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O homem que de(cifrou) a MPB

Especial investiga vida e obra de Almir Chediak, o criador dos songbooks

texto Itamar Dantas

Almir Chediak ficou famoso por seus songbooks, que traziam as cifras fiéis de grandes compositores da MPB. Foto: Itamar Dantas

Se você já se aventurou a aprender um pouco de violão popular, provavelmente ouviu falar de Almir Chediak. Músico, produtor, professor, violonista, Chediak produziu um trabalho inédito no Brasil ao lançar a sua série de songbooks no final dos anos 1980. Também teve participação definitiva na carreira de diversos músicos de peso da nossa música ao produzir suas obras e fomentar o mercado brasileiro.

Em 2013, completam-se dez anos da morte de Almir, assassinado no dia 25 de maio de 2003, aos 52 anos de idade. O músico foi sequestrado ao chegar em casa, de carro, com a namorada, Sanny da Costa, na cidade de Petrópolis, onde morava. Depois de assaltados, Sanny foi abandonada na estrada e Almir foi vítima de quatro tiros na cabeça. Segundo a polícia, ele foi morto porque reconheceu seu algoz, o caseiro do vizinho.

O segundo especial do Álbum investiga a vida e a obra de Almir Chediak, o homem que criou os songbooks de dezenas de artistas brasileiros, deixando para uma legião de músicos anônimos e renomados a possibilidade de aprender as composições de grandes artistas assim como foram concebidas, além de outros projetos de importância inestimável para a música brasileira.

O início e a identificação com a música

Almir Chediak posa para o songbook As 101 Melhores Canções do Século XX. Foto: reprodução

Almir Chediak nasceu em 21 de junho de 1950, no Rio de Janeiro. Ainda criança, mudou-se com a família para a cidade de Carmo da Cachoeira. Lá, encantou-se com a música do rádio e dos seresteiros. Aos 8 anos, fixou residência em Volta Redonda e aos 13 aportou novamente no Rio de Janeiro, onde iniciou estudos de violão.

Garoto tímido e mimado pela família, Almir não saía de casa sem meias. Na vizinhança, ganhou o apelido Canelinha, graças às marcas brancas que a falta de sol deixava em suas canelas. Focado, estudioso e sistemático, o adolescente destacou-se pela técnica no instrumento e começou cedo a dar aulas. O primeiro trabalho profissional também veio cedo, aos 17 anos: fez a trilha sonora para o filme O Vale do Canaã, dirigido por Jece Valadão. A indicação para o trabalho veio de seu primo e diretor de cinema Braz Chediak. “Ele fez a música tema do filme, mas não conseguiu fazer a letra. Na hora de gravar eu tive de criá-la rapidinho. Essa foi a primeira gravação do Almir”, conta Braz.

Aos 18 anos de idade, tendo aulas com Dino 7 Cordas (1918-2006), começou a bolar o seu primeiro método de ensino de violão. Em entrevista à revista Teoria & Debate nº 33, editada pela Fundação Perseu Abramo, Almir conta as conversas que tinha com Dino, chorão veterano que integrou o conjunto Época de Ouro, de Jacob do Bandolim: “Estou escrevendo um método e você, com 40 e poucos anos, sabendo o que sabe, nem se preocupa com isso”. Segundo o violonista, era comum que os músicos escondessem o “pulo do gato” das criações harmônicas e não tivessem um método sistematizado de ensino. “Eu não tive esse espírito, pelo contrário, quando aprendia alguma coisa, sempre queria passar para o maior número possível de pessoas, para que aquilo ficasse”, afirmava o músico.

O jovem continuou dando aulas de violão, fez outras trilhas para o cinema e gravou um compacto com a atriz e modelo belga radicada no Brasil Annik Malvil, a lançadora da moda do vestido tubinho nos anos 1960. Para Dois Perdidos numa Noite Suja (1970), filme de Braz Chediak baseado na peça teatral de Plínio Marcos, o músico compôs a trilha, mas sua música não chegou às telas. “Eu queria uma aspereza, barulho de sapato, mais som ambiente… e acabei tirando a trilha sonora depois”, revela o diretor.

