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Moda de viola com requeijão e goiabada

Para fugir da mesmice da mídia, Roberto Corrêa defende uma demarcação cultural

texto Roberto Corrêa    |   fotos J. Borges / Reprodução

Detalhe da xilogravura Festival de Violeiros, de J. Borges, que estampa o LP Violas & Repentes (Discos Marcus Pereira, 1980)

Identidade brasileira. Isso existe? Como definir identidade cultural em um país com apenas 500 anos, que foi colônia até há pouco tempo e que, ao longo de sua história, foi aumentado por meio de tratados, negociações, guerras? Um país povoado inicialmente por europeus ibéricos, que logo se mesclaram com as várias tribos indígenas que aqui habitavam e com africanos, também de tribos diversas, trazidos para cá à força. Enfim, país continental cuja população, em sua grande maioria, e de sangue mestiço, oriundo das possibilidades de mistura que aqui se deram.

Somos descendentes dessa mistura racial e cultural, depurada ao longo de nossa história na lida com a terra, no sofrimento, no viver isolado, na convivência e na fé. Um país de enorme diversidade cultural e de uma única língua – a língua portuguesa – enriquecida por sotaques, inovações da linguagem oral e repleta de arcaísmos.

Será que a diversidade cultural oriunda desse processo de mistura nos diferencia de outras nações, nos identifica? Parece-me que sim.

Acredito que valores culturais identificam família, comunidade, região e, de forma mais ampla, acabam por estabelecer a identidade de uma nação. Cada região do nosso país tem suas particularidades, o nordestino não é igual ao gaúcho, que não é igual ao caipira, que não é igual ao caiçara, que não é igual ao amazonense… São culturas diferentes, preciosos para todos nós, brasileiros.

Os processos de transmissão se davam, até há pouco tempo, dentro de universos restritos, localizados. As interferências externas eram assimiladas com mais vagar, apuradas no dia-a-dia. Poucas diferenças se estabeleciam de uma geração para outra. Mas o mundo mudou, e muito.

As conversas de fim de tarde, os saraus, o tempo da interação foram rareando à medida que veículos de comunicação de massa foram se apossando das casa e das pessoas. A velocidade e a quantidade de informações não puderam ser freadas e nem ao menos avaliadas. Diferenças culturais que antes localizavam pessoas, famílias, comunidades, foram se diluindo em mesmice generalizada. Mudança radical da horizontalidade para a verticalidade. As diversas regiões do país cada vez mais parecidas entre si, e abismos culturais se formando entre gerações de uma mesma família. Assim vamos ficando à deriva, sem porto seguro. Nossos bens culturais mostram-se ainda frágeis: de uma geração para outra podemos perder riquezas por falta de um entendimento coletivo da importância desses bens em nossas vidas. E vamos sendo levados para o léu, perdendo a liga com a tradição. Cavaleiros sem rédeas. Marinheiros sem leme. Isolados dos próprios valores.

Capa do LP Nordeste: Cordel, Repente, Canção (1975)

Urge estabelecermos limites para nos proteger. Onde estão as receitas da vovó, os ditos e causos do vovô? As modas de viola das duplas caipiras de fato, aquelas que se apresentam de viola e violão e que conhecem toda a variedade de ritmos da música rural? Os cantadores repentistas de sertão nos duelos pé-de-parede? As serestas? As modinhas? A compota de goiaba? O doce de cidra? Os catiras? As folias de reis? Do divino? As cantigas de roda? E mais. Muito mais.

Será que essas coisas foram ultrapassadas, vão acabar? Se sim, o que foi adquirido em troca? Modismos musicais têm deixado pouco espaço para as nossas expressões regionais; receitas caseiras de requeijão estão sendo trocadas pela bonita embalagem de um produto industrializado de mesmo nome disponível em qualquer prateleira do mundo. O melado, então…

O que fazer? Proponho uma ação que venho fazendo já há algum tempo: demarcação cultural.

Cada uma de nós pode, e deve, hastear sua bandeira, dar limites ao que vem de fora, defender e preservar o que é de sua família, de seu lugar, de sua região. Reconhecer as diferenças culturais e respeitá-las. São outras cercas. Que sejam de arame farpado, de orgulho, de fidelidade às origens, de reverencia ao ancestral… Cercas que protegem mas que também nos fazem crescer de fato, por meio do que é nosso.

Não sou avesso ao novo. Sou violeiro. De um jeito torto, por herança de meu avô. Minha música, acredito, resulta contemporânea. A liberdade de minha criação está enraizada no meu conhecimento e respeito às minhas origens, minha tradição.

“Planta que tem raiz fraca/ não tolera nem trovão/ Só renova e vai pra frente / quem conhece do seu chão”, já dizia meu avô.

Ah! Meu brasileiro, mestiço, diverso e profundo, assombrado pelo fugaz, pelo irreal, iludido… Toma tenência, sô!

 

ROBERTO CORRÊA é mineiro de Campina Verde e reside desde 1975 em Brasília, onde largou a carrreira de físico para assumir a de violeiro, compositor e pesquisador musical. Divulgador da viola de cocho, instrumento típico do Mato Grosso, tem discos lançados com a cantora Inezita Barroso e com o rabequeiro e guitarrista Siba.  

# Publicado originalmente no livro Rumos, 30.000 km

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