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Desafios para as indústrias culturais: o século da mobilidade

Celular é a janela de acesso à cultura. Por Francisco Vacas

texto Francisco Vacas

O primeiro celular portátil lançado em 1973 pesava um quilo e sua bateria durava 20 minutos. À direita, Steve Jobs e uma de suas crias: o smartphone iPhone apresentado ao mercado em 2007.

A telefonia móvel já se tornou, por direito próprio, uma das principais referências socioculturais do tortuoso período compreendido entre o final do século XX e a primeira década do atual. O celular está presente na maior parte das atividades cotidianas que uma pessoa realiza em qualquer país do mundo, e a tendência é que sua presença aumente ainda mais, até se tornar praticamente uma espécie de “controle remoto das nossas vidas” (Rheingold, 2004), do qual ninguém quer se livrar voluntariamente.

Já vai ficando para trás sua inicial consideração como telefone de uso pessoal para altos executivos ou funcionários governamentais com os quais começou sua caminhada, há 30 anos, no Japão, e que, de forma determinante, marcaram seu sentido e uso durante seus primeiros anos de vida. Na atualidade, sete em cada dez habitantes de nosso planeta têm um celular (ITU, 2009), cifra que torna esse dispositivo mais popular do que qualquer outro criado pelo ser humano. Há mais celulares no mundo do que rádios, televisores, computadores e até cartões de crédito, dado este que, sem dúvida, altera a percepção que tínhamos a priori em nosso mundo (Ahonen, 2009).

A partir daqui, a questão principal consiste em como aproveitar as enormes possibilidades desses pequenos computadores de mão nos quais se transformaram os celulares, diante da perspectiva nada demagógica de que em menos de cinco anos se consiga a paradigmática cifra de um celular por pessoa.

Além disso, o celular é uma tecnologia disruptiva que não admite comparação analítica com as mídias anteriores, já que seus principais usos foram definidos pelos próprios usuários. Portanto, aproveitar seu potencial nos obriga a imaginar cenários inéditos, que assumam a diversidade socioeconômica e cultural que representa atualmente.

Mobile boom

A velocidade de adoção da telefonia móvel ao longo desta década só pode ser qualificada como inédita na história da comunicação, ao que é necessário acrescentar que suas pautas de difusão regional romperam a tendência centro-periferia de tecnologias precedentes.

No período compreendido entre 2000 e 2009, a penetração mundial do celular passou de 12% para 68%, ou seja, a média de crescimento anual foi superior a 50% nos últimos nove anos, o que torna o celular a tecnologia de mais rápida adoção na história das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) (Chetan Sharma, 2010).

Atualmente, mais de 4,6 bilhões de pessoas são usuárias de telefone celular em todo o mundo, sendo que uma em cada três está na Ásia. Pela primeira vez desde a metade do século XX, os Estados Unidos não lideram um mercado tecnológico, já que tanto a China quanto a Índia os superaram em número de usuários per capita.2 Ambas as potências asiáticas somam mais de 1,2 bilhão de usuários, o que significa aproximadamente 27% do total global. Por sua vez, o mercado norte-americano representa somente 7% (285 milhões).

Mais além das considerações sobre a dimensão econômica atual do mercado da mobilidade e da renda média por usuário (Arpu) das operadoras, o futuro desse vital mercado vai ser decidido por esses 93% de usuários, o que certamente inclui o tipo de oferta e os modelos de negócio tanto das operadoras quanto dos provedores de conteúdo. Essa composição do mercado influi no fato de que, por exemplo, uma empresa europeia, a Nokia, é a líder absoluta em vendas de celulares (38%), muito à frente das coreanas Samsung e LG, segunda e terceira, respectivamente, no ranking mundial de fabricantes. E talvez o mais significativo seja que a Motorola, empresa que popularizou o celular nos anos 1980, detém hoje menos de 4% do mercado mundial (IDC, 2010).

Desse modo, o mercado de celulares mostra uma liderança europeia que não se verifica em nenhum outro mercado tecnológico e que contribui também para que as operadoras do Velho Continente se tornem players globais, como demonstra o fato de que, entre as cinco primeiras operadoras com maior número de assinantes, três são europeias.3 Por sua vez, a extensa região latino-americana apresenta maior vigor no mercado de celulares do que nos demais mercados de TIC, já que a mexicana América Móvil é a quarta operadora mundial e o Brasil é o quinto país em número de usuários (Anatel, 2010).