Conhecendo o mestre

No início da década de 1980, regressou ao Brasil Ian Guest, figura determinante para os próximos passos de Chediak. De origem húngara, vivendo no Brasil desde 1957, o músico acabava de se formar na Berklee College e aportava no Rio de Janeiro para dar aulas sob o método Kodály, pedagogia de ensino musical desenvolvida pelo professor e músico húngaro Zoltán Kodály, na qual as emoções e o intelecto podem ser trabalhados por meio da música.

Quando começou a ter aulas com Guest, Chediak já era um violonista e professor tarimbados, mas esse novo mergulho clarearam suas ideias sobre os meandros da harmonia popular. Atento, estudioso e questionador, o músico sempre fez perguntas minuciosas e extensas anotações a cada aula. “Absolutamente tudo o que ele aprendeu de música foi comigo. Para ele, fui uma revelação. Ele estudava violão e não sabia muita coisa de música; ficou de queixo caído. Expliquei o porquê das harmonias. Ele queria arrancar de mim todas as informações, ficava atento. Se eu falasse alguma coisa contraditória com algo de outra aula, ele já perguntava”, confessa Ian Guest.

Chediak prosseguiu dando aulas. Era professor de figuras como Nara Leão (1942-1989), Gal Costa, Elba Ramalho e até mesmo de uma das referências do instrumento no Brasil, o maranhense Turíbio Santos. Em meio a suas classes, continuava maquinando métodos para o ensino musical. “A principal veia musical do Almir era ensinar, fazer os métodos. Ele começou a fazer isso também porque queria compreender o processo criativo dos compositores brasileiros. E ele tocava um violão muito limpo, muito clarinho, não era um virtuose”, conta Turíbio.

Opinião semelhante sobre a veia didática de Chediak tem o sambista Martinho da Vila: “O Almir Chediak era lá de Vila Isabel. Ele deu aula de violão para a Martnália e queria tocar comigo, mas não tocava bem. Tem pianistas que são excelentes arranjadores mas não são bons concertistas. O Almir era assim. Mas fomos sempre amigos”, comentou Martinho.

A unificação das cifras no Brasil

Em 1984, Almir lançou seu primeiro livro, o Dicionário de Acordes Cifrados. A obra, publicada pela Editora Irmãos Vitale, teve repercussão positiva à época de seu lançamento e se tornou um sucesso de vendas. Os pareceres favoráveis vinham de todos os lados. Rosinha de Valença (1941-2004), Dino 7 Cordas, Raphael Rabello (1962-1995), Antônio Adolfo e outros elogiaram o dicionário de Chediak. Magro (1943-2012), do MPB-4, afiança: “Um livro que deve estar na mesa de trabalho de todo músico que se preza. Intrumentista, compositor ou arranjador”.

Na apresentação, o próprio Chediak escancara a pretensão do livro: “Aproveitando tratar-se de um Dicionário de Acordes, o presente livro é, também, uma tentativa de racionalizar e uniformizar o sistema de cifragem”, explica. O guitarrista e sanfoneiro Sivuca (1930-2006), em um texto preparado para a obra, comenta exultante os aspectos importantes da unificação das cifras. “Espero em futuro próximo, graças ao Dicionário de Acordes, poder chegar com um monte de orquestrações ao território do Acre, ou em qualquer outra parte do Brasil, e as pessoas que estudaram pelo método do Almir compreenderem prontamente o que quer dizer. [...] Sempre tive o desejo de ver a padronização das cifras não só em termos brasileiros, mas também em termos internacionais”. Em um jantar de família em que estavam presentes alguns amigos, Nara Leão, convidada por Braz Chediak, brincou: “Daqui a pouco, você vai publicar só as impressões sobre o livro”.

Chediak entregara à editora o trabalho praticamente pronto para a impressão e, percebendo que tinha feito a parte mais difícil, ao lançar o segundo livro abre a empresa Lumiar Discos & Editora, pela qual lançaria todos os seus futuros trabalhos.

