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O bamba de Sampa

'O samba já era. Era assim que Eric pensava... Mas havia mudado de ideia. Por causa de uma moça.'

texto Bruno Zeni    |   fotos Simone Casas

# Publicado originalmente na Revista Continuum, janeiro de 2010

Devia ter algo a ver com a sonoridade da palavra. Samba. Eric a pronunciava, alongando o a e o m, fazendo estalar nos lábios o ba da palavra mágica. Samba, samba, samba. Repetida, era mesmo bela, la palabra, dizia consigo. O b retumbante e sincopado. O ssibilando, sedutor. Fazia hora para voltar ao estúdio que abrira, em sociedade familiar com o pai, engenheiro de som.

O rapaz, no momento em que vamos encontrá-lo, já era passado, dos 30 anos. Eric, compositor erudito, crescera com a ideia de que o samba era coisa arcaica: algo que a bossa nova, a tropicália e a MPB haviam reinventado, sepultando-o. Fazia sentido fazer samba? Ainda hoje?, pensava ele. Depois de Tom, Baden, Vinicius? João, Jorge, Roberto, Caetano? Chico Buarque, Chico Cesar, Chico Science? Depois de Tom Zé? Milton, Ney, Djavan? Samba ainda? Bethânia, Baby, Rita? Maysa, Elis, Marisa? Liminha? Lenine? Lulina?

O samba acabou. O samba morreu. O samba já era. Era assim que Eric pensava até bem pouco tempo. Mas havia mudado de ideia.

Foi por causa de uma moça.

Eric caiu apaixonado. E caiu mesmo: tombou da banqueta em pleno palco, pensando nela, quando tocava uma peça de seu xará, o Satie. Calor? Vertigem? Temperamental o pianista, comentava a plateia. Mas conseguiu voltar e retomar a execução. O concerto para piano e orquestra que sobreveio, felizmente, apagou a memória patética da queda. Rachmaninov, se não falham os registros. Fechou a noite com uma de suas composições, uma suíte para piano que fizera sucesso no círculo acadêmico, mas que foi recebida com aplausos não mais que protocolares.

Crescera ao piano, com dom para música, tocara sax e outros sopros - o jazz e o choro para relaxar depois das aulas extenuantes na graduação em regência. Ele conhecia também os instrumentos populares, de massa, como o violão e a guitarra elétrica. Mas voltava sempre ao grande e pesado instrumento de cauda que fora da avó, la abuela, que tocava antigas modinhas e polcas. Ele também admitia Chiquinha e Nazareth. Tinha simpatias por Nepomuceno e Guarnieri, claro. Mas Villa-Lobos era seu grande mestre. E, sobretudo, ele gostava dos latinos. Gardel o encantava. Piazzolla lhe botava emocionado. Havia os cubanos do Buena Vista. E Ernesto Lecuona, trazido à baila graças ao Grupo Corpo.

Mas samba? Para ele era o Carnaval e as modalidades degeneradas que sobreviveram: o pagode, o charme e o funk, dito carioca. Não era Gera Samba o nome daquele grupo do “É o Tchan”? Harmonia do Samba. Samba rock. Neguinho do Samba. Até o Marcelo D2 dizia fazer samba. E a Maria Rita, que deixara de lado a turma da nova geração da MPB para mergulhar no samba? No Rio, a Lapa bombava. Mas gafieiras como o Semente e o Democráticos eram coisa para turista, ele sabia. Em São Paulo, abriam bares com nomes alusivos, como Carioca Clube ou algo assim. Pululavam os documentários sobre sambistas. Ele conhecia uns sujeitos que haviam criado uma agência de fotos com o nome do ritmo.

Não era preconceito contra a música pop, ainda que Eric conhecesse as restrições de Adorno a esse respeito. Eric sabia. Conhecia o semba, o maxixe, o lundu, as umbigadas, as histórias da Tia Ciata, a relação com os terreiros de macumba, e até que não desgostava dos afrossambas de Baden e Vinicius.

Foram os afrossambas, aliás, que o pegaram no contrapé, por supuesto.

Noite da conversão
Violão soando como berimbau no Ó do Borogodó, aniversário de amigos no bar da Vila Madalena. Ia chegando gente, a roda se formou, mais gente sentou à mesa: casinhos de juventude, amigos barrigudos e carecas, soltinhos. Ele estava ficando velho.

