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Ecos de Macalé

A trajetória de Jards Macalé contada pela repercussão de seu trabalho em jornais, revistas e pela internet

texto Itamar Dantas

Dossiê traz as repercussões de lançamentos e trabalhos de Jards Macalé no decorrer de sua trajetória. Fotos:: reprodução

Jards Macalé nasceu Jards Anet da Silva em 3 de março de 1943, no Rio de Janeiro. O apelido, Macalé, vem da infância, dos tempos em que jogava bola e, sem muita intimidade com a pelota, recebeu o nome de um jogador de futebol do Botafogo entre os protestos dos colegas: “Passa a bola, Macalé!”. Na carreira profissional, o nome ficou. Segundo ele, foi Guilherme Araújo, produtor de Maria Bethânia e de boa parte da trupe tropicalista, quem disse: “Músico tem de ter dois nomes pra facilitar”.

Ao estrear profissionalmente, seguiria a tarja de maldito, que o acompanha por toda a vida. “Benditos sejam os malditos!”, disse o músico em entrevista concedida ao Itaú Cultural em 2013. Segundo Jards, as gravadoras não sabiam como rotulá-los, ele e outros cantores identificados com a alcunha, para colocar no mercado: “Não sabiam como vender a gente. Eu, Raul, Sérgio Sampaio, Jorge Mautner… Eles inventaram essa coisa dos malditos. Eu achava aquilo um barato. Imagina, ficar ao lado de Baudelaire, Rimbaud…”.

O início da trajetória profissional

A formação musical de Jards Macalé se deu com mestres que transitavam entre o erudito e o popular. Exímio violonista, foi com Turíbio Santos que desenvolveu suas técnicas ao instrumento. Ainda jovem, foi copista de partituras da orquestra de Severino Araújo e ali observava também os meandros da atividade de orquestração. Em 1967, Jards também fez um curso de composição com o maestro César Guerra-Peixe. O concerto de encerramento da turma teve destaque no jornal O Globo, de 14 de dezembro de 1967, que trazia uma pequena entrevista com o professor, que falava com entusiasmo de seu método de ensino e de seus alunos: “Tenho no curso alunos que são compositores de música popular e que não estão habituados à linguagem erudita. Mas deixando-os se expressarem como sentem, eles tentam elaborar no terreno de suas preferências um trabalho que respira além da obra de consumo. E quem sabe daí não sairá um novo caminho?”.

Guerra-Peixe não especificou nenhum aluno, mas seu comentário cabe bem na obra que Jards apresentaria ao mundo. Naquela noite, o músico apresentou sua composição “Círculo, para Piano”. Entre os colegas de classe, instrumentistas e arranjadores da música erudita, e também nomes da música popular como Roberto Menescal e Oscar Castro Neves.

No espetáculo Opinião, estrelado inicialmente por Zé Keti, João do Vale e Nara Leão, Jards Macalé também deixou suas marcas. Em 1965, Nara convidou Maria Bethânia para substituí-la. A cantora baiana veio para o Rio de Janeiro e ficou hospedada na casa de Jards, sob a tutela de dona Lygia, mãe do músico. Jards assumiu depois o violão que acompanhou a cantora nas apresentações.

Quando Maria Bethânia se mudou para o Rio de Janeiro, Caetano foi enviado junto à cantora. Na casa de dona Lygia se reunia boa parte da trupe baiana que desenvolveria o tropicalismo. “Trancavam-se Capinam, Caetano e Rogério Duarte no quarto dos fundos que tinha um beliche. O quarto era um cubículo praticamente. O quarto tinha um armário e um beliche. Quando eles estavam presos dentro daquele quarto, eles estavam tramando. Eu acho que uma parte da tropicália foi discutida dentro daquele quarto”, disse Jards em uma entrevista no documentário Jards Macalé – um Morcego na Porta Principal.

Com uma personalidade forte e declarações que vira e mexe geraram polêmicas, o rótulo de maldito foi colando à figura de Macalé. Em 1969, por exemplo, foi solenemente vaiado no IV Festival Internacional da Canção (FIC) quando interpretou fantasiado sua música “Gotham City”, parceria com Capinam. Não agradou a plateia. “Longe de despertar a empatia do público – jovem, porém, conservador e patrulheiro de certo anti-imperialismo, diga-se – Macalé foi alvo de uma histórica vaia e manifestação de repulsa”, relatou o jornalista e pesquisador Marcelo Pinheiro em recente artigo para o site da revista Brasileiros.