Quatro anos depois, Chediak publicou o segundo livro, Harmonia e Improvisação, que trouxe em suas páginas a teoria musical necessária à música popular e à improvisação: são mais 70 músicas harmonizadas e analisadas. O primeiro comentário na abertura do livro é de João Gilberto: “Almir nos deu uma escola – seu livro”. Na sequência, recomendações de Caetano Veloso, Egberto Gismonti, Turíbio Santos, Sivuca, Toninho Horta e Ivan Lins.

Na música popular brasileira, há criadores que pouco sabem de teoria musical e desenvolveram trabalhos de complexidade harmônica e melódica graças aos ouvidos privilegiados e à técnica adquirida em muitas horas debruçados sobre seus instrumentos. Casos marcantes são os de Moraes Moreira, João Bosco e Djavan, cujas obras foram registradas por Almir. “A sua missão é muito importante, pois você como um amigo professor fica ao nosso lado, cifrando e decifrando a nossa santa ignorância musical, abrindo novos caminhos e mostrando assim que podemos ir bem mais longe”, diz  Moraes Moreira no prefácio de Harmonia e Improvisação.

Os songbooks: a concepção

Songbook de Chediak é a primeira publicação no Brasil que reuniu cifras fiéis às obras dos autores. Foto: reprodução

A ideia de fazer os livros de cifras surgiu na casa de Caetano Veloso enquanto dava aulas para seu filho, Moreno. Para o aprendizado de harmonias e de técnica de violão, Chediak ensinou ao futuro profissional músicas do cancioneiro popular. Foi nesse momento que teve a sacada: reunir todas as cifras em um livro. Ao terminar a aula, conversou com Caetano e sugeriu que a obra do tropicalista fosse a primeira abordada. Caetano topou.

No Brasil, ainda não havia livros de cifras com registros fiéis às obras dos artistas. Somente revistinhas de violão com cifras malfeitas e erradas. Poucos livros, vendidos no exterior, tratavam da obra de brasileiros de renome internacional, como Tom Jobim ou João Gilberto, mas ainda assim não eram fiéis aos artistas nem eram submetidos à consultoria deles.

Entre a ideia e a produção do primeiro songbook, lançado em 1989, Chediak suou a camisa. Para a escolha do repertório, teve a ajuda do próprio Caetano. A princípio seriam 100 músicas, mas a publicação contemplou 130. O baiano alertou: “Já tem música demais! Se continuar assim, este songbook não terminará nunca”. Além da seleção das obras, outros cuidados foram necessários, como a escolha da versão da música a ser retratada, pois além das harmonias (as cifras), o livro traz as melodias (o desenho musical do que é cantado), que variam entre os intérpretes ou entre diferentes gravações.

À época, Almir não tinha à sua disposição um computador para fazer a editoração de seus livros. As partituras eram feitas com decalque e as cifras eram recortadas e coladas em cima das letras das músicas. Foi só a partir da segunda edição dos songbooks, desta vez dedicados à bossa nova, que Chediak digitalizou seu trabalho. Egberto Gismonti, que já conhecia os novos programas de computador utilizados nos Estados Unidos, é quem deu a dica a Almir. “A partir daí, comprei um computador e as coisas ficaram muito mais fáceis. Porque o livro da Bossa Nova eram cinco livros, com 313 músicas. Imagina decalcar compasso por compasso… Uma loucura, né?”, disse o editor em entrevista ao programa “Encontro Marcado com a Arte”, gravado em 1997 e disponível no YouTube.

O processo de criação dos songbooks

Parte da obra de Caetano Veloso compõe o primeiro songbook de Chediak. Fotos: reprodução

Os livros trazem biografia dos artistas, fruto de uma pesquisa minuciosa, com fotos raras e uma longa entrevista. Chediak não fez tudo sozinho: contou com uma equipe editorial e músicos que aprenderam e dissecaram as canções dos escolhidos.

