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Fala aí, meu camarada!

De Machado de Assis a Mussum, de Norte a Sul, a língua portuguesa segue viva e mutante

texto Mariana Sgarioni (Poemas de Jorge Filó)

O escritor Machado de Assis (1839-1908) e o sambista e humorista Mussum (1941-1994) em fotomontagem que estampa seu LP Água Benta, de 1978. Foto: reprodução

# Publicado originalmente na Revista Continuum / edição maio-junho 2009

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.” Essa frase foi escrita por Machado de Assis, em 1881, ao abrir seu primeiro romance realista, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Trata-se de um português perfeito, impecável, porém um pouco distante do que falamos nos dias de hoje.

Por isso, vamos propor um exercício de imaginação e pensar como Machado, com seu humor impagável, escreveria essa mesma dedicatória com gírias populares, se estivesse vivinho da silva no ano de 2009. Acho que ficaria mais ou menos assim:

“Para os bichos que comeram este meu presunto gelado, dedico estas memórias que escrevi depois de bater as botas.”

E se pensássemos ainda que Machado fosse um blogueiro de mão cheia, e ficasse ligado o dia inteiro com seu laptop, conectado com a rede wireless? Talvez escreveria algo parecido com isto:

“Pros vermes q roeram meu kdaver, aki vão minhas lbrças. Abs.”

Podemos viajar no tempo e escrever esse mesmo trecho nos anos 1950, 1970, 1990. Mesmo existindo formas atuais de dizer a mesma coisa, evidentemente, o original de 1881 continua sendo uma obra recomendadíssima - sobretudo para quem quer conhecer bem a língua portuguesa e dominar a escrita. Por outro lado, esse exercício simplório - e divertido - que propusemos aqui mostra quanto nosso idioma é vivo e está em constante movimento. A língua se transforma, ela é dinâmica. Só desaparece quando as pessoas que a falam são forçadas a adotar outra - coisa que passou a acontecer aqui no Brasil, quando, em 1757, o Marquês de Pombal instituiu o português como língua oficial e proibiu o uso das línguas nativas.

No Sudeste é “uai”
Uma forma de expressão
Se a pergunta é - “como vai?”
Se tá bom se diz “tá bão”.

Foi um esforço tremendo para impor a língua portuguesa em todo o território nacional. Quando os portugueses chegaram ao Brasil havia cerca de 1,2 mil línguas indígenas na região. Hoje, são 180. O português ganhou enfim sua unificação - por outro lado, a diversidade linguística permanece. As razões são diversas: primeiro, houve resistência dos povos dominados, claro, que mantiveram muitas de suas expressões e palavras. Segundo, o português trazido pelo colonizador não era uma língua homogênea, havia variações dependendo da região de Portugal de onde ele vinha. Sem contar os diversos momentos de chegada dos portugueses, que, ao se encontrar com muitas outras nacionalidades no Brasil, produziram diversidades linguísticas que caracterizam falares diferentes.

Em São Paulo, por exemplo, houve primeiro o encontro linguístico de portugueses com índios. Depois, vieram os negros da África, os italianos, os japoneses, os alemães, os árabes, todos com suas línguas. O resultado é que na mesma cidade é possível encontrar modos de falar completamente distintos. “O português falado, hoje, no Brasil, resulta de uma série de mudanças determinadas por fatores de natureza linguística e histórico-cultural que se vão apresentando ao longo do tempo”, afirma Silvia Brandão, professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Alguns exemplos: o “s” chiado (quase um “x”) dos cariocas nasceu com a transferência da família real portuguesa para a cidade em 1808, que produziu no Rio uma versão peculiar da pronúncia lisboeta. Em Santa Catarina, o sotaque cantado é influência direta da forte imigração de portugueses da ilha de Açores. Já Pernambuco ganhou a forte pronúncia do “r” como herança da longa presença holandesa no Recife.

Vôte, pru mode e oxente
É a fala do Nordeste
Se o sujeito é valente
Também é cabra da peste.

Segundo Antonio Houaiss, professor, diplomata, filólogo e lexicógrafo, a variedade de sotaques do Brasil não só enriquece a língua como é sinônimo do seu domínio territorial. Houaiss costumava dizer que a nossa língua, depois de tantas influências, se tornou nova, algo que poderia se chamar de “brasileiro” e não mais “português”.

