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Ian Ramil improvisa guisado com as coisas do dia

Músico gaúcho não segue receitas ao pé da letra, mas tem muitas dicas culinárias

texto Jullyanna Salles    |   fotos Rodrigo Marroni

O gaúcho Ian Ramil, que se apresentou no Itaú Cultural no dia 8 de setembro, está em turnê com o seu segundo álbum, Derivacivilização. O disco foi gravado em um estúdio montado na casa onde Ian passou a infância e a adolescência, em Pelotas (RS). Recentemente, o compositor foi indicado a duas categorias no Grammy Latino, Melhor Artista Revelação e Melhor Disco de Rock.

A seguir, o cantor e compositor conta, passo a passo, suas aventuras na cozinha. Sem se basear em medidas exatas ou receitas tradicionais, ele improvisa no fogão e, com humor, descreve os caminhos que percorreu até chegar ao jantar.

 

Guisado com as coisas do dia

Eu não sei nenhuma receita, mas curto muito cozinhar. Basicamente vou ao “super” ou à geladeira, penso no que estou a fim de comer e fico imaginando como as coisas que estão por ali vão ficar quando eu as juntar. Pensando nisso, achei mais coerente contar o que acabei de fazer na janta – e ficou muito bom segundo a Laura [mulher], que comeu três vezes.

De tarde me lembrei de meio quilo de guisado congelado que a gente tinha comprado nestes dias, tirei do congelador e pus numa bacia cheia d’água pra descongelar a tempo da janta. (Ficaria melhor se eu tivesse tirado ontem e deixado descongelando dentro da geladeira, mas sou ruim de lembrar as coisas. A carne fica mais macia e conserva melhor o suco quando descongela lentamente.)

Agora de noite, na hora em que bateu a fome, pensei em pedir uma tele-entrega, mas a Laura me lembrou do guisado semidescongelado. Fui até a cozinha. Peguei a tábua e a faca e comecei a pensar no que mais tinha em casa.

 

Ingredientes

Guisado

Azeite de oliva
Um pote com pouca cebola picada que tinha na geladeira (usei só ela porque fiquei com preguiça de cortar mais uma, mas ficaria melhor com mais)
Alho
Pimenta vermelha fresca
Uma folha de louro (cai muito bem com guisado)
Um pedaço de abobrinha
Um pedaço de berinjela
Uns pedaços de tomate e um tomate novo
Manteiga
Arroz
Coentro, que já estava meio murcho

Suco
Água
Gelo
Limão bergamota

Modo de preparo

Pus o azeite na frigideira grande, aqueci de leve, acrescentei um pouco da pimenta e o alho picados; pensei que uma folha de louro iria ficar bom – desliguei o fogo pra não queimar o alho, porque alho queimado fica dose – e fui ao pátio pegar a folha, que, na volta, botei na frigideira. Religuei o fogo e com a colher de pau esfreguei bem a folha de louro na panela pra fazer o azeite pegar aquele gosto de natureza; quando o alho começou a dourar, botei cebola e sal e refoguei (a entrada da cebola não deixa o alho queimar).

Tudo dourado, joguei o guisado semidescongelado lá dentro. Botei mais azeite e sal e fiquei apertando com a colher, misturando bem com o que já estava lá. O cheiro estava incrível. Então cometi um erro. Achei que poderia ficar melhor se eu pusesse manteiga, mas pus um pouco demais: uns dois dedos. Manteiga geralmente detona, mas hoje entendi que o negócio do guisado é mesmo azeite de oliva. Uma vez vi um italiano usar uma garrafa de azeite inteira pra fazer uma bolonhesa e o troço ficou itálico. Desde então a regra pro guisado é: muito azeite de oliva. É uma brincadeira meio cara, mas vale cada escalavrada no bolso.

Voltando. Botei mais azeite pra sobrepor ao cheiro que a manteiga tinha imposto e segui a regra: deixa o guisado lá e, quando achar que está pronto, deixa mais. Vai criar aquela casquinha na panela e tu vai soltando e misturando e deixando mais e misturando e fica uma delícia. Virei o rosto e dei de cara com os pedaços tristes de berinjela e abobrinha sobre a tábua. Não sabia muito o que fazer com eles. Aqueci uma segunda frigideira, cortei a berinjela em fatias e coloquei lá sem óleo ou tempero algum pra “crocantizar”. Piquei a abobrinha do tamanho de falanges médias e misturei com o guisado. Selecionei e triturei as folhas que ainda tinham aparência viva do coentro murcho, botei no arroz branco, mexi e desliguei a panela.

O tomate picado com casca e tudo eu já tinha colocado dentro do liquidificador (agora me pergunto por que piquei o tomate que ia pro liquidificador…) com sal e azeite. Liguei. Deixei virar líquido. Quando o guisado ficou suficientemente dourado, desliguei a panela, pus o líquido de tomate e misturei tudo. Aqui rola um grande aprendizado que tive nas minhas cozinhadas: tomate ou se aquece ou se cozinha pra sempre. Se ele começa a ferver, as moléculas de água se soltam das moléculas vermelhas (química pura, preste atenção) e tudo fica com um grande gosto de nada. Aí a única saída é cozinhar até toda a água evaporar, o que também fica maravilhoso, denso, mas leva horas. Bolonhesa é por aí, mas hoje eu estava com pressa, então optei pelo gosto de tomate fresco.

Fiz um suco: meio litro d’água, um punhado de gelo e meio limão bergamota (com casca) que pedi de tarde a uma senhora muito simpática que é minha vizinha e mora numa casa depois do prédio ao lado do meu.

Botei as rodelas de berinjela sobre o guisado-barra-molho e chamei a Laura. Ela comeu o arroz com o guisado e uma salada de rúcula; eu preferi comer pão.

Tem uns que chamam de carne moída e outros de boi ralado. Eu prefiro guisado. É uma bela palavra.

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