Seu ex-professor e amigo Ian Guest fez, durante muito tempo, as revisões melódicas das músicas. Outros músicos, como Ricardo Gilly, Itamar Assiére, Fred Martins e Cristóvão Bastos se encarregaram das transcrições. “Nós ouvíamos as músicas em fitas cassete: ouve, pausa, volta; e registrávamos à mão. Eu fazia a revisão final e colocava no livro, fazia a digitalização. Naquela época, era tudo mais complicado. Hoje, você põe num computador, dá para colocar a música para tocar mais devagar, ouvir os detalhes com mais cuidado”, conta Ricardo Gilly, músico que participou da produção de pelo menos 40 volumes dos songbooks.

Depois de registradas melodias e harmonias, as músicas eram levadas aos compositores para que eles conferissem o trabalho feito. Além disso, o cuidado na preparação dos livros se dava em todos os aspectos. Até na revisão do texto em português, os cuidados eram redobrados. “Quem fazia a revisão eram dois grandes filólogos brasileiros, o professor Antônio José Chediak e o Antônio Houaiss, do dicionário. Era perfeccionista, todo mundo se apaixonou”, revela Braz Chediak.

O songbook de Djavan foi um dos mais complexos. As divisões rítmicas das canções foram difíceis de ser codificadas graças ao suingue do cantor alagoano. Ao conversar sobre o projeto, Djavan disse que só toparia se fossem transcritos exatamente do jeito como ele interpretava. E esse é um dos grandes desafios. Ian Guest conta que esse trabalho rendeu algumas discussões durante a confecção. “Se fosse para colocar exatamente do jeito que o Djavan interpretava, teríamos de colocar um compasso 24/16, que dificultaria muito a leitura”. A solução era encontrar um meio-termo entre o que era cantado por Djavan e o mais próximo disso, de modo que se tornasse legível nas partituras.

As transcrições eram complexas e trabalhosas. Em média, as transcrições das músicas de um songbook demoravam em torno de quatro meses. As do Chico Buarque, que tinha três volumes e mais de 230 músicas, levou um ano.

>> OUÇA A PLAYLIST “ALMIR CHEDIAK – SONGBOOKS (1991-1995)”

Reconhecimento

Os songbooks também jogavam holofotes sobre artistas e músicos que andavam longe da cena. É o caso do pianista e compositor acreano João Donato. “Minha música estava esquecida, não tinha publicações, gravações, divulgações. Ele teve importância muito grande na música brasileira; registrou os trabalhos de todo mundo, de toda esta turma: Edu Lobo, Tom Jobim, Chico, Djavan”, comenta o autor de “Bananeira” e “A Paz”, ambas assinadas com Gilberto Gil.

Responsável pela trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, o cantor, compositor, cineasta e ator Sérgio Ricardo teve algumas de suas músicas investigadas por Chediak. “Muitos mistérios harmônicos foram decifrados a partir disso, e não mais se ouviam aquelas belas melodias mal executadas. Todos os músicos recorriam aos seus álbuns, ainda que só para conferir o que tirava de ouvido, porque as partituras eram raras. Foi um trabalho da maior importância e carinho com nossa música e com nossos autores”, garante.

Em 1993, após lançar o Songbook Gilberto Gil, Chediak recebeu o Prêmio Roquete Pinto de Personalidade da Música Brasileira pelo conjunto de seus livros e discos. A cerimônia de premiação foi transmitida pela Rede de Televisão TVE.

O som dos songbooks

Em 1990, Almir preparou o songbook de Noel Rosa, baseando-se nas gravações originais do compositor. Em paralelo, pediu a diversos artistas que fizessem novos arranjos para as músicas, trabalho que complementaria o seu livro com concepções musicais novas para a obra do Poeta da Vila. Foi Moraes Moreira quem sugeriu que os novos arranjos fossem gravados em áudio, pois o mais difícil já estava feito: o compromisso dos artistas com os arranjos novos. “Sugeri que ele transformasse em discos os songbooks com aqueles arranjos e interpretações dos artistas. Ele gostou da ideia e acabou fazendo um belo trabalho, de grande importância para a música popular brasileira”, conta o ex-Novos Baianos.