Mesmo com a maioria dos presentes não tendo gostado do que viram no show de Macalé, um deles, pelo menos, gostou. E se aproximou de Macao depois da apresentação dizendo que gostaria de entrar para o grupo. Era o percussionista Naná Vasconcelos, que já participaria naquele mesmo ano do primeiro compacto junto a Macalé e o Grupo Soma, o Só Morto (Burning Night). Macao toca violão e é acompanhado de Ricardo Peixoto (guitarra), Jaime Shields (guitarra), Bruno Henry (baixo) e Alírio Lima (bateria). Ainda há a participação de Zé Rodrix nos pianos e nos teclados.

Anos 1970 – Reconhecimento e hiato de produção

Capa do LP Transa, de Caetano Veloso. Foto: reprodução

Em 1971, Macao, como é conhecido entre os amigos, foi convidado por Caetano Veloso para fazer a direção musical de seu álbum Transa. Exilado em Londres, Caê garantia que só gravaria o disco se fosse encabeçado pelo amigo. Depois de recusar inicialmente por falta de recursos, Jards foi para Londres e lá gravou com Caetano Veloso e os amigos Lanny Gordin e Tutty Moreno. “O álbum serviu de aquecimento para a trinca de ases Jards, Lanny e Tutty. A aproximação, o convívio regular e os intensos diálogos musicais permitiriam a Macalé, logo na sequência, entrar em estúdio para colocar no mercado seu primoroso álbum solo, sem dúvida uma das estreias mais marcantes da geração de artistas de música popular que surgiu na segunda metade do século XX no Brasil”, garante Marcelo Pinheiro no artigo anteriormente citado. O álbum marca também uma briga entre Caetano Veloso e Jards, uma vez que o LP não trouxe o nome de Macalé em seus créditos.

O primeiro álbum de Jards Macalé foi lançado em 1972. Relançado em vinil, em 2012, foram diversas as manifestações ressaltando as qualidades do disco, comandado por “um estranho e poderoso power trio, formado por Tutty Moreno (bateria), Lanny Gordin (baixo e violão de aço) e Jards Macalé (violão)”, salientou Romulo Fróes em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 14 de julho de 2012 (e reproduzido no site Radiola Urbana), em que acrescentou: “O disco é todo organizado por esse movimento de concentração e dispersão, alternando-se entre a euforia e a contenção — comportamento parecido com o de Transa. Mas se ali as mudanças de intenção são comandadas pela letra e pelo sem-número de citações despejadas por Caetano, no disco de Macalé, seu violão é que vai guiar essas oscilações”.

No jornal O Globo, na edição de 8 de janeiro de 1973, a manchete da página 3 destacava a história recente de Macalé, que acabava de chegar de Londres [onde encabeçou e tocou no disco Transa, de Caetano Veloso] e tinha seu primeiro álbum, homônimo, recém-lançado. O título trazia algumas de suas referências musicais: “Do samba ao rock via jazz e Villa-Lobos um show de balanço”. Ao jornalista, não identificado na edição, Macalé falou de suas parcerias com Waly Salomão (1943-2003) ["Vapor Barato" e "Anjo Exterminado"] que integravam seu disco de estreia: “Waly, nascido em Jequié, interior da Bahia, é um poeta de uma linguagem fantástica, moderna, com signos absolutamente novos”.

“Vapor Barato” foi a primeira das muitas letras que Waly Salomão comporia. Consta no site Instituto Memória Musical 13 composições da parceria Jards-Salomão. Em entrevista ao programa Todos Sons Todas Letras, idealizado por Fábio Nagel, veiculado no canal Multishow em 2002, Waly Salomão fala do maior sucesso da dupla: “Aí eu começo assim: ‘Oh! Sim eu estou tão cansado, mas não pra dizer que estou indo embora’. É a total postura bem comum da contracultura daquele momento. De você escapar das diferentes situações, escapar dos estudos, escapar da família. Escapar das opressões comportamentais daquele período”.

O segundo disco de Macao, Aprender a Nadar, de 1974, já conseguiu melhor produção, em uma tentativa do músico de chegar às paradas de sucesso. Em artigo no site Freakium, de 2007, o jornalista Ricardo Schott falou dos meandros da produção do disco de Macalé: “Aprender a Nadar foi sua tentativa de arranhar as paradas de sucesso. Foi algo que ele até conseguiu e que lhe valeu alguma – boa – mídia, mas não o suficiente para livrá-lo da pecha de ‘maldito’, de anticomercial. Apesar da pouca vendagem do primeiro disco, a Philips decidiu manter o contrato do cantor, que aproveitou para gravar um álbum bem menos ‘econômico’, com arranjos mais elaborados – ao contrário do primeiro, no qual se restringia a um grupo básico. Em Aprender a Nadar aparecem músicos de estúdio como Wagner Tiso (arranjos, piano), Robertinho Silva (bateria), Rubão Sabino (baixo) e Ion Muniz (flauta), além de um regional que inclui os experientes Canhoto (cavaquinho) e Dino Sete Cordas (violão)”.

