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Os mistérios da caixinha

Como o chapéu de palha e a latinha de graxa, a embalagem de fósforos se tornou instrumento de percussão do samba

texto Mariana Lacerda

O sambista Cyro Monteiro (1913-1973), o Formigão, foi um exímio “tocadores de caixinha de fósforo”. Fotos: reprodução

# Publicado originalmente na Revista Continuum Itaú Cultural – Ed. Jan/2010

Preste atenção! Um grande samba, “Amor Proibido”, de Cartola na voz de Paulinho da Viola, no disco Bate Outra Vez (Som Livre, 1988). Está lá, a percussão dela, uma pequena caixinha de fósforos. O som vem das mãos de Elton Medeiros, quem tamborila o instrumento.

“Nasci 42 anos após a abolição”, conta Medeiros. Neto de escravos, “de um negro banto” de Pernambuco, cresceu no Rio de Janeiro, no bairro da Glória. Compôs, trabalhou, gravou, tocou com estrelas de igual quilate. Formou conjunto com Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Cartola. “Aprendi e aprendo muito com cada um deles”, diz, agradecido e feliz porque este ano foi dedicado às comemorações do centenário de nascimento do amigo Cartola, com quem compôs “Peito Vazio” e “O Sol Nascerá”.

Elton Medeiros fez muitas músicas. “Meu Viver”, com Jair do Cavaquinho e Kléber Santos, “Folhas no Ar”, com Hermínio Bello de Carvalho, e “Rosa de Ouro”, também com Hermínio e Paulinho da Viola. Lá se vão mais de 40 anos de sua participação no musical Rosa de Ouro, ao lado de gente tão importante quanto ele para a história do samba, a exemplo de Clementina de Jesus, Nelson Sargento e Cyro Monteiro. No disco Elizeth Sobe o Morro (Gravadora Copacabana, 1965), lá está Elton Medeiros acompanhando a diva com uma caixinha de fósforos nas mãos.

Foram muitas parcerias, em composições e gravações. Mais de 20 discos e, ainda, a criação de três escolas de samba no Rio de Janeiro. Tudo isso faz de Medeiros estrela maior da música brasileira. Mas há um detalhe na sua biografia: ele é lembrado com carinho pelos seus pares e pelos críticos de música como aquele que, como ninguém, sabe tamborilar uma simples caixinha de fósforos. Há quem acredite, inclusive, que Medeiros crie suas músicas batucando nas tais caixinhas. “Quem é o louco que acha isso?”, questiona ele, bravo. “Bato caixinha de fósforos porque isso me ajuda a viver”, diz. “Tudo que faz a gente feliz ajuda a viver, não é?”

Fogo e luz
“Não há nada mais delicado do que uma caixa de fósforos”, escreveu o pesquisador Pedro Cavalcanti, em seu livro A História da Embalagem no Brasil (Grifo Projetos Históricos e Editoriais, 2006). Apesar da passagem do tempo e de tantas invenções tecnológicas, continua sendo a mesma a caixinha de fósforos que usamos para produzir fogo desde 1855, quando, de uma invenção do físico sueco Carl Lundstrom, foi criado aquilo que se chamou inicialmente “fósforos de segurança”.

Mas, para que Lundstrom chegasse aonde chegou, foi preciso que o alquimista alemão Henning Brandt descobrisse em 1669, ainda que acidentalmente, o elemento químico batizado de fósforo (que vem do grego e quer dizer phos, luz; e phoros, transportador). Depois dele, o inglês Robert Boyle criou, 11 anos mais tarde, uma folha de papel áspero com a presença de fósforo, acompanhada de uma varinha com enxofre, elemento que se incendeia com facilidade, em uma das pontas. Mas aí havia um inconveniente: os fósforos costumavam incendiar sozinhos dentro da embalagem. É provável que tenha sido a ideia de Lundstrom que tenha resolvido o problema: a lixa foi parar na lateral da caixinha e os palitos dentro dela, numa gavetinha. Além disso, os materiais foram cobertos com um agente isolante para não pegar fogo à toa.