Todos esses dados demonstram que a difusão mundial do celular não se parece nada com as ondas tecnológicas anteriores e que estamos enfrentando um cenário realmente multipolar, no qual os campeões globais asiáticos, europeus e latino-americanos podem definir, pela primeira vez, as tendências da tecnologia mais importante do século XXI. Mas, para que isso seja possível, é necessário que os conteúdos que trafegam pelas redes sem fio atuais e futuras representem parte da cultura de seus usuários majoritários. Isso é algo que o próprio celular, como tecnologia de uso pessoal, propicia e que as indústrias culturais locais devem inicialmente facilitar, adaptando seus padronizados conteúdos às pautas de consumo dessa nova mídia.

As indústrias culturais e o celular: janela ou túnel?

As indústrias culturais terminaram o século passado ocupadas demais tentando paliar o brutal impacto de ver seus conteúdos transformados em bits trafegando livremente pela internet. Essa atitude defensiva talvez não tenha permitido que eles imaginassem novos cenários para integrar seus tradicionais produtos às novas mídias. Para as mídias convencionais, a internet foi inicialmente uma rede a mais em que elas podiam repetir seu modelo de transmissão “de um para todos”, que tinha trazido excelentes resultados até aquele momento.

Mesmo previsto, o que aconteceu não deixa de ser desconcertante: em pouco mais de dez anos, o Google se tornou a primeira megamídia do século XXI, com um amplo domínio sobre mercados vitais para a mídia, como a propaganda. No entanto, o mais importante/preocupante é o enorme poder de influência que adquiriu sobre o que se lê, vê ou escuta graças à onipresença de seu buscador e seu famoso algoritmo de busca (pagerank).

Diante dessa nova mídia e sem suficientes referenciais do passado para entendê-la, as indústrias culturais não prestaram a devida atenção ao celular, apesar das espetaculares cifras que ele atingia em todos os mercados mundiais. As limitações tecnológicas das primeiras gerações dos sistemas celulares também não contribuíram o suficiente para tornar o celular um dispositivo atrativo para as indústrias culturais, já que nem o diâmetro das telas nem sua largura de banda permitiam ao menos entrever que aí poderia haver uma janela de exploração.

Essa percepção míope, porém compreensível, ignorava dois fatores cruciais que reconfiguraram completamente o consumo cultural contemporâneo. Por um lado, o setor da mobilidade se tornou uma poderosa máquina de inovação, que abrange operadoras de telecomunicações, fabricantes de equipamentos e desenvolvedores de aplicativos de software, impulsionados por uma demanda baseada em cifras astronômicas de uso e difusão, a qual não podiam deixar desatendida. Por outro lado, e obviamente não menos importante, a superior difusão do celular naqueles países onde as redes fixas eram ineficientes e/ou inexistentes significou uma mudança gravitacional, que por sua vez propiciou que, em pouco tempo, o celular se tornasse o principal meio de acesso à internet.

Com a maioria da população mundial com um celular nas mãos, redes celulares com uma largura de banda muito próxima à das redes telefônicas convencionais, novos dispositivos com poder de processamento equivalente ao dos computadores domésticos e novas telas mais legíveis por seu diâmetro e sua resolução, o celular se tornou uma nova mídia com formatos, conteúdos e pautas de consumo próprios. Em essência, uma nova janela de exploração ou “quarta janela” para as mídias convencionais (Igarza; Vacas; Vibes 2008).

A atual fotografia do mercado mundial de celulares lembra um pouco a da internet, já que, por enquanto, as antigas mídias de massa não conseguiram liderar a oferta de conteúdos e serviços e caminham para se tornar meros provedores de conteúdos. Esse fato é mais grave no mercado móvel, já que nele vemos movimentos de fabricantes e operadores de rede que se lançaram decididamente à oferta de conteúdos em portais próprios. É necessário acrescentar a isso a mobilização dos líderes da internet, como Google, Yahoo!, Facebook, Baidu e outros.