Fora ao bar movido pelo senso do ofício. Ele tinha um estúdio de música, afinal. Fora, também, fisgado, hipnotizado por uma moça que não parava de dançar, desde o começo da noite, com parceiros diversos, bons pés de valsa daquela gafieira paulistana quente e superlotada. O Samba É Meu Dom, ele ouvira da Fabiana Cozza, enquanto caçava a imagem da moça que o inspirara, dançando por entre os intervalos das mesas, vestida de saia, de blusinha, de sandália, de samba.

A música parou, alguém gritou:

- Ric, vem pra cá. Toca um pouco de flauta, maestro!

Alguém que conhecia seu apelido de infância e sua formação musical. E estava na roda. Ele acenou negativamente. Há quanto tempo não soprava a transversa? Não, ele não ia arriscar vexame na frente de tanta gente do samba. Na frente de sua deusa desconhecida do samba.

O sorriso dela. As pernas dela. As cadeiras dela. A morena passava pra lá e pra cá. Eric foi se rendendo. O show recomeçou, agora com a Dona Inah. Quem mais estava para aparecer? Só faltava baixar o Magno, o Gudin, o Cebion, o Macacão.

A roda tocou um afrossamba. Tocou Chico. Tocou Edu Lobo. João Gilberto. João Bosco. Zé Keti. A Morena passava. A roda tocou Geraldo Filme. Adoniran. Vanzolini. Gudin. E então veio a apoteose: “Ai, que saudades da Amélia…”. O bar inteiro cantava. O bar parecia ter se incendiado. O bar todo se voltou para a sua garota, a morena da roda. E ela dançou, rodou, rodopiou e reinou no meio do bar. Todos a saudavam, repetindo o refrão, um tom acima, braços abertos, estendidos para o alto, e ela era o centro de tudo.

Amélia, ela se chamava Amélia.

Sambatango
Amanhecia. Ele saiu chapado da noite no Ó.

Nos dias seguintes, samba e Amélia não o deixavam em paz. Comprou chapéu panamá, partituras de clássicos do ritmo, violão novinho.

O samba era o mundo. Onde ele andara com a cabeça? Ele quase foi engolido pelo tsunami, sem percebê-lo. Ele estava naufragando e não sabia. Mas agora sabia: o samba é mistério e é meio de vida. O samba é a vida. O samba também é meu. Eu sou o samba, pensava.

Voltou a compor. Nunca mais, depois da graduação em regência, arriscara-se a escrever música. Era chegada a hora. Ele renovaria o samba, com pitadas eruditas e profundidade emocional latina. Então, ao lado de Gardel, Lecuona, Compay e Piazzolla, passaram a entrar em sua vida Lamartines, Nelsons, Angenores, Ciros, Noéis, Garotos, Sinhôs, Dongas, Argemiros, Blecautes, Aracys, Pixingas, Monsuetos.

Em seus devaneios, ele criava o sambatango, ele compunha um quarteto para cuíca, cavaquinho, pandeiro e flauta transversa. Tocava violão durante horas, estudava o samba. Iria dedicá-lo a Amélia, não via a hora de reencontrá-la. Amélia, o nome-símbolo da mulher-objeto à moda antiga, que o samba de Ataulfo e Mário Lago cristalizara, agora reinventada em morena sestrosa do bar da Vila Madalena.

Dedicou-se a compor. Chamou dois amigos para a primeira audiência. Vieram Igor e Hector, eruditos como ele, mas antigos amantes de samba.

Ele tocou. Havia uma introdução refinada, longa e cheia de silêncios, antes de a composição deslanchar. Eric tocou com energia e precisão. Ao final, os amigos permaneceram calados. Olhando para Eric e depois entreolhando-se, demoraram a se animar ao comentário.

- Mas, Ric, essa música não é sua. É do Cartola: “Tive Sim”.

Eric ficou estático. Olhou para Igor, que tinha sido direto e intempestivo.

- Não, vocês estão enganados. O começo… Nada a ver. É só uma impressão de semelhança.

Consultou suas notações. Empunhou o instrumento, ia retomar a execução. Parou.

Era a mesma música, sentiu.

Não era plágio, era apenas “coincidência”, consolaram os amigos.

- Acontece, faz tempo que você não compõe, está meio enferrujado - Igor declarou, tentando ajudar.