Com a regravação de “Mambo da Cantareira”, de Gordurinha, Jards Macalé chegou a alcançar algum sucesso e, segundo Schott, “serviu de pretexto para Macalé alugar uma barca da travessia Rio-Niterói e pular na Baía de Guanabara ao som da música, na festa de lançamento do álbum”, em episódio que ilustra o estilo irreverente do cantor.

Em 1977, lançou pela Som Livre Contrastes, que apresentava um Jards diverso, transitando entre a black music, o samba, o forró e o reggae. No jornal O Globo, de 9 de maio de 1977, a jornalista Ana Maria Bahiana defende o trabalho e sua multiplicidade: “E que disco, senhores, no mínimo, surpreendente. O tipo de disco impossível de descrever, rotular, amarrar, prender. Amplo, misturado, alimentício, disco geleia geral a partir de uma ideia contida num samba de Ismael Silva, ‘Contrastes’. Tudo contrasta e se mistura nesses 42 minutos de som. Macalé soa como Cauby Peixoto ou Jackson do Pandeiro, homenageia a Black Rio e o violonista e compositor Garoto, incorpora Louis Armstrong e Moreira da Silva. Ouvindo o próprio trabalho, ele parece distante e divertido”.

Em São Paulo, seu disco também reverberou positivamente. Em edição do jornal Folha de S. Paulo, de 16 de junho de 1977, o crítico Renato de Moraes destacou a obra e suas referências: “ ‘Poema da Rosa’ possui uma melodia tão insólita quanto a parceria (com Bertolt Brecht). Assim como em ‘Negra Melodia’, um reggae sincopado baseado em uma canção do ‘papa’ do gênero, o jamaicano Bob Marley, e com letra em inglês/português, reverenciando a jovem negritude brasileira”, defende o crítico.

O álbum, apesar de bem recebido, marcou o início de um hiato de dez anos que se seguiria sem lançamentos do artista. Para o documentário Jards Macalé – um Morcego na Porta Principal, dirigido por Marco Abujamra, amigos falam desse momento como o resultado da animosidade das gravadoras gerada graças a declarações polêmicas do músico: “Agora, você imagina, um cara que vai cantar ‘Gotham City’ no Festival da Canção, que faz um disco chamado O Banquete dos Mendigos e que chama os donos de gravadoras de atravessadores… É porque nunca se colocou a conta a limpo, nunca se numerou disco. Ele foi totalmente cortado da produção musical…”, contou o amigo e fotógrafo Cafi.

Em 1983, o músico chegou a gravar com Naná Vasconcelos, seu antigo parceiro ao lado do Grupo Soma, um álbum ao vivo que só ganhou as ruas em 1994 sob o nome Let’s Play That. Até 1987, nenhum disco seu chegou às vias de fato. Pretendia voltar às prateleiras naquele ano com quatro títulos. O primeiro a ser lançado foi um EP, em que registrou “Rio Sem Tom”, de sua autoria, e “Blue Suede Shoes”, de Carl Perkins, imortalizada na voz de Elvis Presley. Na sequência, apresentou 4 Batutas & 1 Coringa, dedicado à obra de Paulinho da Viola, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, LP que seria lançado também naquele ano.

Dois dos projetos não chegaram a se concretizar: Noel Rosa na Constituinte, em homenagem ao compositor de Vila Isabel, e Delta Zero, parceria que teria participações de Xico Chaves, Gilberto Vasconcellos, Fausto Nilo, Capinam, Abel Rocha, Glauber Rocha, entre outros. “Esses discos não saíram do papel, mas foi muito bom pensar neles”, diz o cantor às risadas.

Fim do hiato, tempos difíceis

Nos anos 1980 e 1990, foram longos os períodos entre um disco e outro. Longe das grandes gravadoras, Macalé continuou sua produção, mas em menor escala. Em texto de abertura para a entrevista concedida ao site Gafieiras, o cientista social e jornalista Dafne Sampaio define bem o período que se sucedeu na carreira de Jards: “Durante todas as décadas de 1980 e 1990, Jards teve dificuldades para gravar novos discos. O tal do ‘mercado’ queria outras coisas e foi então que o termo ‘maldito’ foi colado de vez em sua figura. Jards Macalé deu de ombros e seguiu em frente”.

