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De pajé para curumim

Baterista e compositor Curumin entrevista Wilson das Neves, um dos ícones da percussão brasileira

texto Curumin    |   fotos Divulgação e André Seiti
Wilson das Neves e o LP O som quente é o das Neves, de 1969

O baterista e compositor Wilson das Neves clicado por Dan Behr e a capa de seu LP de 1969. Fotos: reprodução

Nascido na Glória, no Rio de Janeiro, bisneto de escravos e com 55 anos de trabalho como baterista, Wilson das Neves tem na carreira gravações com mais de 600 músicos do Brasil e do exterior. Prestes a lançar o terceiro trabalho solo, Para a Gente Fazer Mais um Samba, é definido pelo amigo Chico Buarque, com quem toca há 26 anos, como “o pulso da banda, termômetro, técnico do time, rei da anedota e pajé”, conforme escreveu o poeta no texto da contracapa do CD.

Colecionador de plantas, pai de quatro filhos, marido de Silvia, avô de quatro netos e bisavô de João, Wilson é também inspiração para bateristas e cantores da nova geração, a exemplo do paulistano Curumin, que, numa manhã de domingo, entrevistou aquele a quem tem como mestre, numa conversa embalada com café, pão fresco e muita gratidão - pois, como diz das Neves, “tenho tudo o que quero porque eu não quero nada”.

Sua carreira tem muita história. Como começou?
Desde menino sou do candomblé, sou candomblecista. O candomblé é a seita, a religião. Candomblecista é quem é iniciado nela. Sou bisneto de africanos, então tudo começou antes de eu nascer. O tambor me fascinava. Uma de minhas tias era do candomblé e fazia muita festa, uma jazz band tocava na casa dela.

Foi o Edgard Nunes Rocca quem o incentivou?
Quando conheci o Bituca, o Edgard, meu ídolo, já tinha 14 anos. Ele era baterista e foi quem me falou: “Você gosta de bateria? Então vai estudar!”. Comecei com 18 anos e me tornei profissional com a mesma idade. Ele me levou para a escola de música onde estudou, no Rio. Eu ia aos bailes com ele, ficava ao seu lado vendo como tocava, acompanhando na partitura. Aí ele saiu dessa orquestra [de Permínio Gonçalves] e entrei no lugar dele. Orquestra grande, com quatro trompetes, quatro trombones, eram as big bands, as jazz bands.

 Você iniciou sua formação acadêmica.
O Bituca me falou: “Tem de saber tocar direito, senão você vai ficar nessa de fazer bailinho”. Sabendo música, as possibilidades são maiores. Então toquei na Rádio Nacional, nas TVs Tupi, Excelsior, Continental e Globo e no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Antes de você, vieram Luciano Perrone, Edson Machado, Milton Banana…Todos esses músicos foram precursores do samba na bateria?
Não posso lhe falar porque quando cheguei isso já estava armado. O Luciano Perrone é, como Bituca me dizia, nosso mestre, nosso pai. Foi ele quem deu dignidade ao instrumento. Porque baterista até então não era músico. Uma orquestra era formada por 20 músicos e um baterista. E ele chegou e disse: “Eu sou músico, toco música”. Tornou-se meu amigo, gostava muito de mim. Tocamos juntos na mesma orquestra. Ele tocou com Radamés [Gnattali] e eu com Tom Jobim, num concerto no Rio de Janeiro, entre as décadas de 1970 e 1980.

Que outro músico o influenciou?
O Plínio Araújo, da Orquestra Tabajara, e o Godofredo [Guedes]. Esses chegaram um pouco antes de mim. O Luciano Perrone era de 1930, época da inauguração da Rádio Nacional.

E o Moacir Santos?
Foi meu professor de harmonia. Toquei com ele em bailes e na rádio, e gravei num disco dele, Coisas (1965). Imagine como fiquei ao ser convidado pelo meu professor para participar de um disco seu! Depois disso, quando gravava, sempre me chamava. Tenho a honra de termos convivido, batido muito papo, de eu ter escutado o que ele falava. Era o cara. Sabia das coisas.