- Fica frio e vai em frente - disse Hector, querendo ser gentil.

- Não sei como foi que não me dei conta, desculpem, devo ter me distraído, perdi a concentração.

Naquela noite, Eric demorou a dormir. Partituras ondulavam em sua mente, a melodia de uma composição de Lecuona não o deixava em paz, e Gardel lhe soprava aos ouvidos sua voz coberta de poeira sonora. Cartola havia se infiltrado em seu inconsciente? A música o perseguira, sorrateira?

Nos dias seguintes, manteve-se próximo ao violão, sem perdê-lo de vista. Teria algum espírito do samba feito morada em seu pinho?

Resolveu compor outro samba, ou melhor, recompor seu primeiro samba. Queria um samba pra ela. Ele, que nunca tivera objeto de adoração para suas composições eruditas, ganhara musa em Amélia.

Saiu pelos bares a procurá-la. Foi à Vila Madalena. Foi ao Rei das Batidas. Passou pelo Saravah. Dali, ao Bixiga. Depois, foi ao Aba. Terminou no Alemão. Sem encontrar. O sorriso de Amélia sumira na noite paulistana.

Voltou pra casa a sós, mais uma vez. Abriu uma cerveja de garrafa e pôs-se a dedilhar o instrumento. Fez arranjos arrojados, pensou harmonias imprevistas. Um samba nascia. Dividiu a música em duas partes: uma, mais melancólica, falava da busca que ele empreendera naquela noite; a outra era apoteótica, um canto de louvor ao samba e à cidade. Estava em êxtase e exausto. A cerveja fazia efeito, conseguiu enfim dormir.

No dia seguinte, pela manhã, chamou os amigos mais uma vez. Os mesmos.

Tocou.

Hector e Igor entreolharam-se novamente.

- Ric, você está de brincadeira.

- Você está tirando uma com a gente.

Eric gelou. Tocou de novo. Dois sambas em um, preexistentes, paulistas: “Ronda”, do Vanzolini, e “Praça 14 Bis”, do Gudin. Não falaram mais nada, deixaram o amigo sozinho, absorto, cabisbaixo.

No dia seguinte, em seu estúdio, Eric ficou acompanhando algumas das sessões de gravação, meio tonto. Angustiado. Pensava em Amélia, musa paradisíaca, brasileira sua, suada de verdade, dançando.

Decidiu ir ao bar, queria amargar as amarguras. Passou a mão no panamá, saiu cedo do estúdio, foi ao Ó. Ainda sozinho. Calor. O pessoal da outra vez começou a chegar. Mais gente, aquele bar sempre lotado, não parava de encher. Tocavam Candeia, Paulinho, Zeca, Ivone Lara. Amélia viria?

Tocavam Elton Medeiros, Baden, Jovelina. Lá pelas tantas, viu a moça. Passou a mão pelo rosto, assegurou-se de que não estava sonhando. Precisava falar com ela.

Amélia dirigiu-se ao toalete. Eric foi atrás. Encontrou-a na fila. Banheiro comum. Ocupado. Ela esperava, ele chegou.

- Oi, mi corazón.

- A gente se conhece?

El dia que me quieras será o dia mais feliz da minha vida.

- Desculpa, não entendi.

Eric ia repetir a cantada, mas o banheiro vagou e era vez de Amélia.

Ele ficou esperando. Esperando. Esperando.

Ouviu a descarga. O trinco se abrindo.

Ela já saiu dançando, olhando para a roda, sem se voltar em sua direção. Tocavam Nelson Cavaquinho.

Enquanto Eric urinava e se entretinha com as pichações na parede interna do reservado, a roda tocou Nelson Sargento. Então, quando ele pretendia sair do banheiro, a roda foi de “Amélia”.

Ele respirou fundo. Fechou a braguilha, esperou um pouco, pensando o que fazer. A música crescia, não terminava. Abriu a porta e dirigiu-se diretamente para a saída. Não se lembra de como chegou em casa.

Mais tarde, na mesma noite, Eric compôs mais um samba, composição a que prontamente deu o nome de “A Flor e o Espinho”.

No dia seguinte, iria mostrá-la a Hector e Igor.

# Bruno Zeni é jornalista e escritor. É autor de Corpo a Corpo com o Concreto (Azougue Editorial, 2009).

 

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