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Rios, pontes e redes de significados

O mangue é o símbolo do (re)nascimento pop de Olinda e Recife

texto h.d.mabuse
Chico Science e Nação Zumbi e a capa do álbum Da Lama ao Caos.

Chico Science e Nação Zumbi e a capa do álbum Da Lama ao Caos (1994), um dos ícones do movimento mangue

Uma metáfora foi criada em meados de 1991, representando a relação direta entre a riqueza do ecossistema dos manguezais recifenses e a cena pop que na época florescia entre as cidades de Olinda, Recife e Jaboatão dos Guararapes. Muito foi escrito sobre o assunto, mas a crença de que ainda faltam alguns pontos importantes a serem explorados e o entendimento da de sua centralidade no que se desenrolou desde então levaram à criação do presente texto.

Neste momento, antes de continuarmos nossa viagem ao centro do mangue, cabe alinhar os entendimentos sobre metáforas: somos levados, como que por hábito, a considerar o uso delas na poesia ou na retórica, ou seja, sempre no exercício exclusivo da linguagem. Acreditamos, caro leitor, que não é assim que as coisas acontecem. A influência direta da metáfora do mangue pode ser observada como motor de ações das pessoas expostas à sua influência, direcionando o comportamento dos indivíduos e os caminhos que foram tomados por grupos sociais e instituições.

E do que fala a metáfora do mangue? De água salobra, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés, fertilidade, diversidade e riqueza. Para nosso pequeno ensaio, vamos tomar como ponto de partida da análise dessa metáfora o papel do acaso nesse processo.

Assim como existe uma conjunção de circunstâncias e uma constelação de influências que possibilitam a explosão de vida nos estuários do Recife, também uma diversidade de fatores, através por meio de várias tradições pop e vários professores, estudantes e amigos, alimentou o caldo cultural enormemente complexo que permitiu uma tão improvável combinação na produção musical contemporânea. Essa combinação levou a uma modificação do eixo da indústria fonográfica de então, abrindo caminho para a produção não só do Recife, mas de todo o Norte e o Nordeste, não apenas na música, mas em formas de expressão artística tão diversas como moda, cinema, literatura e software.

Em um dos vários centros desse ecossistema em forma de rede estava Chico. Encontramo-nos a primeira vez pelo capricho do acaso, em uma das gravações de um programa de rádio produzido por Fred Zeroquatro. Um Chico que ainda assinava como Vülgo apareceu com discos de Biz Markie, Afrika Bambaata & Soulsonic Force e a trilha de Beat Street (1984) embaixo do braço. O interesse pela música negra, e pela eletrônica alemã e a proximidade geográfica (ele morava em Rio Doce e eu em Casa Caiada, bairros de Olinda) nos uniu uniram e pavimentaramou o caminho para a amizade.

Em meados de 1987, junto com Jorge du Peixe, em tardes com pouco dinheiro e muita vontade, montamos o Bom Tom Rádio (espécie de laboratório onde músicas como “A Cidade” e intenções que deram no coletivo de criação Re:combo foram gestadas). No início dos anos 1990, um salto: depois de nos mudarmos para o Edifício Capibaribe, na Rua da Aurora, e com o convívio diário, pude presenciar a sua capacidade de construção de complexas redes de significados. Se o conhecimento dos aspectos biológicos dos manguezais estava mais aprofundado em Fred, o batismo do que ainda era entendido como apenas um ritmo foi de Chico.

Chico Science em 1993 clicado por Fred Jordão

Com uma velocidade que nos passou despercebida, por estarmos no mesmo movimento, todo o tecido de sentidos tomou forma. E assim as conexões entre Teoria teoria do Caoscaos, funk, Josué de Castro, samba, guitarras pesadas, punk, faça-você-mesmo, hacking, subversão no entretenimento, maracatu, internet, psicodelia, ficção científica, e estados alterados estavam informadas na música.

Naquele momento, vários motivos acabaram me afastando do convívio de Chico e de muitos outros amigos queridos. Então, em fevereiro de 1997, há a mais de 3 mil.000 km quilômetros de distância do Recife, recebi um telefonema anunciando que mais uma vez o acaso (na forma da troca de um carro ou de um cinto de segurança quebrado) tinha interrompido, de forma brutal e precoce, a vida de um amigo e seu fluxo vertiginoso de produção, que mal tinha começado.

Neste momento peço que o leitor volte à metáfora do mangue: o ciclo de transformações da vida que borbulha nos manguezais, os processos químicos que ocorrem nos líquidos viscosos, grãos sólidos e bolhas gasosas, a contínua transformação líquida.

Agora, com um distanciamento de mais de uma década dos fatos ocorridos, podemos dimensionar os efeitos desse processo: a produção musical pernambucana continua uma das mais ricas do país, no momento enfrentando (e aproveitando) os novos desafios de uma mudança radical na indústria fonográfica. O cinema ganhou uma força que não se via desde o início do século passado. Novas praias e portos surgiram para reforçar as conexões entre arte e tecnologia. Da produção de games aos softwares, vimos o surgimento de dois grandes fenômenos: uma comunidade de software livre militante no melhor estilo punk do faça-você-mesmo e uma indústria pautada diretamente pelas idéeias do mangue, com o entendimento de que, se foi possível promover essa mudança cultural e de negócios na indústria fonográfica, o mesmo é possível na indústria do software.

As mudanças produzidas pelas ideias e pelos conceitos tecidos por Chico e outros, depois de tanto tempo, já chegam a nos passar despercebidas. Mas elas continuam mudando a nossa realidade, a cada dia e em várias proporções, é só dar mais um passo a à frente e ter sempre a mente na imensidão.


# HERR DOKTOR MABUSE
é o codinome de José Carlos Arcoverde, webdesigner pernambucano e Ministro “mministro da Tecnologia ttecnologia” do movimento mangue. Foi Mabuse quem apresentou a turma de Rio Doce (Olinda), Jorge du Peixe, Chico Science e Lúcio Maia, àquela de Candeias (Jaboatão dos Guararapes), Fred Zero Qquatro e Renato L. (o “ministro da comunicação” do movimento).

# Publicado originalmente no Fanzine Chico Science

  1. Muito bom saber que um conceito não se cria da noite para o dia e muitas conexões são feitas em sua base para alcançar voo. No entanto o que fica marcado nessa trajetória precoce de Chico é o título do segundo LP: AFROCIBERDELIA. Sem dúvida um palavrão cheio de conexões para os pupilos decifrarem tecendo a grande rede cultural pernambucana, brasileira e mundial. A natureza afrodisíaca cujo fedor da lama de Recife é inspiração para Claudio Assis tecer suas tramas sexuais se une as conexões cibernéticas dos conceitos musicais com os ritmos regionais até surgir a figura do Caboclo de Lança cuja psicodelia trás a primavera nos dentes como esperança de um Recife límpido e cheiros em todos os sentidos. Namastê.

    | Ciclotron Irajá

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