Capa da primeira edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Foto: reprodução

O curioso é que, há muitos anos, antes da lei do Marquês de Pombal, existiu, sim, uma “língua brasileira” por aqui. Era o nheengatu, ainda falado em alguns pontos do Brasil, como na fronteira com o Paraguai e no Amazonas. A língua foi criada no século XVI pelos jesuítas, especialmente pelo Padre Anchieta, que era linguista. Para se entender com os índios, classificou o tupi e criou uma língua que não era nem de português, nem de índio. Eram ambas. Só falava português mesmo quem fosse estrangeiro, ou seja, os portugueses. Herdamos muitas palavras dessa língua, tais como abacaxi, jururu, cipó. E o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando usou a expressão “chega de nhenhenhém”, estava falando nheengatu.

No Centro-Oeste o “candango”
Come “Maria-Isabel”
Sua dança é o fandango
Se é de fora é tabaréu.

O nheengatu ajudou muito a formar, por exemplo, o popular sotaque caipira. De acordo com José de Souza Martins, professor de sociologia da Universidade de São Paulo, os índios tinham dificuldades em falar uma série de palavras portuguesas, sobretudo aquelas com a letra “r”. Mulher, colher e orelha eram ditas como “muié”, “cuié” e “oreia”. A partir daí veio o chamado “r” retroflexo, aquele “r” dobrado que, com a letra “i”, resulta naquele jeito de falar “cairne” e “poirta”, característico do interior de São Paulo.

Muita gente considera esse sotaque como um jeito de falar equivocado. Martins deixa claro que se trata de uma língua dialetal, e não de um erro. “O caipira inventa algo que ele entenda, só isso. Por exemplo, fizemos uma pesquisa no interior em que perguntávamos: ‘Você concorda ou não concorda?’. Muita gente não entendia. Até que mudamos a pergunta: ‘Você concorda ou disconcorda’ “. Daí entenderam.

Lá no Sul é trilegal
Ver um guapo de bombacha
Tem china e tem bagual
Ai tchê, tudo se acha.

Justamente por esse julgamento de achar errado o modo de falar do outro existem muitos preconceitos em relação aos sotaques brasileiros. O sujeito abre a boca e quem ouve já imagina de onde ele veio, sua classe social e assim por diante. Especialistas dizem que boa parte desse preconceito se dá por causa da tentativa de uniformizar os sotaques dos apresentadores de televisão conforme o padrão das duas maiores capitais, Rio de Janeiro e São Paulo.

É como torcer o nariz quando o mineiro abandona algumas palavras no meio do caminho ao perguntar “ôndôtô?” em vez de “onde eu estou?”. Ou ainda o “s” dos cariocas ou o “oxente” nordestino. “Embora, do ponto de vista linguístico, não haja forma errada de falar, os indivíduos atribuem julgamentos de valor a determinadas características linguísticas. Como acontece em relação a outros aspectos da vida social, a forma de falar de grupos menos prestigiados socialmente acaba por ter alguns de seus traços estigmatizados”, explica Silvia Brandão.

A boa notícia é que esse estigma pode desaparecer caso o sotaque caia, literalmente, na boca do povo. “A partir do momento em que um traço, antes restrito a um grupo, se difunde e atinge a fala da maioria dos indivíduos, ele deixa de ser socialmente marcado.”

No Norte tem xirimbaba
Animal de estimação
Matrinxã e maniçoba
Servem de alimentação.

A difusão de um modo de falar é algo realmente fascinante. E isso acontece, muitas vezes, não apenas a partir de um sotaque como também de uma só pessoa. É o que se chama de “idioleto”, ou seja, o conjunto dos usos de uma língua próprio de um determinado indivíduo. Cada pessoa, além de apresentar, na sua maneira de falar, o seu sotaque, usa a língua de uma forma peculiar. Quem não se lembra da língua inventada pelo Mussum, de Os Trapalhões, que fazia a criançada morrer de rir quando dizia “Ai, Cacildis!”. Rapidamente, o idioleto de Mussum, uma língua própria terminada em “s”, misturada ao seu sotaque carioca, se difundiu. Tanto que até hoje muita gente fala (em tom de brincadeira, claro) como ele.

Mussum adotava um jeito específico de falar, e não gírias, que são palavras, termos ou expressões que, de tanto usadas, podem até entrar no dicionário. “Foi o que ocorreu, por exemplo, com as novas acepções de vocábulos como broto, grilo, legal, bacana, entre outros”, lembra Silvia Brandão. Agora é esperar para ver o que será incorporado com o advento da internet, que usa uma linguagem escrita semelhante à falada. O que Machado de Assis acharia disso?

  1. Nossa língua é mutante de fato. Ótimo post.

    Encontre também novas expressões e gírias no http://www.qualeagiria.com.br

    Confere que vale a pena!

    | tiago

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