Curumin por André Seiti

Curumin, baterista e compositor

Você falou que baterista não era considerado músico. Quando você percebeu que realmente era um?
Os próprios músicos se encarregavam de dizer: “Esse aqui é baterista”. Antes, baterista era considerado batedor de boi morto, porque a gente tirava a pele do bicho para fazer o instrumento. Não havia a industrialização. A quem sabia ler música eles diziam: “Esse aqui não é batedor de boi morto”. Nas orquestras não dava para tocar de orelhada, não. Tinha de saber música.

Você tocou em orquestra erudita, não é?
Toquei na Orquestra do Teatro Municipal [do Rio de Janeiro], fiz concurso e entrei. Mas não me pagavam direito, fiquei três meses sem receber e então saí.

Li que você saiu porque tinha mais interesse na música popular.
Não, foi porque não me pagavam mesmo. Não recebia um tostão nem podia trabalhar em outro lugar. Era ensaio de manhã e de noite.

Você já tocou com muita gente…
Comecei a gravar em 1958 e até hoje fiz parceria com mais de 600 artistas. Tenho catalogado o nome de todos. Entre eles, estão o filho do John Lennon, o Sean, Elizeth [Cardoso], Cyro Monteiro, Ataulfo Alves… Gravei com Pixinguinha, Jacob do Bandolim; trabalhei com Elis Regina, Wilson Simonal…

Gravou algum disco com Roberto Carlos?
O segundo disco, Splish Splash (1963). Depois, ele explodiu com Quero que Vá Tudo pro Inferno (1965) e fez sua banda. Antes, tocava com quem a gravadora oferecia e eu era contratado da gravadora.

Então você tocava rock-and-roll.
Tocava a música da época. Hoje tem esse negócio de baterista disso e daquilo. Naquele período, tinha de fazer de tudo, senão não se trabalhava. Antigamente era tudo surpresa. Eu ia gravar e não sabia com quem era nem o que era. Chegava ao local, havia uma big band e a ordem: “Vamos lá, vamos tocar essa música”. Não era como hoje. Antes, era assim: “Você pode gravar segunda, terça e quarta?”. “Posso.” “Então, tome nota do endereço.” Chegando lá é que o músico saberia com quem tocaria.

Sou apaixonado pela música feita nas décadas de 1950, 1960, 1970. É um período que considero muito especial na música mundial. As gravações eram bem diferentes, não eram?
Ah, eram! Quando comecei a gravar, existiam apenas dois canais. Um para a orquestra e outro para a voz.

Eram dois microfones que ficavam numa sala?
Não, havia vários. Para orquestra ou para conjunto, havia os microfones nos instrumentos. Mas os canais é que eram poucos. Logo depois lançaram quatro canais e, então, foram ampliando a coisa.

Isso muda muito o jeito de tocar?
Sempre toquei da mesma maneira. Se muda para outras pessoas, não sei. Tenho uma concepção de bateria diferente. Para mim, ela é um instrumento só, então tem de ter um microfone apenas. Não vários.

Quando você tocava com uma orquestra, tinha de fazer um pouquinho mais baixo, porque não existia esse negócio de monitoração…
Havia educação musical. Era necessário obedecer ao que estava escrito. Tudo era mais ou menos escrito. Não se tocava na base do improviso. Era mais fácil.

Você gravava muitas músicas em um único dia?
Gravava de manhã, de tarde e de noite, em várias gravadoras. Eu e outros músicos. Cheguei a gravar um LP por dia. Fazia as bases, depois se colocava a voz.

Hoje não se faz isso em menos de dois meses.
Mas é porque não se sabe o que quer. Quando você sabe, não fica inventando coisas, isso é insegurança. Desculpe-me, não sou dono da verdade. Mas quando a gente sabe o que quer não tem problema nem demora.

 Você trabalha há muito tempo com Chico Buarque…
Está fazendo 26 anos que trabalho com ele. O Chico não “é”. O Chico é “nós somos”. Divide tudo com a gente, não é estrela, não. Sabe tudo de harmonia. A gente só aprende. Ele está me devendo uma música. Dei uma melodia e ele não fez a letra. Mas escreveu na contracapa do meu disco.

