//seções//faixa bônus

O rap no Brasil e na Alemanha

Doutora em comunicação social diz que estilo originalmente norte-americano é recontextualizado em cada país

texto Ulrike Schröder

Racionais MC’s e MV Bill: São Paulo e Rio. Fotos: divulgação

# Publicado originalmente na Revista Observatório Itaú Cultural – no. 8/2009

Em Nova York, no sul do Bronx, ao final dos anos 1970, o hip hop forma-se como uma cultura que sintetiza língua, música, dança e imagem nos quatro elementos rap, DJing, breakdance e graffiti. Como resultado dos guetos urbanos dominados pela presença de negros, o novo estilo, inicialmente, desdobra-se como uma cultura da rua, na qual batalhas (battles) de dança entre diferentes grupos de b-boys (crews), acompanhados por música de boom box, compõem o quadro. A esse conceito junta-se o rap, que é realizado por MCs (master of cerimony). Esse canto rítmico e rimado enraíza na tradição de duelos verbais ritualizados, como ocorre em culturas marcadas por oralidade, e desenvolve-se dentro de peer groups dos guetos negros dos Estados Unidos. Forma uma variante desse jogo de linguagem, denominado sounding, respectivamente, dozens, uma luta na qual as mudanças do falante-ouvinte ocorrem por meio de ofensas estilizadas que devem ser revidadas pelo outro: a uma ofensa, um rap, segue uma resposta, um cap etc. Ademais, encontram-se também no rap outras influências: uma poesia voltada para a performance do black art movement dos anos 1960; a tradição do boasting song, que já se encontra em algumas canções de blues dos anos 1950; o jive talk como elemento da linguagem negra; e, enfim, o toasting, que recorre à fala ritmada dos vendedores de rua jamaicanos que apregoam seus discos de reggae.

Em uma primeira fase, surge a assim chamada old school, que produz música para dançar. Durante os anos 1980, pouco a pouco, forma-se o rap político com grupos que integram mensagens críticas em seus textos. Estes apresentam, muitas vezes, uma interligação com o movimento black power ou a Nation of Islam. A despeito disso, no final dos anos 1980, nos guetos negros de Los Angeles Compton e South Central, nasce o gangsta-rap, que polemiza e romantiza o cotidiano do gângster, estilizando excessos de droga, sexo e violência. Ao final dos anos 1980, a cena começa a se fragmentar e a se globalizar.

As características do hip hop nas culturas alemã e brasileira

Diferentemente dos Estados Unidos ou do Brasil, na Alemanha os centros locais de hip hop formam-se perante o pano de fundo das antigas potências de ocupação depois da Segunda Guerra, isto é, onde os soldados norte-americanos estavam estacionados, em cidades como Heidelberg, Frankfurt, Stuttgart ou Mannheim, e não nas grandes metrópoles. Por meio desse input imediato dos Estados Unidos, o contato com a cultura hip hop já está presente desde muito cedo em programas originais da MTV e na recepção da revista norte-americana Source e da britânica Hip Hop Connection; somente nos anos 1990 são lançadas as revistas alemãs Mzee, MK Zwo (hoje MIK’x News) e Juice. Os grupos e o público-alvo do rap alemão compreendem todas as classes e etnias, cujas realidades raramente são marcadas por exclusão. No primeiro momento, um rap mais poético e dançante domina e enraíza na classe média alemã. A partir dos anos 1990, a música rap divide-se em um “oriental hip hop”, agressivo e confrontativo, apresentado por jovens de origem turca, e em um hip hop que agora perde sua face por ser chamado de ”hip hop estudantil”. Frente a esse pano de fundo, no final dos anos 1990, desdobra-se outra variante do gangsta-rap, que, agora, por sua vez é desqualificada por ser chamada de “rap da classe baixa”.

