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Atenção, torcida brasileira: hoje é dia de clássico!

Vasco X Santos ou um sinfonia de Beethoven?

texto Heloisa Fischer

Dois clássicos: o maestro Heitor Villa-Lobos e o jogador Neymar. Fotos: reprodução

# Publicado originalmente no livro Rumos_Brasil da Música (2006)

Quando precisar definir o Brasil em poucas palavras, vá de “samba e futebol” e as chances de errar serão zero. Afinal de contas, o espírito do país ecoa em cada baticum de tamborim e as quatro linhas do gramado refletem mais a alma verde-amarela que baixela de prata em dia de festa. Mas, se o caso for definição com um quê de erudição, pode apostar de olhos fechados no sobrenome Villa-Lobos e o jogo também estará ganho.

Ahn? Villa-Lobos? Dado ou Heitor?

Por mais que a parceria criativa entre Renato Russo e o guitarrista Dado Villa-Lobos no grupo Legião Urbana tenha ofertado importante canal de identidade à juventude brasileira desde os anos 80, eu me refiro aqui ao Heitor, artista brilhante que morreu em 1959, compositor do “Trenzinho Caipira” e da série Bachianas Brasileiras, entre muitas outras obras grandiosas. Aquele mesmo que, no governo Vargas, promoveu o ensino do canto orfeônico nas escolas públicas e acabou virando personagem de cinema, vivido por Marcos Palmeira e Antônio Fagundes no filme de Zelito Viana. Ele que, em pleno 2005, lidera o ranking de brasileiros que mais arrecadam direitos autorais no exterior, léguas à frente de Tom Jobim ou Ary Barroso.

Parece estranho um músico erudito conseguir retratar de forma fiel a terra da batucada, mas estranhamento em reconhecer pertença cultural a partir dos clássicos não é exclusividade do Brasil. Pergunte a um norueguês o que melhor representa seu país e muito possivelmente os fiordes e o sol da meia-noite, ou mesmo o pop meloso do A-Ha, virão à lembrança antes das obras nacionalistas do erudito Edvard Grieg. Tanto na Europa como na América Latina, música clássica ocupa uma certa zona de sombra na cabeça das pessoas, mesmo as mais ativas culturalmente.

Se a incrível brasilidade na obra de Heitor Villa-Lobos pouco ou nada diz a você, se concerto e ópera não fazem parte do seu cardápio cultural ou, indo direto ao ponto, se na sua opinião música clássica é chata e pronto, bingo!, você faz parte do time para quem clássico está mais pra Vasco x Santos que para sinfonia de Beethoven. Mas, acredite ou não, uma tarde no Teatro Municipal pode ser tão repleta de emoções quanto o domingão na Vila Belmiro.

Aí chegamos a um ponto nevrálgico na reflexão sobre o papel que a música clássica pode desempenhar na vida de alguém. Me vêm à mente as palavras de Isaías, o profeta: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir”. Em plena sociedade da informação, música clássica tem poder de sedução? Os ouvintes se permitem ser seduzidos por ela? Se a partir de Elvis Presley música passou a ser comportamento, como fica o diálogo músico-ouvinte de clássicos quando conexões extramusicais praticamente inexistem nesse setor?

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Pulgas desse tipo habitam com freqüência minhas orelhas. Sempre penso em caminhos possíveis para a música de concerto se apresentar de forma mais sedutora ao disperso público da pós-modernidade. Até pouco tempo atrás, talvez eu fosse uma das poucas pessoas do circuito clássico que não se irritava quando um celular tocava ao som achatado da sonata Pour Elise, de Beethoven, ou da Pequena Serenata ao Luar, de Mozart. Sempre achei um bom indicativo de convivência amigável com uma nova mídia. Se os clássicos perderam o bonde do timing televisivo e radiofônico, o mesmo não se repetiria com a telefonia celular.

Tenho assistido à passagem dos toques monofônicos para os polifônicos e truetones com certo temor que aquela presença MIDI seja apenas uma doce lembrança do passado. Como o setor de clássicos se posicionará neste novo panorama em que ringtones foram absorvidos pela indústria fonográfica e chegaram às paradas da revista Billboard?

Lembre que estamos falando de um mercado conservador e lento, que passa por retração mundial de consumo, costuma ser tachado de difícil, voltado para pessoas de terceira idade e elitista.