Entre os convidados estão Tom Jobim, Jards Macalé, Gilberto Gil, Chico Buarque, Moraes Moreira, Caetano Veloso e João Nogueira. Foi o primeiro de 15 songbooks produzidos em discos. Em seguida, vieram os de Ary Barroso, Braguinha, Carlos Lyra, Chico Buarque, Djavan, Dorival Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime, Gilberto Gil, Marcos Valle, João Bosco, João Donato, Vinicius de Moraes e Ivan Lins.

Para o produtor e compositor Nelson Motta, os álbuns têm seus pecados. “Almir era muito sério e criterioso com as partituras e harmonias. A produção dos discos era bem pobre, apesar dos grandes intérpretes que Almir “intimava” a gravar. Ninguém ousava recusar”, pontua.

>> OUÇA A PLAYLIST “ALMIR CHEDIAK – SONGBOOKS (1996-2003)”

O músico era calmo, porém incisivo. Quando fazia contato com os artistas, não deixava a peteca cair. Em entrevista ao site IG, a cantora Angela Ro Ro conta como os contatos com Almir Chediak a ajudaram a sair da fossa em um período em que ela estava deprimida devido ao uso excessivo de álcool e drogas. “Ele sabia que as coisas não estavam fáceis para mim, mas ele telefonava e dizia: ‘Quantos dias para gravar o songbook do Chico Buarque? Você está bem agora?’. Eu: ‘Não, Chediak, você sabe que não posso, que estou num inferno. Minha vida está uma porcaria’. Eu falava que precisava dormir, comer, tomar banho, ver se tinha voz. Ele encerrava: ‘Fechado? Dez dias? Mando o táxi te buscar’. Ganhei prêmio por causa dessa participação. A música conseguia me fazer sair de qualquer maneira. Eu parava com tudo”, disse Ro Ro.

João Donato recorda o empenho de Chediak na gravação dos discos. “Ele chegou um dia lá em casa. Eu morava num apart-hotel. Ele disse: ‘Comecei a gravar seu songbook. A Leny Andrade cantou Lugar Comum’. Ele gravava constantemente. Passamos um ano fazendo isso.,[gravando] 72 músicas para os CDs. A gente se via diariamente. Ele trabalhava o dia inteiro: de dia, de manhã, de noite, porque era muito difícil reunir as pessoas por causa dos calendários apertados de todo mundo”, relembra Donato.

Chediak e Tim Maia

Em 1990, Almir conheceu Tim Maia, seu mais novo aluno. O soulman não era chegado aos exercícios, mas ficava admirado com o talento e a precisão do mestre. “A minha cachorra é minha melhor amiga, depois do Chediak”, garantiu Tim na biografia Vale Tudo – o Som e a Fúria de Tim Maia (2007), escrita por Nelson Motta.

Juntos, começaram a trabalhar em um antigo desejo de Tim Maia: gravar um disco somente com canções da bossa nova. “Seria uma longa viagem sentimental até a Tijuca de 1958, quando ele [Tim Maia], Erasmo e Roberto adolescentes ouviram João Gilberto pela primeira vez e descobriram um novo mundo musical, feito de dissonâncias e sutilezas, de suavidade e sofisticação”, narra Motta em seu livro.

O disco Tim Maia Interpreta Clássicos da Bossa Nova é produzido por Chediak e gravado com um time impecável de músicos: Luizão Maia no baixo, Wilson das Neves na bateria e Antônio Adolfo no piano. Ainda segundo Nelson Motta, o maior desacordo ocorrido nas gravações se deu em torno da música “Garota de Ipanema”, que Chediak achava indispensável em um disco com clássicos da bossa nova e Tim Maia não queria gravar. “Ô, Almir Chediak, todo mundo já gravou esta música, até Dom Helder Câmara já gravou, só falta o delegado Romeu Tuma gravar”, protestava Tim.

No fim das contas, o Síndico gravou. Marcado para sair em agosto de 1990, o disco foi lançado somente no início de 1991 para coincidir com a publicação do livro Chega de Saudade, de Ruy Castro, e do novo de João Gilberto, João, depois de um hiato de cinco anos. Ao crítico Luís Antônio Giron, um dos admiradores de seu álbum, Tim Maia disse: “No fundo, no fundo, gravei bossa nova só para sacanear o João”.