Em 1988, Jards lançou Ismael Silva – Peçam Bis em projeto da Funarte. No LP, divide as interpretações com a cantora pernambucana Dalva Torres. Com produção de Maurício Carrilho e João de Aquino, o álbum trazia nove composições de Ismael (1905-1978), uma homenagem aos dez anos de morte do fundador da primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Deixa Falar. O pesquisador Jairo Severiano, em texto reproduzido no encarte do disco, destaca a relevância do sambista Ismael Silva: “E como malandro talentoso ele iria desempenhar papel importante naquele grupo de sambistas que entraria para a história da música popular brasileira com o título de Os Bambas da Estácio. Esses bambas (Rubens e Alcebíades Barcelos, Nilton Bastos, Edgar, Francelino, Gradim etc.), com Ismael à frente, foram os responsáveis pela cristalização do samba carioca na forma até hoje adotada, revogando o ritmo amaxixado usado pelos compositores que os antecederam. Isso porque, sendo também responsáveis pela criação, em 1928, da primeira escola de samba, a Deixa Falar, eles sentiram a necessidade de simplificar a rítmica do samba, justamente para facilitar o deslocamento dos foliões que desfilavam na agremiação”.

Em 1994, chegou finalmente às ruas  Let’s Play That, gravado com Naná Vasconcelos em 1983, com a participação do clarinetista Roberto Guima, que morreu por afogamento meses depois. Matéria do jornal Folha de S. Paulo, de 12 de fevereiro de 1994, destacava as qualidades do álbum, recusado pelas gravadoras e lançado pelo selo alternativo Rock Company: “É surpreendente como o disco permanece atual, contemporâneo – os desavisados vão pensar que Macalé e Naná o gravaram há pouco. A liberdade, o descompromisso e o improviso da sessão certamente explicam. Boa música não envelhece”, defende o artigo.

Mais uma vez, dez anos depois de sua última aventura em estúdio, Jards Macalé voltou a apresentar um disco, chegando às lojas com O Que Eu Faço É Música, em 1998. O convite pintou de Wilson Souto, diretor artístico do selo Atração Fonográfica. Levando-se em conta a confecção de um álbum com canções de sua autoria, sua última aventura havia sido Contrastes (1977). Mas o retorno se deu em grande estilo: arranjos de Cristóvão Bastos, participações de Cristina Buarque, da Velha Guarda da Portela e da guitarra do amigo Lanny Gordin em canções de sua autoria revisitadas e novos trabalhos.

Em matéria do Jornal do Brasil, de 26 de abril de 1998, o jornalista Silvio Essinger apontava o repertório: “São várias as inéditas de Macalé em O Que Eu Faço É Música: ‘Coração do Brasil’ (esta, com participação da Velha Guarda da Portela e Cristina Buarque). ‘Mais uma Vez’ (parceria com Xico Chaves), ‘Terceira Vez’ (com Abel Silva). Comparecem também poemas inéditos musicados: ‘Dente no Dente’ e ‘Destino’ (de Torquato Neto, que considera ‘atemporais’) e ’Rei de Janeiro’, de Glauber Rocha. Quanto à sua menor participação como letrista, ele comenta: ‘Sou mais editor’ “.

Na virada do século, luz sobre sua obra

Nos anos 2000, parece que melhores ventos começaram a soprar sobre a obra de Macao. Na vida pessoal, no entanto, os tempos não eram tão positivos. No dia 6 de junho de 2000, o músico perdia um amigo e um de seus mestres, Moreira da Silva (1902-2000).

No ano seguinte, Jards resolveu homenagear o criador do samba de breque e lançou Jards Canta Moreira da Silva. Juntos, compuseram apenas uma música, “Tira os Óculos e Recolhe o Homem”, apesar da intensa convivência. A canção é baseada em um acontecimento real e marcante da trajetória de Macao: sua prisão, em 1978, em Vitória (ES), durante uma série de shows com Moreira para o Projeto Pixinguinha, promovido pela Funarte.

Na página da instituição é possível conferir um relato de Macalé a respeito do episódio, que teve início com uma provocação do músico durante a apresentação da dupla: “Macalé resolveu sair do roteiro do espetáculo previamente censurado para cantar uma marchinha de Carnaval que debochava do candidato à presidência da República, o mineiro Magalhães Pinto. A marcha ‘Casca de Ovo’ começa com os seguintes versos: ‘Será que esse pinto sobe / Será que esse pinto desce / Será que esse pinto murcha / Ou será que esse pinto cresce?’”, descreve o artigo.

Em matéria do jornal Estado de S. Paulo, datada de 18 de julho de 2001, de autoria não identificada, o trabalho tem boa aceitação: ”Quem ouve Macalé Canta Moreira sabe que o malandro realmente passou o chapéu para o ‘diabólico’ (já que maldito não lhe cabe mais, rótulo que se tornou datado perante a continuação da sua atitude e coerência de artista independente)”.