Assim como outros países, o Brasil vive o cruel paradoxo de ter vasta produção, baixo consumo per capita (nos áureos tempos da indústria fonográfica brasileira, somente 4% da população comprava discos do segmento) e pouca visibilidade na mídia. A quantidade de informação que é produzida diariamente em todo o país e sequer chega ao conhecimento do grande público deixa qualquer calouro de comunicação de cabelo em pé. O Anuário VivaMúsica!, guia de negócios da música clássica brasileira que edito desde 1998, lista cerca de 2 mil organizações que fazem e acontecem em nosso país todos os dias do ano.

Mas a articulação entre os diversos setores da cadeia produtiva dos clássicos é rara e ainda inexiste um interlocutor setorial. Não é de espantar que governantes e patrocinadores — os principais agentes propulsores para uma guinada na percepção do setor — tenham pouca intimidade com o assunto e, conseqüentemente, ainda sejam escassas as políticas públicas e iniciativas privadas de fomento ou formação de platéias.

O cenário à primeira vista parece simplesmente desanimador, mas é muito rico ao surgimento e implantação de novas idéias, além de sinalizar que a hora de mudança é agora ou… agora.

Como apresentar o universo sonoro que carece de decodificação para ser melhor apreciado a um público bombardeado por apelos de consumo rápidos e imediatos? Talvez ainda demore para os clássicos encontrarem a melhor maneira de ganhar visibilidade na era do “acesso ao excesso”, tão típico da cultura digital. Se vai demorar pouco ou muito, ninguém sabe. Certo mesmo somente a necessidade de abrir novos caminhos. E eles estão bem diante de nossos olhos.

>> Heloísa Fischer: “Não existia um catálogo de quem fazia música clássica no Brasil”

Experiência ousada e bem-sucedida vem da Alemanha, onde o tradicional selo de discos Deustche Grammophon inventou uma maneira nova de introduzir repertório erudito para o público entre 18 e 35 anos. São as noites Yellow Lounge (o amarelo do título fica por conta da cor que caracteriza a logomarca da gravadora há mais de 100 anos), que acontecem regularmente desde fevereiro de 2001 em nightclubs, confirmando a validade do dito “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. Se jovens não vão a salas de concerto, os concertos vão aos jovens em seu habitat preferencial, no caso, clubes noturnos em cidades como Berlim e Hamburgo. Há sempre um DJ residente apresentando repertório clássico, projeções de imagens por conta de um VJ da moda, apresentações ao vivo de no máximo 30 minutos com artistas do circuito clássico e cerveja, muita cerveja. Organizei uma festa dessas no Rio de Janeiro em 2004 e posso garantir que a fórmula “Klassik im Klub” (música clássica em clube noturno) funciona bem enquanto espécie de Concertos para a Juventude do século XXI. O Yellow Lounge pode ser uma das ferramentas pós-modernas para estimular a formação de novas platéias em qualquer lugar do mundo.

Outra iniciativa a princípio óbvia, mas pouco ortodoxa, foi a da Orquestra Sinfônica de Atlanta que, ao lançar nos anos 90 um programa voltado para a mesma fatia de público visada pelos alemães da Deustche Grammophon, buscou parceria da MTV para a divulgação. Se a música clássica deseja atingir o público jovem, que tal trocar figurinhas com o canal de televisão que mais compreende a linguagem para se chegar a ele? Fico imaginando com alegria o dia em que o dirigente de uma orquestra brasileira sente para fazer negócios com o executivo da MTV, com o editor da revista Capricho ou com um artista do mundo pop que goste de clássicos.

Já pensou que público interessante atrairia uma série de música de câmara desenhada a quatro mãos entre o maestro Isaac Karabtchevsky e Ed Motta? E que tal uma noitada multimídia na deslumbrante Sala São Paulo, comandada pelo coletivo de artes plásticas Chelpa Ferro e o pianista Nelson Freire? Ou uma pocket ópera com direção cênica de Guel Arraes feita especialmente para a televisão?

Ainda que a música clássica possa e deva se valer de novos suportes para encurtar a distância que a separa de seu enorme público potencial, mídias tradicionais também podem oferecer resultados surpreendentes. Volta e meia penso na emissora carioca Opus 90 FM, no ar entre 1992 e 1994, e sua linguagem “leve” que atraía um público cativo de 100 mil ouvintes, desde musicófilos experts a motoristas estressados.

Cem mil? O número é esse?

Isso me lembra público de Maracanã em decisão de campeonato… Atenção torcida brasileira, hoje é dia de clássico!

# HELOÍSA FISCHER é jornalista e diretora do Anuário VivaMúsica!/RJ

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