>> OUÇA A PLAYLIST “ALMIR CHEDIAK – PRODUTOR”

A amizade de Tim e Chediak se estendeu até os últimos dias do cantor, morto em 15 de março de 1998. Almir queria fazer uma biografia de Tim e já havia reunido cerca de 30 horas de gravação de entrevistas com o músico. Adamo Prince, amigo de Chediak e parceiro na produção dos songbooks, conta que ele sempre tinha novas histórias dos encontros com o Síndico. “O Tim Maia enrolava o Chediak. Certa vez, foi à casa de Tim para fazer a entrevista e Tim pediu: ‘Aguarda só um minuto aqui na sala que eu já volto’. Dormiu. Em outra oportunidade, foram conversar pela praia da Barra e Tim Maia, reconhecido por fãs, levou todo mundo para sua casa e deu uma festa”, relembra Prince. Apesar de querer realizar o trabalho, Tim brincava: “O Almir me dá medo. É só ele começar um songbook que o cara morre. E esse negócio de biografia também é um pé na cova”, narra Nelson Motta em Vale Tudo.

Antes do projeto se concretizar, Chediak morreu. De escritor passou a personagem da biografia de Tim, produzida por Motta. “Eu me lembro dele me falando disso e também me pedindo para que lhe desse uma entrevista sobre minhas aventuras com o Tim. Mas pouco depois ele morreu e nunca mais ouvi falar dessas fitas. Adoraria ouvir”, confessa o também autor do livro Noites Tropicais.

O fim trágico

Com o sucesso de seus livros e o intenso trabalho que desenvolveu, Chediak teve uma vida confortável na cidade de Petrópolis, interior do Rio de Janeiro. O primo Braz Chediak conta que Almir era uma pessoa simples e ingênua, já que não era muito cuidadoso com seus pertences e frequentemente expunha demais sua condição financeira.

Certa vez, “roubaram um carro dele que valia mais de 100 mil reais. E ele pôs um anúncio no jornal pedindo para devolverem o violão (que estava dentro do automóvel0)”, rememora Braz.

Na noite de 25 de maio de 2003, ao chegar em sua casa, localizada no bairro de Araras, em Petrópolis, Almir Chediak foi sequestrado com a namorada, Sanny da Costa Alves. Levado em seu carro para a estrada do Rocio, o casal foi amarrado pelos assaltantes. Deixaram Sanny em um ponto da estrada e seguiram com Almir alguns quilômetros adiante, onde foi executado com quatro tiros.

Jesus Chediak, irmão do Almir, lembra da tragédia. “Fui reconhecer o Almir. Ele foi executado com quatro tiros na cabeça, um no maxilar esquerdo, outro no maxilar direito, outro no olho e outro no ouvido. Foi torturado com requinte”. E continua: “Quando encontraram o meu irmão, ele estava com as mãos amarradas para trás, de joelhos. Disseram que foi assalto, essa coisa toda. Eu não acredito que tenha sido assalto”.

À época, a polícia concluiu que Almir Chediak foi morto porque havia reconhecido um dos assaltantes: caseiro de seu vizinho, o diretor de novelas da Rede Globo, Rogério Gomes. Generino Pedro da Silva e Roberto Carlos dos Prazeres, o Robertinho (caseiro), foram condenados a 27 anos de prisão pelo crime.

A notícia da morte de Almir Chediak chocou a comunidade musical brasileira. Dorival Caymmi, quando soube da notícia, ficou nervoso e teve de ser medicado. “Foi dificil de acreditar no assassinato de um ser humano tão pacato, compreensivo, boa gente como Almir”, lamenta Sérgio Ricardo. “Humanamente foi uma perda sentida e historicamente uma perda lastimável, deixando uma lacuna que não se viu  mais preenchida por outro empreendimento. Que seu exemplo como cidadão e ser humano fique para sempre em nossa memória como um grande amigo de seus amigos e da arte brasileira”, lamentou em entrevista ao Álbum.

