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Afinados como as cordas da rabeca

A trajetória e a herança de Mestre Salustiano, um dos ícones da cultura pernambucana

texto Aline Feitosa    |   fotos Divulgação

Mestre Salustiano, ex-cortador de cana e defensor da cultura popular de PE. Foto: Casa da Rabeca do Brasil

# Publicado originalmente na Revista Continuum, edição dez 2008 / jan 2009

Até os 18 anos, a vida de Manoel Salustiano era em meio ao canavial. A pesada lida no plantio de cana-de-açúcar anunciava uma realidade duradoura ao lado de outros trabalhadores rurais da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Durante o dia, sol escaldante na cabeça. À noite, ele se recolhia ao seu quarto no engenho Cipuá, município de Aliança, e arranhava sua velha rabeca baixinho para não atrapalhar o sono de ninguém. Costumava contar que olhava para as estrelas e que elas mostravam o caminho que deveria trilhar. Seu sonho era chegar à cidade grande e, entre prédios e avenidas, mostrar que ali, de uma safra a outra da cana, havia obtido uma riqueza que o mundo ainda não conhecia. Sua pátria e seu rumo eram as brincadeiras do povo, os versos rasgados da ciranda, o ruído destoado da rabeca, as loas do maracatu, as figuras do cavalo-marinho, o universo do mamulengo. Era tudo o que tinha. Era nisso que acreditava. E foi com esse tudo que migrou por 86 quilômetros de estrada. Partiu para Olinda, cidade vizinha e irmã da capital pernambucana.

Tímido, analfabeto, foi trabalhar em casa de família, mesmo achando que era serviço para “cachorro de quintal”. Como de costume, à noite, pegava na velha rabeca. Certa vez, o filho do patrão, seu Alfredo Lopes, passou pela frente dos aposentos de Salustiano e foi correndo dizer ao pai: “Salu faz música!”. Seu Lopes tirou do baú um violino e o entregou ao rapaz. Instrumento erudito, fino demais aos olhos do matuto. Salustiano fez sua afinação e soltou uma toada de cavalo-marinho. O patrão disse: “No próximo fim de semana, você vai tocar no casamento de um parente meu”. Foi assim, dentro de uma igreja, “sob os olhos de Deus”, de camisa, calça, meia e sapatos emprestados, que Salustiano apresentou sua arte pela primeira vez ao público da capital, em 1964. Estavam abertas as primeiras portas para o homem que poucos anos depois tiraria as cores e as tradições do maracatu rural do anonimato e faria da figura do caboclo de lança símbolo da rica cultura pernambucana.

Essa história, já com quase meio século, é contada em cada detalhe pelos herdeiros de Salustiano, ou Mestre Salu, como ficou conhecido o ex-cortador de cana, ex-cachorro de quintal, ex-vendedor de picolé e ex-motorista. Não só essa. Mas todos os importantes trechos de vida do mestre foram relatados aos filhos, em contações diárias, como forma de afirmar a credibilidade que depositava na força da cultura do povo. “Pai queria passar para cada um de nós que a estrada que ele percorreu não foi lisa. Tinha muitos buracos. Não foi fácil chegar à fama”, diz Maciel Salu, o quarto filho da prole que soma 15. Sim, 15! E nascidos de dez mulheres diferentes. “Dei azar com as esposas, mas tive muita sorte com os filhos”, debochava o mestre, falecido em 31 de agosto deste ano (n.e. 2008), aos 62 anos. Ele costumava enumerar um a um, por ordem de chegada: Manoelzinho, Gilson, Betânia, Maciel, Eliane, Cristiano, Cleiton, Pedro, Betânia (são duas mesmo), Imaculada, Edilene, Wellington, Mariana, Simara e Beatriz - as últimas com 9 e 5 anos, respectivamente.

Brincadeiras levadas a sério
Dos 15, 12 filhos foram criados ao lado do pai. Não por obrigação, mas porque Salustiano queria a união da família. Também acreditava que tinha algo que as mães das crianças não tinham: cultura. Esses foram princípios para conseguir erguer um alicerce seguro na construção de seu reinado. Um reinado com rei e rainha de maracatu, lanceiros, corte e música de rabeca. Isso era o que desejava: ver a cultura do povo, feita em terras canavieiras, brotar e se sustentar no asfalto.