>> PLAYLIST: RAP CARIOCA, O OUTRO LADO DA PONTE

No Brasil, as condições iniciais são diferentes: em meados dos anos 1970, o funk & soul norte-americano entra nas discotecas dos bairros pobres, sobretudo no Rio de Janeiro, onde se formam também os primeiros grupos de funk nacional, como Banda Black Rio, Tim Maia e Tony Tornado. Quando o canto falado se torna popular, inicialmente, mistura-se com a música funk e é chamado de funk balanço, ou então funk pesado, recebendo, dessa forma, um carimbo nacional, também porque o acesso à cultura de origem é mais difícil. Enquanto na cultura alemã o estacionamento de soldados norte-americanos, o alto nível da educação dos recipientes e a densidade medial dos produtos importados em inglês favorecem o acesso direto, sua divulgação no Brasil tem de superar mais obstáculos: a falta de condições materiais e técnicas, barreiras de língua, as consequências da ditadura militar e o mero fato de que o público-alvo potencial representa a sociedade marginalizada. Por conseguinte, esse público também é excluído em relação aos meios de comunicação de massa. Esse déficit causa uma recontextualização da cultura hip hop mais local do que na Alemanha, o que já se torna visível no nível musical: são absorvidos elementos autóctones, como ritmos de samba, fragmentos de som da religião candomblé e o Ilê Aiê. Com essa mistura dos modos de expressão e com sua orientação aos precursores do funk, o rap no Rio de Janeiro começa a se diferenciar daquele de São Paulo, que recorre cada vez mais ao mito de origem do hip hop como um movimento político e engajado. Isso resulta em dois desenvolvimentos opostos, nos quais a variante do Rio estabelece um novo estilo musical, que se chama Rio funk, semelhante ao estilo norte-americano Miami bass.

Exemplos dos raps brasileiro e alemão

Nas duas correntes alemãs atuais, os pontos de referência mais frequentes do rap são o próprio hip hop e a discussão autorreferencial com a cultura de hip hop. Um exemplo é uma paródia aos códigos de comportamento que, por sua vez, aplica os mesmos meios estilísticos que são ironizados:

O que amo, sapatear em microfones e desrespeitar fake MCs
com punchlines.
O que odeio, frases de battle estandardizadas e anglicismos.
O que amo, quando alguns choram de rir.
O que odeio, e isso nas minhas coisas mais sérias.
O que amo, num evento, minha mão no saco em frente de
1.000 kids.
O que odeio, com tempo, posar também não adianta.
O que amo, não pagar pelas minhas Baggy Pants.
O que odeio, que tudo meu grupo tem o mesmo.
O que amo, receber props para meu estilo e meu flow.
O que odeio, ele pensou que sou o cara do grupo Eins Zwo.
(Blumentopf, Liebe & Hass)

Além de sua autorreferencialidade, os textos orientam-se também para o prazer de rimar em si, no qual rimas originais e complexas sobrepõem-se à mediação referencial. Sua única mensagem é a autoapresentação, ou seja, o boasting, o elogio das próprias habilidades (skills). Em oposição a tais autorrepresentações ”intelectualizadas”, o Pimp-, Showbiz- e Gangsta-Rap, produzido no selo Aggro-Berlin, tem em vista especialmente o sucesso comercial por romper com tabus.

No primeiro plano, encontram-se textos glorificando a violência e o sexismo transmitido por uma linguagem extremamente vulgar, combinados com uma atitude autoglorificante e direcionada pejorativamente a outros MCs:

Eu atiro em qualquer merda. Faço dinheiro.
E tenho apoio da minha arma. As balas caem no seu pulmão.
E encurtam sua soma.
Seus cretinos lá fora.
Então, vêm, cai fora.
Vai se foder.
(Kalusha, Wie ein Blizzard)

>> PLAYLIST: ESPECIAL SABOTAGE

No Brasil, a situação é inversa: especialmente como delimitação ao estilo do Rio funk, que, por parte, inclui alusões sexuais e elementos irônicos, o estilo de rap dominante tem sua origem em São Paulo. Ele é impregnado por uma linguagem e uma mensagem claras, um engajamento e um protesto sociocrítico, no qual, também em oposição ao contexto norte-americano original, na maioria das faixas, os MCs desistem de jogos de palavra, de acrobacias de língua, da autorreferencialidade e de autorrepresentações. O tema central é o cotidiano na periferia. Em oposição às descrições fatalistas e glorificantes do gangsta-rap, o alvo é a conscientização das desigualdades sociais e a ilustração do dilema da exclusão que implica uma chamada para atuar. Dentro desse espectro do rap político, domina um estilo mais pedagógico, impregnado por imperativos para se dirigir diretamente ao ouvinte subprejudicado, diferentemente do rival alemão:

O sistema dá as armas para nossa destruição.
Não faça o jogo deles.
Não seja bobão.
Pare de brigar com seu irmão.
Brigar não vale a pena.
Seja qual for o motivo.
Inveja, mulher, valentia…
(MV Bill & DJ TR, Atitude Errada)

Com relação a esse foco diferente, pode-se observar um estilo divergente também. O uso de linguagem competitivo-dialógica do rap norte-americano, que recorre a uma ritualização de confronto e que pode ser categorizado como tipo discursivo verbal dueling, forma, na Alemanha, o impulso maior para o conteúdo dos textos, enquanto no rap brasileiro, em comparação com o nível referencial, passa para o segundo plano. O boasting, a ostentação direta ou irônica, no rap alemão, representa um dos meios mais importantes para ”eliminar” o adversário. Sendo assim, o que está no centro é uma autorrepresentação positiva de modo exagerado e, com isso, automaticamente, uma desvalorização do outro com base nos atos de fala ofensa, insulto, ostentação e autoelogio.