Em 2003, Jards apareceu com o álbum Amor, Ordem e Progresso, clara referência ao seu projeto de incluir a palavra “amor” na bandeira brasileira. No disco, o músico evoca “Positivismo”, de Noel Rosa e Orestes Barbosa, em que recita nos versos “o amor vem por princípio/ a ordem por base/ o progresso deve vir por fim”, uma das bases da teoria positivista de Augusto Comte. “Eu não entendi porque tiraram o amor por princípio… Agora eu quero ver o Congresso Nacional discutindo o amor. Isso eu não vou perder”, diz o músico, sarcástico, no documentário Jards Macalé – um Morcego na Porta Principal.

Em matéria do Caderno 3, do Diário do Nordeste, de 3 de setembro de 2003, Henrique Nunes destaca a obra: “Jards carregou seu violão e sua voz, na direção de um repertório intimista, que não contemplou nada de Waly, pois o álbum já estava pronto quando o parceiro morreu. Na verdade, Amor, Ordem e Progresso seria uma homenagem a outro gênio, Newton Mendonça. Mas o tempo foi outra vez impiedoso contra Jards: a cantora Cris Delanno se antecipou ao menestrel. A homenagem ficou restrita a ‘Foi a Noite’, parceria de Newton com Tom Jobim”.

Em 2005 viria a homenagem a Waly Salomão (1943-2003), com Real Grandeza – Parcerias com Waly Salomão, primeiro trabalho lançado pelo selo Biscoito Fino. O CD reuniu 11 composições de assinatura da dupla, entre elas clássicos como “Vapor Barato”, “Negra Melodia”, “Mal Secreto” e  ”Revendo Amigos”. Atualizando suas composições com elementos eletrônicos e outros quetais, o músico ainda contou com as participações de Adriana Calcanhoto, Marcelo H, Luiz Melodia, Maria Bethânia, Roberto Frejat, As Gatas e uma gravação com a voz do próprio Waly Salomão recitando “Olho de Lince”, que abre o disco.

O jornalista Mauro Ferreira, em artigo publicado em 11 de setembro de 2005, lamentou a falta de Gal Costa no rol de convidados: “Mas que faltou Gal (brigada com Macalé, por ter sido publicamente criticada por ele), isso faltou!! Afinal, nenhum disco centrado na poesia de Waly pode prescindir da presença da cantora que ele dirigiu em dois shows bem-sucedidos: o antológico Fa-Tal – Gal a Todo Vapor (marco da resistência cultural ao regime militar em 1971/72) e o impactante Plural, show de 1990 que livrou Gal do estigma de cantora de baladas bregas. Mais do que mero diretor da artista, Waly Salomão foi uma bússola que guiou Gal por mares certeiros numa carreira que várias vezes quase se perdeu no mar da banalidade imposta pela indústria fonográfica”.

Macao, apelido comum entre os amigos, foi o nome escolhido para o décimo álbum de estúdio de Macalé, lançado em 2008 também pela Biscoito Fino. O trabalho trouxe três canções inéditas (“O Engenho de Dentro”, “Se Você Quiser” e “Balada”) e releituras de sua obra.

Marcelo Costa, editor do blog Scream & Yell, apresentou no seu blog pessoal, Calmantes com Champagne 2.0, em 28 de outubro de 2008, resenha favorável ao disco: “É sintomático que Jards Macalé, Macao para os amigos, abra o décimo disco de sua carreira – de quase 40 anos de janela – com ‘Farinha do Desprezo’, parceria com Capinan circa 68/69 que abriu seu primeiro disco, homônimo, em 1973. Agora, mais ainda, os versos ‘já comi muito da farinha do desprezo / não, não me diga mais que é cedo / (…) Só vou comer agora da farinha do desejo’ soam fortes e emblemáticos. Para uma versão à altura da original (que conta com Lanny Gordin e Tutty Moreno), Macalé sobrepôs quatro violões rebeldes – todos tocados por ele mesmo – e concentrou-se em uma interpretação arrepiante”, destacou o jornalista.

Em 2011 veio o mais recente álbum de estúdio do artista, Jards, terceiro em parceria com a gravadora Biscoito Fino. O disco resgata alguns de seus clássicos e apresenta releituras de Nelson Cavaquinho e Elcio Medeiros (“Juízo Final”) e Silvio Rodriguez (“Unicórnio”). O processo de produção foi acompanhado de perto pelo cineasta Eryk Rocha, que lançou o documentário de mesmo nome (Jards) no ano seguinte.