Por isso que, na educação de “seus meninos”, fazia o tipo “linha dura”. Brincadeiras de pião, pipa, cabra-cega e bola de gude eram terminantemente proibidas no clã Salustiano. “Papai queria que a gente visse diversão em bordar gola de caboclo, em fazer fantasia de cavalo-marinho. Serviço não faltava e ele não admitia que os filhos perdessem tempo na rua. O dia tinha que ser inteirinho dedicado à cultura. Nossa diversão era ao lado dele, no banco do cavalo-marinho, na brincadeira de maracatu”, lembra Imaculada, a Moca (“porque papai não sabia falar meu nome. Só me chamava de Imoculada”, conta ela, aos risos). “Hoje vemos que, apesar de ter sido muito rígido, ele estava certo, porque estamos aqui juntos, irmãos de verdade. Com os filhos de Salu unidos, o mestre não morre. Somos a continuidade do que ele plantou e os netos dele também estão aprendendo a lição.”

O cotidiano de Moca é bordar as roupas dos folgazões (como se nomeia o povo brincante da cultura popular) ao lado das irmãs Betânia e Mariana. Fazem a atividade porque gostam. Nas festas, dançam cavalo-marinho e maracatu. Como os demais filhos de Mestre Salu, têm uma profissão, “porque na família Salustiano ninguém fica sem trabalhar”. Betânia é cabeleireira e Moca agente de saúde. Mariana ainda estuda, o que o pai só teve oportunidade de fazer depois dos 20 anos, “para saber ler placas e não se perder”. Tinha o hábito de declarar em entrevistas que as letras lhe deram liberdade, inclusive para pegar um ônibus sem precisar perguntar o destino a ninguém. Para ele, apenas três anos na escola bastaram para incorporar o conhecimento da leitura e da escrita à sabedoria do viver.

Perceber os filhos alfabetizados era uma das diferenças de gerações de que Mestre Salu se orgulhava, sem tirar os olhos do futuro. Antes de falecer, deixou uma missão a eles, que repassem aos 23 netos seus ensinamentos. Garantem os filhos que estão todos inseridos na cultura e dela só saem depois de terminada a vida. Manoelzinho, por exemplo, o primogênito, faz questão de levar as filhas às reuniões da Associação de Maracatus de Baque Solto, fundada por seu pai em 1989 e hoje presidida por ele. Pedro Salustiano é o cabeça na administração dos negócios da família, mas não deixa de lado seus ensaios como bailarino junto ao grupo Grial, com aprendizado enraizado nos “terreiros das brincadeiras”. Cristiano e Wellington (o Dinda) acompanham os afazeres da família: ajudam na confecção de rabecas, desenhadas por Cleiton, ornamentam chapéus de caboclos de lança e também são muito bons de ritmo e de passos quando o assunto é festa.

Hoje, todos têm suas casas no sítio de mais de 3 hectares comprado pelo pai. São democraticamente vizinhos. O imenso terreno repleto de mangueiras e bananeiras fica na Cidade Tabajara, periferia de Olinda. Lá, eles administram a Casa da Rabeca do Brasil, espaço para shows com salão cheio todos os fins de semana. É também na Tabajara que está localizado o espaço Ilumiara Zumbi, onde em 1989 Mestre Salu iniciou os já tradicionais encontros de maracatus de baque solto - sempre nas segundas-feiras de Carnaval - e de cavalos-marinhos, todo dia 25 de dezembro. Se depender dos filhos e dos netos, as brincadeiras mantidas pela tradição oral estão garantidas por mais algumas décadas.

Na garupa, o menino Maciel

Maciel Salu, primogênito e um dos herdeiros de Mestre Salustiano. Foto: Wilson Dias/ABr

Maciel foi o primeiro dos filhos de Salustiano que viu a mãe abandonar o lar. Assim, não tinha outro jeito que não fosse montar na garupa do pai e acompanhá-lo para todo canto. Talvez, pelo trajeto de vida, seja o herdeiro com a maior proximidade do mestre, aos olhos de fora. Do lado de dentro, junto dos irmãos, comporta-se e se sente como qualquer um dos 15. Não é melhor por ser reconhecido como rabequeiro, ter fama e um dinheiro extra para reformar seu Corcel 1974, apelidado de Trovão Azul.

Maciel segue os passos de Mestre Salu, e por ele esbanja admiração. “Era um homem corajoso, inteligente e, acima de tudo, generoso”, aponta as qualidades do pai, que centralizava a missão de auxiliar parentes e amigos, mantendo todos à sua volta, dando-lhes pedaços de terra para construir casas em seu sítio, reforçando o mérito agregador da comunidade Salustiano.

Mesmo com “vida feita” na cidade grande, viajante assíduo para o exterior, quatro discos gravados, títulos conquistados e convidado a ocupar cargos públicos em gestões estaduais, Mestre Salu nunca deixou o interior e suas raízes. A estrada para os municípios de Aliança, Nazaré da Mata e Condado era caminho permanente, onde visitava os amigos e os levava à capital para mostrar sua arte. Certamente, um embaixador da Zona da Mata, inteligente o suficiente para intermediar mundos diferentes e capaz de projetar a gente da região canavieira e sua arte mundo afora.

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