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O Brasil pode ser um país de ouvintes?

Jornalista discute a importância da circulação da música fora de suas regiões de origem

texto Felipe Lindoso

A banda mineira Porcas Borboletas e o cantor e compositor paraense Nilson Chaves. Fotos: Divulgação

# Publicado originalmente no livro Rumos_Brasil da Música (2006)

Foi uma revelação para mim quando o grupo de cafuzos do hip-hop começou a discutir os problemas da produção musical em Rondônia, e combinou essas preocupações com a descrição do trabalho social que faziam na periferia de Porto Velho e a necessidade de abrir uma biblioteca para servir à comunidade. Ali percebi como tinham muito em comum os problemas da música e do livro.

Porto Velho era a última etapa da “expedição ao Norte” do grupo que divulgava o projeto Rumos, nas suas versões música, audioficções e jornalismo cultural, e já havia passado por Belém, São Luís, Macapá, Manaus, Boa Vista e Rio Branco. Em todas essas cidades, para além das diferenças e características de cada uma, e de cada grupo que intervinha nas discussões, subjazia um substrato comum: a moçada queria ser ouvida. Ouvida como se ecoasse a canção dos Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

O projeto Rumos mapeia. Ao mapear, articula. Ao articular, revela as carências e os anseios de uma enorme quantidade de gente espalhada pelo Brasil que faz música, participa de movimentos sociais e reivindicatórios nas periferias, quer ler, quer ouvir, quer ser ouvida. No mapeamento, uma constatação: em todos os lugares se produz música, cultura, diversão e arte. No entanto, de forma muito estanque, ouvindo e percebendo o que os grandes esquemas de produção cultural divulgam, bloqueados em seu esforço de se fazer ouvir para além do círculo estreito do seu trabalho local. As trocas, os intercâmbios, nesse processo, são extremamente desiguais. A produção das grandes gravadoras (e de alguns independentes que conseguem abrir caminho a duras penas) chega a todos os lugares, é absorvida, retrabalhada e aparece de forma criativa na produção local. Esse é um lado positivo. Mas a volta dificilmente acontece. Às vezes não conhecem nem o que o vizinho está fazendo. E isso é uma verdadeira tragédia. E sonham — e se frustram — nas tentativas de romper as barreiras de fazer sucesso no “Sul maravilha”. Só que o Sul maravilha também é um planeta distante para os que fazem o mesmo tipo de trabalho nas periferias de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ou Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis. Ou nas capitais e cidades do Nordeste e do Centro-Oeste.

E aí se vê o paradoxo de um país muito musical, com enorme riqueza de ritmos, instrumentos, formas de fazer música, e que não se escuta de verdade entre si. Todos os mapeamentos feitos mostram isso de forma clara. O Rumos mostra. O projeto Música do Brasil, da Toca, também mostra. Temos, portanto, um grave problema de circulação da nossa produção musical. Coisa que conheço muito bem na área do livro e que, ingenuamente, não tinha percebido como se replicava na música (afinal, escuta-se tanta música brasileira no rádio). E que a “expedição ao Norte” me fez perceber de forma clara e evidente. Daí que, tal como no caso do livro, constato que não sofremos na música nenhuma crise de criatividade nem de qualidade da produção. Sofremos é com a enorme dificuldade de ouvir em São Paulo os mestres da guitarrada de Belém, o hip-hop de Rondônia. E eles, lá, de escutarem boas modas de viola, chamamés e guarânias pantaneiras. E assim por diante.

>> Ouça o especial “ESPECIAL MARCUS PEREIRA” (narração: Pena Schmidt)

A integração musical do país passa pela construção de políticas públicas que permitam maior fluidez nessa circulação. Não se trata de imposição disso ou daquilo, nem da obrigatoriedade de “cotas”. Trata-se, sim, de abrir oportunidades mais concretas, mais reais, para que essa circulação aconteça. E isso começa em cada uma dessas cidades. A falta de equipamentos culturais dignos que permitam a construção mais consistente de um mercado local para a produção local é um fato. Tudo é improvisado. São os botecos que pagam os músicos com comida e bebida, são os teatros e auditórios sem programação consistente para os artistas locais. São os recursos de incentivos fiscais canalizados para os grandes nomes — de teatro, de música, de tudo — e a carência de recursos para permitir que os pequenos grupos locais se apresentem e conquistem paulatinamente seu público.

Passa-se em seguida para as dificuldades de circulação intra-regional. Os músicos da Amazônia não conhecem o que os outros fazem. E o mesmo em cada uma das outras regiões. Em cada uma delas, o foco é dado pelos esquemas de sucesso. Estes variam, é verdade. O “brega” é um enorme sucesso regional, mas os paraenses têm pouco contato com os outros ritmos, levadas e estilos que existem na região. Tenho quase certeza que um conjunto amapaense jamais se apresentou em Rondônia. Nem mesmo em Manaus. E vice-versa. Portanto, temos necessidade de estabelecer esses circuitos regionais.

Finalmente, há a importância de induzir a criação de circuitos que façam a produção musical circular para fora de suas regiões, buscando afinidades que existem de fato e não são percebidas. Fico sonhando com grandes festivais que, a cada ano, mostrassem aqui, ali e alhures a enorme diversidade de estilos, modos, afinações, ritmos e acompanhamento de violões, por exemplo. Ou as sanfonas, gaitas e acordeões de todo o Brasil se mostrando uns para os outros e para todos. Sim, sei que já se fizeram coisas nesse sentido. Mas, me parece, falta o esforço sistemático de promover a circulação, a difusão e a fruição dessas formas musicais por todo o país. Esse tipo de iniciativa não pode ser só pontual, ocasional. Para frutificar, é mister que sejam continuadas e sistemáticas. E que circulem.

A televisão já está legalmente obrigada a produzir dramaturgia local. É importantíssimo para que cada região se veja na telinha. Ótimo. Mas falta um passo adicional: fazer que essa produção descentralizada seja efetivamente conhecida fora da região. Que o resto do país veja a cara que cada um tem. E por que não incluir a produção musical nessa produção descentralizada da televisão? E mais: por que não abrir um espaço para que as produções regionais circulem entre as afiliadas de cada rede? A televisão e a rádio públicas são meios importantes para isso. E também as rádios comunitárias. O programa Onda Cidadã, do Itaú Cultural, já promove um intercâmbio na produção dessas rádios. Outras iniciativas podem se desenvolver, com um pouco de criatividade e estímulo.

Os interessados têm que se organizar e mobilizar para se fazer ouvir. Como estou acompanhando a formação da Câmara Setorial do Livro e Leitura, percebo o início de articulações mais amplas de autores e ilustradores, mas não sei se o mesmo fenômeno acontece na área da música. Uma coisa é certa: se os interessados não conseguirem se articular para ultrapassar a etapa da lamentação na direção da articulação inter-regional, na abertura de mercados, na visão profissional do assunto, os problemas continuarão no mesmo pé.

O Rumos Itaú Cultural abriu um enorme espaço para que as produções regionais se conheçam, em primeiro lugar, e se articulem. A presença de Pena Schmidt e as informações sobre música independente que ele levou para todo o país nas caravanas do Rumo abrem caminho. O mapeamento que transparece nos CDs editados mostra com clareza: somos um país de ouvintes.

Mas precisamos criar condições para aprender a ouvir todos os nossos sons.


# Felipe Lindoso
é escritor e jornalista/AM

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