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Fome de geografia

Roteirista do filme Baile Perfumado, de Lírio Ferreira, revê o cenário musical de Olinda e Recife nos anos 1980 e 1990

texto Hilton Lacerda

Chico Science & Nação Zumbi. Foto: divulgação

# Publicado originalmente em 2010 no Fanzine Ocupação Chico Science.

A cidade de Olinda fica na região metropolitana do Recife. De tão próximas, podemos dizer tratar-se de uma cidade dentro da outra. Com Jaboatão dos Guararapes não é diferente. A primeira fica ao norte do Recife, e a segunda, ao sul. O mar transforma as três cidades em um lugar único.

E foi em Olinda, em 1991, que assisti à primeira apresentação da banda Chico Science & Lamento Negro (depois transformada em Nação Zumbi). O bar chamava-se Oásis – nome muito apropriado. E o show abria para o Mundo Livre S/A (Fred Zeroquatro como líder). Naquele momento, na prática, o movimento mangue se tornava público (público pequeno e interessante).

Essa identificação é importante para mim por ter dado a largada a uma frente de ataque cultural bastante representativa dos anos 1990 no Brasil (e seus ecos ainda influenciam a cultura contemporânea).

Mas antes disso os caranguejos já estavam soltos. As tramas existiam. Desde o início dos anos 1980, o “Rato” (apelido de Fred Montenegro – mais tarde Zeroquatro) já estava colocando sua imaginação efervescente a serviço de uma mudnaça mais radical na cultura oficial de Pernambuco, dominada pelos excessos tradicionalistas do movimento armorial. A Mundo Livre S/A já embalava, desde 1984, uma pequena fauna de fãs. Pessoas que estavam por trás daquele cenário magrinho, necessitando de vitaminas para engordar.

Eram anos de muito pouco dinheiro. A informação era rasa, curta e conformada. E era nesse cenário que Fred ensaiava sua mistura explosiva de mensagem cerebral ararquicamente construída em parceria com uma busca incessante de conceitos populares. A periferia estava onde sempre esteve, mas mandava seu recado ainda sem canal. Mas o canal estava chegando. E a ideia do mangue como símbolo de diversidade já estava em andamento.

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Tocando o terror

No fim dos anos 1980, Recife centraliza o encontro entre os mundos de Jaboatão dos guararapes e de Olinda. Várias pessoas participam desse momento. Chico (com o Orla Orbe e o Loustal) e Fred (sempre Mundo Livre S/A) se encontram. Um vinha com sua herança da black music e do hip hop (junto com seus companheiros Jorge du Peixe, Lúcio Maia, Dengue e DJ Aranha). Do outro lado, a herança anarcossambista e punk rock dos Montenegros e seus seguidores. O caldo prncipia a engrossar. E aí, num cenário bem diferente, os caranguejos começam a esboçar um cérebro.

O início dos anos 1990 trazia uma ressaca sem proporções. Uma eleição (o primeiro pleito direto para presidente desde o golpe militar de 1964) tinha levado ao poder o que considerávamos – pelo menos assim acredito – a parte mais conservadora de nossa política. Mas o que parecia danoso serviu de alimento, a vitamina que faltava.

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