisas de qualidade.

O mercado independente de lá é muito diferente do daqui?
PLENTZ – A correria é a mesma. Mas por ser um país menor as turnês são geridas de outra maneira, porque você faz tudo de carro, isso facilita muito. Mas tenho a sensação de que no Brasil ou você tem muita infraestrutura ou não tem nenhuma. O Brasil é muito exagerado. E na Itália de alguma maneira a estrutura base é mais constante. Nesse sentido é positivo. Você vai tocar em algum lugar, vai ter uma estrutura mínima legal, o técnico de som vai ser legal, você não precisa levar o seu técnico no início. De certa maneira, o mercado é bem estruturado. O papel do editor, o papel da gravadora, o papel da assessoria de imprensa, o papel do booking. No Brasil você tem algumas figuras que representam um pouco o todo do processo. Tem o produtor que faz booking, a assessoria de imprensa que é o editor e te dá uma força ali e aqui… São algumas pequenas diferenças.

Pode-se dizer que o mercado de lá é mais profissionalizado?
PLENTZ – Profissionalizado é difícil dizer, talvez o mercado seja mais organizado.

Vocês pensam em voltar para o Brasil?
RAMIRO – A gente pensa, claro. Porém, estamos lá há tanto tempo. Já estamos bem estabilizados. É um mistério: a gente não sabe bem como vai estar.
STEIN – A gente quer ficar meio a meio, flutuando nessa ponte, e deixar que a banda também decida o caminho dela. A gente gosta muito desses dois mercados e não gostaria de abrir mão de nenhum dos dois. Então a gente vai se movimentando. É bastante corrido, mas dá grande satisfação.
PLENTZ – A gente fala que quer viver sempre no verão [risos]. Se a gente conseguir fazer isso, ficar nessa ponte, já vai ser uma grande vitória…

ÁLBUM – Com relação ao título do álbum, vocês têm saudades de quê?
STEIN – É uma sensação de não pertencer. É como alguém que vai viajar, que vive um monte de coisas fora de casa. E quando volta já não vai ser mais o mesmo. Então, é quase uma condição crítica de estar fora e ver que as coisas estão mudando.

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