“Personagem central de Jards, o quinto longa do cineasta Eryk Rocha, 34, Jards Macalé é um homem triste”, destaca o jornalista Marcus Preto em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 5 de setembro de 2012. “Cigarro entre os dedos, caminha calado por cenários que se repetem pela hora e meia de projeção: a casa em que vive só, as ruas do Rio, o estúdio de gravação, outra vez as ruas, de volta à casa”, diz o jornalista em relação à obra cinematográfica. Tristeza essa que é atribuída pelo diretor à então recente separação do músico de sua relação com Ana de Holanda: “Retrato desse estado de espírito, o clássico francês ‘Ne me Quitte Pas’ ganhou uma interpretação avassaladora do cantor – que acabou não incluída no respectivo álbum”.

Obra em andamento – vivo na rede

Em 2012, Macalé teve seu primeiro disco reeditado em vinil, fato que levou seu nome aos holofotes novamente. Em artigo do jornal O Globo, de 14 de agosto de 2012, o jornalista Leonardo Lichote aponta detalhes da gravação, realizada com o power trio Jards, Lanny Gordin e Tutty Moreno: “Pela intimidade musical criada na temporada subterrânea, o registro foi praticamente feito ao vivo, todos tocando juntos. Tutty tocou bateria, Macalé fez o violão de cordas de nylon, Lanny gravou o de cordas de aço e, depois, acrescentou o baixo. O resultado é uma sonoridade seca e orgânica — adequada à ácida combinação de romantismo, beleza e morbidez (a tal ‘morbeza romântica’, como Waly definiria mais tarde)”.

Reverenciado por nomes da cena alternativa na música brasileira, em 2013, Macalé foi homenageado com o álbum virtual E Volto pra Curtir, produzido e com curadoria de Márcio Bulk, do site Banda Desenhada. Na obra, o disco de estreia de Jards foi reinterpretado por 11 artistas da música independente brasileira. “Bem, alguns tinham afinidades claras, conheciam bastante a obra, caso do Metá Metá, Ava Rocha, Rafael Castro, Márcia Castro etc. Poucos questionaram as minhas escolhas. Na verdade só dois, mas prefiro omitir os nomes. No final, só houve uma troca”, conta Bulk.

Segundo Bulk, o disco virtual teve aproximadamente 10 mil downloads, levando a jovens de outras gerações a música de Macalé.

Jards Macalé continua com seu nome vivo pela internet, seja pela disponibilização de seus discos sem autorização, seja pela reverberação de seus lançamentos em blogs, jornais e sites de música. Fulano Sicrano – fundador do site Um que Tenha (hoje em dia fora do ar), que deixava disponível para download incontáveis e raros discos da música brasileira – chegou a ter em seu site todos os discos de Macalé. O pesquisador fala de suas preferências em relação à obra do artista: “Minha predileção vai para o disco de 1972, Jards Macalé, que traz as brilhantes ‘Farinha do Desprezo’ e ‘Movimento dos Barcos’, feitas em parceria com Capinam. Suingue, melancolia, blues e poesia se mesclam e resultam num disco memorável. A homenagem que faz a Moreira da Silva no disco Macalé Canta Moreira também me agrada muito, além do 4 Batutas & 1 Coringa”.

Para além de seu trabalho ao resgatar os clássicos da música brasileira, Fulano Sicrano defende que as músicas disponibilizadas para download ajudaram a manter a memória sobre a obra de Macalé viva para novas gerações. “Onde ouvir Ismael Silva, Geraldo Pereira, Moreira da Silva, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, alguns dos que tiveram as suas obras homenageadas por Macalé, se não com o apoio da internet? Estou certo de que várias reedições só tiveram sucesso de vendagem porque os artistas afastados da mídia tradicional foram de certa forma anteriormente divulgados pelos blogs musicais.”

Foi a partir do disco de estreia que Aristides Nascimento, DJ Tide, teve contato com a obra de Macalé. Ele fez uma versão para “Let’s Play That”, dando uma nova visão para a música de Macao e Torquato Neto. Acrescentou delays, baixos e baterias, deixando-a mais dançante, para a pista. “A estrutura rítmica é muito peculiar, cheia de contratempos, acabou sendo um grande desafio criar uma versão com influências mais eletrônicas, voltada pra pista de dança (que geralmente é mais dedicada à pulsação rítmica constante). É uma das músicas de que mais gosto do Jards, a letra é brilhante e a performance vocal dele vai de um extremo a outro, entre gritos e sussurros, agudos e graves… Como eu ia mexer com algo que pra mim é sagrado (a obra do Jards), decidi que tinha de ser bem difícil, tinha de ter sacrifício para valer a pena”, explica o DJ.

