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Delicadeza em meio à brutalidade

Do teatro ao boxe, o paradoxo é o mote das dicas do autor teatral Michel Melamed

texto Itamar Dantas

O criador Michel Melamed e uma cena de Febre do Rato, filme de Cláudio Assis, com Nanda Costa e Irandhir Santos. Fotos: divulgação

Michel Melamed é ator, poeta, escritor, músico, diretor, autor teatral e apresentador de TV. E, em meio a esses inúmeros trabalhos, é ainda um assíduo frequentador de atividades culturais na cidade de São Paulo.

Em 2010, o artista lançou o disco Quase-Canção e atualmente está em cartaz no Sesc Santana, em São Paulo, até 19 de agosto, com a peça Adeus à Carne ou Go to Brazil, de sua autoria, em que convida o público para subverter um desfile de escola de samba, trazendo à tona problemas sociais brasileiros como corrupção, educação e violência.

Para a seção Tô Assobiando, o artista deu três dicas do mundo das artes e uma do lugar que ele frequenta para treinar boxe.

[ LUGAR ] Academia Combat Club – Bairro Santa Cecília, São Paulo, SP
Gosto muito do bairro Santa Cecília. E gosto em especial da academia Combat (Av. General Olímpio da Silveira, 400), que fica embaixo do viaduto do Minhocão [região central da cidade de São Paulo]. As pessoas de lá são extremamente educadas. O boxe é uma atividade física de contato que, apesar de ser tachada como violenta, tem um paradoxo ali entre a delicadeza e a brutalidade. Acho que esse lugar me veio à cabeça justamente pelo fato de eu estar trabalhando algo similar na minha peça: o Brasil é um país que exige dos brasileiros a necessidade de encontrar delicadeza em meio à brutalidade do dia a dia.

[ TEATRO ] Bom Retiro 958 Metros – Teatro da Vertigem (SP)
A peça Bom Retiro, do Teatro da Vertigem, dirigida por Antônio Araújo, tem muitas características interessantes, mas destaco o uso de espaços não tradicionais do teatro. O espaço da obra de arte é muito potente, em razão de sua diversidade de linguagem, de temática etc. Mas, ao mesmo tempo, ele parece um pouco confinado aos seus métiers. Então, quando um espetáculo é realizado no meio da rua, ele coloca o espectador no lugar de criador. Você começa a olhar tudo que está em sua volta de uma maneira criativa. Isso relembra a todos nós que os lugares estão pródigos de poesia, e podemos ou não dedicar um olhar que encontre isso. [ Em cartaz até 30 de setembro. ]

[ DISCO ] Resposta ao tempo – Nana Caymmi
Eu sempre ouvi muito a Nana Caymmi. E, outro dia, eu estava assistindo à série de TV Gabriela e uma cena me tocou muito. Um dos motivos primordiais era a música ["Flor da Noite", interpretada por Nana Caymmi, da trilha sonora da série]. Tem um disco dela em especial que eu gosto muito, Resposta ao Tempo. Adoro esse CD da Nana, sempre ouço. Ela tem um quê de tristeza enquanto expressão artística que me atrai.

[ FILME ] Febre do Rato – Cláudio Assis
O Cláudio Assis é um autor que eu acompanho desde o primeiro filme. Acho que talvez seja por essa palavra que utilizei para definir o trabalho dele: autor. Eu me interesso muito por autoria, assinatura, por visões. Ele é um artista muito interessante, muito potente. O personagem é um poeta um pouco mais velho. E, no momento em que ele arranja uma mocinha mais nova, é assassinado. Achei forte isso de você se sentir inadequado com o momento presente, de ter de se conectar com outros momentos que não compõem necessariamente o mundo em que você vive. E, quando você faz um esforço de conexão, pode ser ceifado.

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