Diferentemente, no Brasil, em primeiro lugar, encontram-se atos de fala como comentar, relatar, condenar e avisar, encaixados no discurso sociocrítico e impregnado pelo imperativo metódico. De acordo com isso, no rap brasileiro dominam outras funções comunicativas do que no rap alemão, no qual as funções poéticas e metacomunicativas passam  para o primero plano. Os MCs querem mudar a situação e chamam o ouvinte para uma participação ativa, o que implica um efeito apelativo. Dessa forma, os Racionais MC’s exortam: “Leia, ouça, escute, ache certo ou errado, mas, meu amigo, não fique parado“ (do rap Beco sem Saída).

>> OUÇA: LUIZ TATIT: “O RAP LEMBRA O RUMO EM SEU ESTÁGIO MAIS CRU” 

Conclusão

A comparação entre as reterritorializações da música rap nas culturas alemã e brasileira com base em seu original norte-americano revela que o encontro de culturas globalmente circulantes e de cultura salvo regionais não produz simplesmente adaptações unidirecionais, mas sim recontextualiza o novo de forma que se possa falar de um processo da “globalização”. No contexto da cultura brasileira, o hip hop, sendo um movimento coletivo, é entendido como meio de uma mensagem política, perseguindo o objetivo educativo de atingir a classe excluída, convencendo-a e mobilizando-a. Por isso, os meios de expressão escolhidos são coletivos e relacionados ao ouvinte, as funções comunicativas, em primeiro lugar, são referenciais e apelativas. Em contraposição, a música de rap da cultura alemã baseia-se mais no individualismo, promovido por uma autodiferenciação dos próprios códigos da cultura hip hop. A função autorreferencial da comunicação e as relações intertextuais predominam. Em lugar de uma representação de um mundo externo, observa-se a autorrepresentação como característica do rap como estilo, no qual o “eu” está no centro.


ULRIKE SCHRÖDER.
Doutora em comunicação social pela Universität Essen-Gesamthochschule (2003) e mestre em comunicação social, germanística e psicologia pela mesma universidade (1999). Atua como professora adjunta II na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. Educação pelo hip-hop

    No Brasil, o ativista e educador Moises Lopez fala da importância do gênero para a educação

  2. Três notas de Lurdez da Luz

    Entre as indicações da MC paulistana está o documentário Tropicália, sobre o movimento musical do fim dos anos 1960

  3. Emicida inspira-se em Jean-Claude van Damme em novo clipe

    Vídeo de “Zica, Vai Lá" traz o rapper como lutador de artes marciais e conta com Neymar

  4. “O hip-hop não veio só para fazer festinha”

    DJ Erry-G, curador do Encontro de DJs de Hip-Hop, fala do evento que começa nesta 6ª (18)

  5. De Emicida a Femi Kuti

    Dicas do rapper Rael vão do novo disco do parceiro Emicida ao afrobeat de Femi Kuti

  6. Fala aí, meu camarada!

    De Machado de Assis a Mussum, de Norte a Sul, a língua portuguesa segue viva e mutante

      1. Rap carioca: o outro lado da ponte

        Seleção musical reúne MV Bill (f.), Planet Hemp, Nega Gizza, De Leve, Quinto Andar, B. Negão e outros

      2. Rashid no Auditório Ibirapuera

        Rapper apresentou o álbum "A Coragem da Luz"

      3. Especial Sabotage

        Treze faixas fotografam o rap autobiográfico do músico e ator paulistano morto violentamente em 2003

      4. BNegão: “O Planet (Hemp) correu o risco de acabar antes do primeiro disco!”

        Músico relembra trajetória do grupo carioca, fala de seus projetos e indica sons, como um do Nick Cave

      5. Luiz Tatit: “O rap lembra o Rumo em seu estágio mais cru!”

        Professor e compositor comenta a trajetória e as heranças do conjunto que dissecou o canto falado