Em setembro de 2003, João Gilberto fez um show histórico no Japão, quando foi aplaudido por 25 minutos após a apresentação. O registro pode ser ouvido no disco João Gilberto in Tokyo, lançado no ano seguinte. Almir Chediak havia morrido fazia poucos meses. “Ele foi fazer um show no Japão depois que o Almir faleceu. As cordas do violão tinham sido trocadas pelo Almir. O João tem mania de trocar as cordas do violão sempre que vai fazer um novo show, mas nesse dia ele não trocou para que fossem mantidas do jeito que o Almir havia deixado. Fez o show e foi aplaudido por 25 minutos”, conta Jesus Chediak.

A pendenga judicial

Em 2007, o nome de Almir Chediak voltou a aparecer na mídia. Desta vez, por uma briga judicial ainda não resolvida relacionada a dois supostos filhos do produtor, fruto de uma relação extraconjugal com a pianista Catherine Henriques.

O jovem Alexei Henriques nasceu em 18 de janeiro de 1989 e Aleska Henriques em 12 de outubro de 1991. Segundo a mãe, em entrevista ao site G1, publicada em 9 de novembro de 2007, o músico sabia da existência dos filhos e contribuiu com um salário mínimo para a criação das crianças até sua morte. “Na época em que namoramos, ele era casado e não queria ter filhos. Nós nos afastamos nas duas vezes em que fiquei grávida. Ele viu as crianças poucas vezes, mas entre 1998 e 2003, até a sua morte, depositava um salário mínimo na minha conta para ajudar nas despesas”, revelou Catherine ao site.

Segundo Jesus Chediak, herdeiro de Almir, um exame de DNA já foi feito e deu resultado negativo para o filho e inconclusivo para a menina. A mãe contesta esse exame, já que a coleta do sangue de Jesus foi feita oito meses após a coleta nas crianças. Desde 2003, três exumações do corpo de Almir Chediak foram marcadas pela Justiça para a realização do exame de DNA, mas não foram realizadas. A briga judicial continua.

Músicos anônimos

Atualmente, projetos como o SambaBook, desenvolvido por Luiz Calainho, Sérgio Baeta e Afonso Carvalho, dão continuidade ao idealizado por Almir Chediak. O primeiro SambaBook foi editado em homenagem ao sambista João Nogueira (1941-2000) e a segunda edição celebra Martinho da Vila. Outros empreendimentos seguem o DNA daqueles de Chediak, como o de seu parceiro Ricardo Gilly, que lança no meio do ano um songbook tributo ao Rei do Baião Luiz Gonzaga (1912-1989).

A herança visível de Chediak e de seus songbooks está presente em personagens anônimos, como provam os vídeos que a todo momento aparecem no YouTube, com dezenas de interpretações surgidas a partir de seus songbooks, como os que se seguem…


  1. Além de tudo era lindo.Que pena morrer tão cedo e de forma tão covarde.

    | Ademar Amancio

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      14. Versões, sample e inspirações do Ben

        A música de Jorge Ben cantada por Dominguinhos, Skank, Les Etoiles, Racionais MCs e Emilio Santiago

      15. De Caetano a Elomar

        Terceira edição do programa de Zuza tem jazz, choro e samba com muito bom humor

      16. A música de Tom Jobim

        Playlist passa por temas compostos e interpretados por Tom Jobim, o Antônio Brasileiro

      17. Jo & Tuco: “A gente tem uma paixão pelo cool jazz”

        Cantora e pianista comenta o trabalho com o marido contrabaixista e ressalta obra de Jobim e Miles Davis

      18. “O diferencial do Paulinho Nogueira eram os acordes”

        Ele começou sua carreira como desenhista de publicidade e, anos depois, assumiu o violão profissionalmente. Juju Nogueira recorda a trajetória do pai

      19. Vadico: 10 vezes com Noel

        Playlist compila as 10 músicas que o maestro compôs com Noel Rosa, como Feitio de Oração

      20. Ed Lincoln, o rei dos bailes

        Playlist compila faixas de todos os álbuns do maestro do balanço