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De Cachoeiro a Belenzinho

A dupla vida de Raul Nazário, cover do Rei Roberto Carlos

texto Tom Cardoso

É ele ou não é? Raul Nazário e os mesmos cabelos encaracolados de Roberto Carlos dos anos 1970. Foto: André Seiti/Itaú Cultural

# Publicado originalmente na Revista Continuum – Ed. Nov/Dez 2009

A fama de Nazário não é só a de melhor imitador de Roberto que há na praça. Dizem que apelido dado por ele “pega mais que gripe suína”. A fama é justa. Em poucos minutos de papo, por culpa do anfitrião, o repórter já era chamado por todos da padaria de “Dudu Braga” (o filho do Rei) e o fotógrafo de “Jackie Chan”, o popular comediante chinês.”Meu amigo de fé, meu irmão camarada!” Tomando uma cerveja na padaria em frente do seu apartamento no bairro do Belenzinho, zona leste de São Paulo, Raul Nazário abre os braços em direção ao repórter que acaba de chegar. O goiano de 51 anos, filho de pai pedreiro e mãe dona de casa, ex-hippie e ex-radialista, parece viver em estado permanente de alegria. Não é para menos: Nazário é, desde 2001, o cover mais popular do cantor mais popular do Brasil, Roberto Carlos. A profissão lhe garante de 15 a 20 shows por mês e o prato de comida para ele, a mulher (que se chama Nice, o mesmo nome da primeira mulher do astro), a filha e o cão pastor Steven Tyler (nome do vocalista da banda de rock Aerosmith), que não para de latir do minúsculo terraço do apartamento.

Além do tom de voz praticamente igual, “sou nasal por natureza física”, há outras semelhanças entre o RC original e o seu animado genérico. A pulseira de prata e a longa cabeleira, com cachos ondulados − e a indefectível pena pendurada na orelha esquerda −, lembram o Roberto Carlos dos anos 1970, faltando apenas o cachimbo. É assim, meio Roberto, meio Nazário, que ele toma cerveja na padaria, vai ao banco ou anda de metrô. A transformação em Roberto pra valer costuma ser bem mais trabalhosa.

Uma ajuda especial
“Dudu e Jackie Chan, venham comigo!” Nazário atravessa a rua em direção à sua casa, para alegria de Steven Tyler. O apartamento, simples e pequeno, mais parece a sede de um fã-clube de Roberto: pôsteres por todos os lados, discos e CDs do Rei e uma pilha de recortes de jornal − a TV de tela plana da família exibe cenas do filme Roberto Carlos a 300 Km por Hora, dirigido por Roberto Farias em 1972. Nada, porém, o deixa mais orgulhoso do que o pôster que toma praticamente todo um lado da parede, em que ele aparece abraçado ao homem que mudou para sempre a sua vida. Sim, o próprio: Roberto Carlos.

O encontro entre o Roberto de Cachoeiro de Itapemirim e o Roberto do Belenzinho ocorreu em 2007, no Navio Costa Fortuna, no momento em que o Rei cumpria mais uma bem-sucedida turnê por grandes cruzeiros. Nazário gastara boa parte de sua renda do mês na expectativa de um encontro com o ídolo. Não havia grandes esperanças. Na época, Roberto travava uma penosa batalha na justiça para retirar das livrarias sua biografia não autorizada, escrita pelo jornalista e historiador Paulo César Araújo. “O pessoal da produção, que costuma sempre ser mais estrela que a própria estrela, já tinha me avisado dentro do navio: ‘nem tente chegar perto do homem’.”

Por sorte, Nazário encontrou Dudu Braga, o “Segundinho”, nos corredores do Costa Fortuna. Conhecido pela humildade e simpatia, o filho do Rei reconheceu imediatamente o cover mais famoso de seu pai e garantiu: “Vou armar um encontro com o paizão, pode deixar”, conta Nazário. Ele esperou ansiosamente e nada de encontro. Dudu também havia sumido. “Na última noite, já conformado, alguém bateu na porta do meu quarto. Era o mesmo cara da produção que havia descartado o meu encontro no primeiro dia: ‘O Roberto está no camarim e quer conversar contigo’”.

Nazário partiu para o encontro da sua vida com o coração na boca. Não conseguiu nem formular uma frase de apresentação ao ídolo. Para vencer o medo e a timidez, resolveu entrar no camarim batendo palmas e cantando Parei na Contramão. Roberto adorou. Soltou uma gargalhada, elogiou o figurino de seu imitador e o convidou para uma sessão de fotos. “Só consegui dizer uma frase a ele: ‘Roberto, obrigado por existir. Sem você, eu não garantiria o feijão lá de casa’.”

“Vai o genérico mesmo!”
Nazário deixa o repórter e o fotógrafo na companhia de seu produtor, Isaias Cruz, e vai para o quarto se preparar para a grande transformação. Isaias conta que Nazário se tornou cover de Roberto por acaso. Havia chegado a São Paulo, vindo de Porto Alegre, para trabalhar numa rádio comunitária. A emissora acabou fechada pela polícia federal e Nazário, desempregado, com mulher e filha para sustentar, passou a procurar trabalho pelas ruas de São Paulo. Naquela tarde, no Metrô Tatuapé, o então repórter da TV Globo Britto Júnior promovia um concurso de covers e notou a semelhança física de Nazário com o Rei. “Ele cantou de improviso Todos Estão Surdos e os caras adoraram”, lembra Cruz. Vinte dias depois, Nazário já estava no Domingão do Faustão como “cover oficial de Roberto”.

Nazário volta à sala. Ou melhor, Roberto Carlos. De blazer e sapato brancos, camiseta azul por baixo e tom de pele do rosto mais claro (ele costuma passar um pó especial na face, para “disfarçar a morenice”), pega o microfone no estilo Roberto e emenda um pot-pourri de canções. Se não fosse pela postura ereta − ele, por respeito, não imita o jeito de mancar do ídolo −, poderia se jurar que Roberto Carlos, em carne e osso, baixara naquela tarde no Belenzinho.

As crianças costumam confundi-lo com o Rei. Outro dia, no metrô, Nazário ouviu uma menina dizer para a mãe: “Olha quem está sentado ali, mãe: o Roberto Carlos”. A mãe tratou logo de fazer a filha voltar à realidade: “Imagine, filha, o Roberto não anda de metrô. E, se entrasse em um, estaria com segurança”. “Mas olha ali, mãe, ele está com um segurança, sim!” Era Isaias, o produtor. Já os adultos nunca o confundem. “As pessoas que ligam aqui para a minha casa são sinceras: ‘Olha, Raul, já que não posso contratar o original, vai o genérico mesmo!’.” Em tempos de crise, o Roberto original que se cuide. Seu genérico irá fazer o terceiro show do ano nos Estados Unidos.

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