Você gravou algo que julgue memorável?
Gravei várias coisas memoráveis, principalmente instrumentais. Antigamente se faziam discos instrumentais de orquestra. Hoje não se faz mais, tem de cantar. Gravei seis discos instrumentais. Bastou gravar um cantando e ganhei o Prêmio Sharp [em 1998]. Já viu isso? Fui cantar por acaso e ganhei um prêmio de Cantor Revelação. Já cantei em New Jersey, Chicago, Nova York, Paris, Lisboa, Madri. Se estivesse tocando, apenas acompanharia outros músicos.

Como é envelhecer na carreira, ou ter de se reinventar?
É maravilhoso. É progresso. Me dá esperança.

Como se faz para manter a chama acesa e continuar tocando, fazendo coisas novas?
Isso é da gente. Tem muita gente nova tocando, meninos bons, é bom ver, você sempre aprende alguma coisa. Ninguém faz igual a ninguém no mundo inteiro. Cada um tem a sua característica. Não se encontra um baterista tocando da mesma forma que o outro, principalmente samba. Eu nunca vi.

Você sempre diz algo como: “Não existe nenhum mito na música, nenhum monstro”.
Não existe o melhor, mas, sim, o melhor momento de cada um. Todo mundo é bom naquilo que se propõe a fazer. Já vi milhares de bateristas tocando e até hoje não sei quem é o melhor. O negócio é ouvir os outros para aprender aquilo que não se sabe e passar o que se sabe para a frente. Cada um tem seus melhores momentos, como eu tive os meus e espero que você tenha os seus.

Como você vê o momento da música atual?
Vejo as coisas acontecendo de forma muito igual, todo mundo fazendo a mesma coisa. Grava-se tudo do mesmo jeito. Tudo é cavaquinho, violão, surdo, repique de mão. Você não concorda?

Concordo. O samba tem um pouco disso. Há um lado de tradição, e as pessoas às vezes têm muito medo de mexer, de transformar. Mas há um pessoal querendo reeditar o samba da tradição, que é clássico, mas não têm história no samba.
Sim, pegaram o bonde andando.

E de onde vem o samba?
A origem é africana, do lundu, do jongo, do caxambu. O americano não inventou a bateria para tocar samba. O brasileiro é que a adaptou. O instrumento do samba era o pandeiro, o surdo, o tamborim. O baterista brasileiro, com sua versatilidade, com sua facilidade de criar, é que colocou o samba na bateria.

Cá entre nós, qual é o segredo da levada do samba?
É o coração. Professor nenhum ensina. Para mim, o samba é aqui, ó, no coração.

Seu coração vem do candomblé?
Você é aquilo que ouve. A pessoa tem de aprender escutando e vendo. Eu ouvia tambor de candomblé porque era obrigado, era questão de religião. Carrego minhas contas. Isso é a minha segurança, minha proteção. Fui criado assim e ai de mim se não fossem eles [os orixás]. Sou filho de Ossain, o dono da folha, e de Oxum. No sincretismo, Ossain é simbolizado por uma ave que vive no mato e foi encarregada de tomar conta das folhas. E o tambor é o que chama o orixá. Foi o primeiro instrumento de comunicação da humanidade, é algo sagrado. Por isso a bateria é um instrumento tão sério. Tenho tudo o que quero porque eu não quero nada. Agradeço aos meus orixás, e o que eu merecer eles me dão.

# CURUMIN é baterista e multi-instrumentista. Já acompanhou músicos como Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata e Céu. Tem dois CDs solo, Achados e Perdidos (2003) e JapanPopShow (2008).

# Publicado originalmente na Revista Continuum, edição janeiro/2010.

  1. MUITO BEM DITO MESTRE DAS NEVES.
    SOU SEU FÃ E SABE DISSO
    QUE BOM QUE ESTÁIS ATUANDO DE CANTOR PORQUE
    LEVASTES O SWING DO SAMBA PARA A VOZ

    | MILTINHO

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