De madeira, a caixa de fósforos ganhou o menor tamanho possível: 48 milímetros de extensão, 36 milímetros de largura e 17 milímetros de altura. Agora, sim, ela, “que nasceu com a necessidade intrínseca de ser portátil”, como diz a designer Denise Dantas, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, cumpria o propósito para o qual foi inventada. E poderia ser, enfim, carregada no bolso da camisa, perto do corpo, do coração, sem risco de inflamar.

O sambista baiano Batatinha (e.) e os paulistas Adoniran Barbosa e Osvaldinho da Cuíca. Fotos: reprodução

Valor imaterial
No Brasil, a araucária foi usada à exaustão para dar conta da produção de caixinhas e de palitinhos de fósforo. Motivo pelo qual essa indústria se estabeleceu no Paraná, onde a árvore era abundante.

O risco de extinção da araucária, contudo, levou a Fiat Lux, sediada desde 1904 no Brasil, a produzir as caixinhas de papel-cartão inflamável. Elas estão por aí, é verdade. “Mas para tamborilar tem de ser de madeira”, adverte Medeiros. Claro. Pois o material “continua insubstituível para os produtos nos quais sua natureza intrínseca e tradição desempenham papel essencial”, escreveu Pedro Cavalcanti. E olha que em seu trabalho - rara bibliografia sobre embalagens que se dedica rapidamente à caixinha de fósforos - ele nem fala dela como instrumento de percussão, mas sugere o valor imaterial que a gavetinha emadeirada encerra em si.

“E talvez seja por isso que as caixinhas de madeira tenham a preferência dos consumidores”, diz a engenheira de produção Maria Cecília Fagundes, que trabalha na Swedish Match, multinacional que no Brasil tem o nome fantasia de Fiat Lux. Maria Cecília explica que continuam produzindo as embalagens de fósforos tal como foram inventadas, desde 1904, quando a empresa se instalou no Brasil. A diferença é que agora as lâminas de 0,7 milímetro de madeira são extraídas de uma árvore de nome pínus. De rápido crescimento, é possível fazer seu manejo plantando-a e replantando, sem machucar as florestas nativas.

E qual é o passo a passo para tocar um samba na caixinha? A produção de fósforos do Brasil escoa do Paraná em embalagens de embarque com 6 pacotes contendo 20 maços. Em cada maço, 10 caixinhas. E, em cada caixinha, 40 fósforos - com 4 centímetros cada um. Utilize uma parte deles. A outra reserve na caixa. “Ela não deve estar nem cheia nem vazia”, recomenda Medeiros. Então toque. Encontre um ritmo. Devagarzinho. Tente acompanhar uma música. Siga. Tente. “Todo mundo tem ritmo”, diz Medeiros. Toque. Pois “quem sabe bater caixinha de fósforos provavelmente saberá tocar outros instrumentos de percussão”, diz ele, que além de trombone toca bateria e tamborim.

Se não der para tocar caixinha de fósforos, invente outro instrumento. “Havia um tempo que, nas escolas de samba, os músicos faziam batucadas em frigideiras”, lembra o sambista paulistano Germano Mathias, conhecido por tirar o ritmo do samba de uma simpática latinha de graxa para sapatos “niquelada” (ou seja, pintada, “para não fazer propaganda gratuita”, adverte o músico). Já a sambista paulistana Miriam Batucada, morta em 1994, conseguia fazer de um teclado instrumento percussivo, ao tamborilar em suas teclas. E o próprio Elton Medeiros lembra, ainda, seu amigo Dilermano Pinheiro: “Ele tocava samba batendo num simples chapéu de palha”.

  1. Bom.

    | Flávio
  2. Excelente conteúdo parabéns! Uma caixa de fosforo e muito talento é o que basta.

    | Ronaldo

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