Apesar dessas previsões, ainda estamos em uma etapa do consumo de conteúdo no celular muito prematura para tirar conclusões definitivas sobre “quem vai ser quem” nesse mercado, já que a maioria dos usuários do mundo ainda não tem banda larga (seja por seu elevado preço, seja porque o operador não a oferece em sua região) nem telefones inteligentes de última geração (smartphones), com aplicativos e funções equiparáveis às dos computadores básicos.4

No entanto, nesta etapa de clara transição, as indústrias culturais não podem repetir a estratégia de esperar para ver o que acontece, já que a tendência mundial indica claramente que há uma nova geração de espectadores/leitores/ouvintes cuja primeira mídia é o celular. Não há nenhuma mídia que não possa ser integrada aocelular. Inclusive aqueles que inicialmente podem ter pensado que estão mais afastados, como a edição escrita (livros e imprensa), estão descobrindo novos nichos de leitores que os acessam por meio de telas de pouco mais de 7 centímetros.

As mídias, e em geral todas as indústrias culturais, têm de valorizar o fator contextual que o telefone traz no acesso a seus conteúdos, já que o onde e o quando são a nova referência para estabelecer a oferta. Não há conteúdos a priori pouco idôneos para o celular, mas sim boas e más estratégias de oferta conforme a situação atual de cada usuário. Se as grandes mídias deixarem passar essa oportunidade, certamente continuarão existindo, porém cada vez mais distantes do novo “capital social”, e progressivamente irá se esfumando seu antigo papel de referência cultural compartilhada.

Há diferenças, sim, porém menores do que nunca

Os dados mencionados sobre a difusão mundial do celular (70% da humanidade) poderiam nos custar muito esforço para avalizar as teses do determinismo tecnológico ou de alguma das tecnoutopias conhecidas. É impossível negar que nunca se havia chegado a tão alto grau de adoção de somente uma tecnologia em tão pouco tempo e, além disso, com esperanças fundadas de que essa tendência não pare. No entanto, o cenário atual e futuro das tecnologias da mobilidade é mais bem definido pelo paradoxo do que pela certeza.

Com alguma perspectiva, podemos ver que, realmente, nem todos os operadores de redes celulares oferecem os mesmos serviços por preços acessíveis em todas as regiões do planeta nem a maioria dos celulares nos países em desenvolvimento são computadores de mão que podem substituir os convencionais. Mas também é verdade que a mobilidade sem precedentes dos usuários pressiona os operadores a adotar sistemas melhorados e a reduzir suas tarifas, sob pena de que seus clientes migrem para redes alternativas frequentemente grátis.

Por outro lado, sabemos que o índice de renovação do celular é maior do que o de outras tecnologias anteriores, como o computador pessoal ou a televisão, de modo que os modelos mais básicos vão integrando maior potência de processamento e melhores telas e, talvez o mais importante, cada vez há mais aplicativos de software gratuitos que permitem utilizar o celular para algo mais do que falar e enviar mensagens.

De fato, as redes estão mais abertas do que nunca; porém, continuam sob o controle, quando necessário, dos governos e de muitas empresas que se colocam a seu serviço. Embora, como se viu em crises recentes, o controle total seja muito difícil, já que o celular permite a seus usuários gerar redes pessoais que escapam do controle externo. Também não devemos esquecer que diariamente aparecem novas formas de encriptação que, embora não sejam 100% invulneráveis, atrasam bastante sua leitura, requerendo, na maioria das vezes, um tempo precioso para difundir uma mensagem.

Definitivamente, a adoção de um celular como primeira tecnologia de comunicação pela maioria da população mundial é uma escolha racional, pouco ou nada baseada nos interesses corporativos das grandes empresas de telecomunicações e dos governos. As pessoas simplesmente viram no celular uma ferramenta que torna sua vida mais fácil, independentemente se moram em São Paulo ou na aldeia mais remota da Patagônia. A partir disso, transformar esse dispositivo em janela de acesso à cultura e em controle remoto, porém controlável, de nossas vidas é a (árdua) tarefa pendente.

# FRANCISCO VACAS é doutor em comunicação pela Universidade Complutense de Madri, onde se formou. Professor titular de economia da comunicação na Universidade Rey Juan Carlos, em Madri, e professor convidado de pós-graduação na Universidade Austral de Buenos Aires. É autor de publicações sobre mobilidade, entre as quais Teléfonos Móviles (Edições Copyright, 2007) e La Cuarta Pantalla (Ugerman, 2008). 

# Publicado originalmente na Revista Observatório Itaú Cultural / OIC – n. 9 (jan/abr 2010).

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