Samuel de Carvalho Hernandez é pesquisador e, por livre iniciativa, disponibilizou o álbum Aprender a Nadar no YouTube. Fã do disco e da obra de Macao como um todo, queria dar maior visibilidade também a esse trabalho do compositor: “Quando ouvi pela primeira vez o disco Aprender a Nadar me senti como se fosse a primeira vez que tivesse ouvido Jards. A poesia nua se relacionava com a música de maneira despretensiosa e muito corajosa. A sonoridade do disco era simplesmente incrível e senti uma imensa necessidade de compartilhar aquela sensação e de mostrar a todos aquela joia rara. Postei o vídeo no final de 2013 e em menos de seis meses depois o vídeo possui quase 10 mil visualizações. O meu objetivo em postar o vídeo era também facilitar o encontro do ouvinte com o disco”.

Quando entrevistou Jards Macalé para o site Gafieiras, em 2006, Dafne Sampaio confirmou suas expectativas em relação à pessoa do músico. “Essa entrevista com o Jards foi em 2006, oito anos atrás. Lembro que eu, pessoalmente, tinha uma expectativa grande. O Gafieiras existia há cinco anos e já tínhamos entrevistado várias figuras legais, alguns ídolos. Mas o Jards certamente era o maior até então (pra mim, pelo menos). Quem fez a costura pra entrevista foi um amigo em comum, o Zé Luiz Soares (do saudoso Villaggio Café). Acabamos marcando, não lembro o porquê, no ‘Cu do Padre’, o bar das batidas ali perto do Largo de Pinheiros. Foi uma manhã longa e divertida e a conversa foi tudo que eu esperava, sem frustrações. O jeito dele falar e de ser é o mesmo dele no palco, interpretando. Tem um jeito torto e bem-humorado de ver e interpretar a realidade”, relembra.

O jornalista Alexandre Eça possui o site Música Estática, no qual faz resenhas de shows que ele mesmo fotografa por aí. Vira e mexe Macalé está presente em sua página. Segundo o jornalista, o músico é um artista diferenciado: “Lembro que ainda garoto, na década de 1980, ouvia meu pai falar que o Macalé fazia música do futuro. E acho que é isso mesmo. Penso que não é à toa que ele  é tão reverenciado por gerações de músicos de brasileiros. A garotada anda ouvindo muito o Jards e isso é fácil de perceber olhando pro público que frequenta os seus shows. A anarquia rigorosa da sua obra – uma vigorosa mistura de técnica apurada e jorro criativo totalmente intuitivo – é um alento dentro de qualquer panorama musical do país, em qualquer tempo. Ouvir ‘Anjo Exterminado’, 40 anos depois do seu lançamento, como tocada pelo Macalé em 2014, com aquele violão joãogilbertiano-rock´n’roll  que subverte o comodismo conceitual da música brasileira, é ter certeza de que o tempo dele é o futuro.”

Marcelo Pinheiro, editor da revista Brasileiros, também sempre tem em seu radar o que Macalé fez e anda fazendo. O jornalista destaca que, além de ser um bom compositor, o músico sempre esteve cercado de bons letristas, músicos e artistas em geral. “Uma faceta inegável, representativa da qualidade dos parceiros artísticos que cercavam Macao, que remete a expediente tropicalista, é a modernidade das letras de suas canções. Escritas por poetas do calibre de Torquato Neto, Waly Salomão, Capinam e Duda Machado, elas versam sobre tema, até então, rarefeito em nosso cancioneiro popular: a barra-pesada enfrentada pela juventude brasileira do período, retratada com lirismo e serenidade exemplares, que capitulavam as temáticas pueris da jovem guarda para lidar com os dias nefastos vividos por Macalé e seus pares. Dias marcados pelas arbitrariedades do general Médici, então dotado dos superpoderes conferidos a ele com o AI-5.”

O jornalista complementa sua análise, destacando sua obra como uma produção que avançou na estética da música brasileira: “No decorrer dos anos 1970 e nas décadas seguintes, acompanhado de parceiros como Naná Vasconcelos, Moreira da Silva e Sérgio Sampaio, Macalé seguiu defendendo suas idiossincrasias e fez outros trabalhos memoráveis. Mas é inegável: os predicados que fizeram dele um dos artistas mais brilhantes de sua geração já estavam bem maturados desde a segunda metade dos anos 1960. Como fiel discípulo da cruzada modernista empreendida por João Gilberto, na virada da década anterior, Macalé também significou um passo à frente para a música popular brasileira”, finaliza.

O Itaú Cultural realiza a Ocupação Jards Macalé, em que mergulha na vida, na obra e no processo criativo do cantor e compositor. A exposição traz documentos, fotos, discos, vídeos, filmes ligados ao universo do artista, desde sua trajetória profissional à pessoal. A Ocupação fica em cartaz até o dia 6 de julho, na sede do Itaú Cultural.

SERVIÇO

Ocupação Jards Macalé
de 31 de maio 6 de julho

terça a sexta, das 9h às 20h (permanência até as 20h30)
sábados, domingos e feriados das 11h às 20h
piso térreo

Onde: Itaú Cultural (Avenida Paulista 149 – Estação Brigadeiro do Metrô)

 

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    Banda indie liberou na internet sua versão para “Bat Macumba”; single será lançado em vinil

  5. Do tropicalismo à sala de aula

    Ex-Os Brazões, Maestro Branco conta sua trajetória como trompetista e professor de música

  6. Três notas de Lurdez da Luz

    Entre as indicações da MC paulistana está o documentário Tropicália, sobre o movimento musical do fim dos anos 1960

  7. “Eu sempre fui um buscador”

    Em entrevista à Série +70, Walter Franco fala da vida e de sua criação artística

  8. Céu e Marcelo Camelo gravam versões para músicas de Caetano

    EP com a faixas “Eclipse Oculto” e “De Manhã' pode ser baixado no iTunes

  9. Laya lança primeiro álbum solo

    Cantora também no grupo O Jardim das Horas, ela apresenta um disco de essência tropicalista, nordestina e feminina

  10. Jiló Lóki

    Conheça o jiló com queijo de Dona Nelsinha, um dos pratos preferidos do ex-Mutante Arnaldo Baptista

  11. Sociedade e poesia

    Documentário sobre a vida de Waly Salomão (dir.) é uma das dicas de Leo Cavalcanti

  12. 25 anos, 25 vozes

    Livro "Cantadas", de Mauro Ferreira, analisa a obra cantoras entre os anos de 1987 e 2012

  13. Na esteira do tropicalismo

    Músico lança primeiro disco dando continuidade à estética criada pelos tropicalistas

  14. As vozes de Péricles

    Arrigo, Luisa Maita, Lurdez da Luz, Jeneci e outros cantam em novo álbum de Péricles Cavalcanti

  15. Arroz com feijão e ovo à Sacramento

    Comemorando 30 anos de carreira, Marcos Sacramento apresenta sua especialidade na cozinha

  16. A geografia de Pedro Osmar

    Um abraço na Índia, um concerto em Bangladesh e canções para um amor em SP

    1. “Benditos sejam os malditos! Gravou?”

      Jards Macalé conta sua história para a seção +70

    2. “Santo Amaro ê ê”, por dona Edith do Prato e Vozes da Purificação

      Com cantoras septuagenárias, intérprete baiana apresenta samba de roda tradicional

    3. Régis Duprat: “Rogério se transformou em uma bandeira”

      Apresentação dos programas de rádio da série Estéreo Saci dedicados ao maestro Rogério Duprat

    4. “Sempre quis desafiar os dogmas consolidados pelo tropicalismo!”

      Criado pelo baixista Munha, grupo de música instrumental mescla influências de Mahler, bossa nova e rock

      1. 100 anos de amores e desilusões

        Playlist homenageia Lupicínio Rodrigues em seu centenário de nascimento

      2. Jards 70

        Todas as faces do transgressor Jards Macalé, do rock e da tropicália ao samba de breque

      3. Manoel Barenbein: “Gravei a 1ª música do Chico”

        Produtor do álbum inaugural do tropicalismo revê sua carreira, pontuando-a com músicas marcantes

      4. Especial Rogério Duprat

        A história do maestro tropicalista que reinventou a estética da música popular nos anos 1960 e 1970

      5. De Caetano a Elomar

        Terceira edição do programa de Zuza tem jazz, choro e samba com muito bom humor

      6. Mutantes, Adoniran, Djavan e Rosa Passos

        Quarto Mergulho no Escuro tem samba, soul, balanço e bossa nova

      7. Playlist apressada

        Uma seleção de músicas brasileiras de curta duração. Com Walter Franco, Grupo Rumo, Edith do Prato e Gonzaguinha

      8. Sons do Corpo

        Músicas compostas exclusivamente para espetáculos da companhia mineira de dança. Por Tom Zé, Wisnik, Caetano e João Bosco

      9. Carmen Miranda

        Três episódios refazem o percurso da cantora brasileira de maior renome internacional. Por Arícia Mess

      10. Os malditos também sambam

        Abre-alas que Macalé, Itamar, Walter Franco, Mautner, Sérgio Sampaio e Tom Zé querem passar

      11. Versões, sample e inspirações do Ben

        A música de Jorge Ben cantada por Dominguinhos, Skank, Les Etoiles, Racionais MCs e Emilio Santiago

      12. Gil, o herege (versões originais)

        As inspirações do tropicalista Gilberto Gil: Dorival Caymmi, Jimi Hendrix, Luiz Gonzaga e Steve Winwood

      13. Odair José, proibido e popular

        Seleção reúne 13 sucessos dos anos 1970, como 'Vou Tirar Você Desse Lugar' e 'Pare de Tomar a Pílula'