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A velocidade da música em Roraima

Forró indígena, reggae amazônico e rock pontuam o panorama traçado em 2006 pelo poeta Eliakin Rufino

texto Eliakin Rufino

# Publicado originalmente no livro Rumos_Brasil da Música: Pensamentos & Reflexões (2006)

“O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido.”
(Zenão de Eléia)

A minha experiência de músico em Roraima me ensinou que aqui não se faz carreira artística, se faz caminhada artística. Ou seja, a velocidade é de jabuti. E como “devagar é que não se vai longe”, já aconselhava Chico Buarque, a música que nós produzimos no extremo norte do Brasil raras vezes tem conseguido cruzar a fronteira. Em Roraima até o rio corre lento. E nós vamos remando nossa canoa musical contra uma correnteza de dificuldades.

O etnólogo alemão Theodor Koch-Grunberg (1872-1924). Foto: reprodução

Quem trabalha com música em Roraima está abandonado à própria sorte. Não há Ordem dos Músicos, não há sindicatos, associações, clubes, nada. É cada um por si e — mesmo sem querer — contra todos. Não há tabela de preço, não há respeito. É uma profissão sem dignidade, principalmente para quem trabalha na noite com a chamada “MPB de barzinho”.

A ação cultural do poder público estadual e municipal ainda é a velha política de eventos — Carnaval, arraial, Natal. Muitas bandas e grupos, alguns cantores e compositores, são contratados anualmente para animar essas festas. Os promotores desses eventos, prefeituras e governo estadual, costumam atrasar o pagamento de cachês irrisórios durante meses e até durante anos. Só os artistas que vêm de fora recebem cachês altos e adiantados. Governo e prefeituras não formularam ainda uma política de promoção e preservação do fazer musical em Roraima.

A iniciativa privada, mesmo com uma participação pequena, é quem colabora para que a canoa musical de Roraima ganhe velocidade. Muitos empresários patrocinam shows de música e prensagem de CDs, tendo como contrapartida apenas o retorno publicitário. As leis de incentivo fiscal não funcionam. A lei estadual, embora regulamentada, ainda não saiu do papel, e a lei municipal nunca foi regulamentada.

E nós, os artistas da música, fazemos a nossa parte: não paramos de remar essa canoa. “Se a canoa não virar, eu chego lá”. Numa permanente piracema poética, nossa canoa musical sobe o rio. Uma grande remada foi o Movimento Cultural Roraimeira, que criamos aqui a partir de 1984. Roraima sempre teve uma grande crise de identidade e um grupo de artistas locais — eu, meu irmão Elieser Rufino, minha mulher Vânia Rufino, e os cantores e compositores Neuber Uchôa e Zeca Preto — resolveu produzir música, dança, poesia e artes plásticas incorporando influências e confluências na tentativa de ajudar a esboçar a nossa fisionomia cultural e construir uma estética regional baseada na pluralidade e na diversidade, inspirada nos modernistas e nos tropicalistas. A onda produzida pela pedra atirada em São Paulo em 1922 só chegou em Roraima em 1984. “É devagar, é devagar, devagarinho.”

Embora estejamos na era da velocidade, principalmente velocidade de informação e comunicação, Roraima continua distante e isolada do Brasil. Distante pela geografia e isolada pelo preconceito. Mesmo sendo uma região de riquíssima diversidade social e pluralidade cultural, a imagem que a maioria dos brasileiros tem de Roraima, divulgada pela mídia nacional, é de um mundo perdido, uma terra selvagem e exótica habitada por populações indígenas.

São os índios os primeiros a produzir e a gravar música em Roraima. No início do século XX, o pesquisador alemão Theodor Koch-Grümberg grava a música de algumas etnias, fotografa e desenha os instrumentos musicais. A música indígena ganha a velocidade dos cilindros de cera girando no fonógrafo e parar na Alemanha. Todo o material pesquisado encontra-se num museu em Berlim. Grümberg morreu em Roraima.

Yanomami, makuxi, wapixana, maiongong, taurepang, ingaricó, wai-wai, waimiri-atroari, entre outras etnias, fazem de Roraima um dos Estados brasileiros de maior população indígena até hoje, embora ela seja minoria em relação à população não índia. E os índios continuam produzindo música. No início de 2005 a novidade da música em Roraima é o “forró indígena”. Após anos de contato com o forró, que chegou em Roraima trazido pelo povo que veio do Nordeste brasileiro, os índios adotaram esse ritmo e agora produzem, nos pequenos estúdios de gravação em Boa Vista, CDs com composições próprias cuja temática principal é a questão da demarcação de suas terras. Entre os lançamentos mais recentes eu destaco o trabalho de Leonildo Simeão & Laudiceia e o CD coletivo Caxiri na Cuia.

Registro em disco do forró indígena de Roraima. Foto: reprodução

Mais da metade dos brasileiros residentes em Roraima é de nordestinos. Isso explica por que o forró continua sendo o ritmo-rei. É o forró que anima festas e bailes na maloca, na fazenda e na cidade. São dezenas de bandas de forró atuando na capital e, principalmente, no interior do Estado. Algumas dessas bandas já gravam e lançam CDs com composições próprias. A maioria delas, no entanto, apenas reproduz hits de forró que estão na moda. Por ser o ritmo majoritário, o forró tem espaço e horário garantido na programação de quase todas as emissoras de rádio.

A primeira emissora de rádio — a Difusora Roraima — foi inaugurada em 1957 e é a partir daí que a música roraimense ganha velocidade. Surgem os programas de auditório, aparecem músicos amadores e profissionais. Somente na década de 1970 surgiu a primeira FM. Hoje em Boa Vista há duas emissoras AM e três FM. Em todo o Estado de Roraima não há dez emissoras de rádio. A produção dos compositores locais de MPB não toca no rádio. Para suprir essa lacuna e ajudar na circulação, resolvemos criar um programa específico de música local a partir de 1987. De lá pra cá, o programa já mudou de rádio e de nome. Atualmente se chama Música da Amazônia e é apresentado diariamente na FM Monte Roraima por Vânia Rufino. Nós temos em nossa casa uma coleção com mais de 300 CDs de música popular de todos os Estados da região Norte. É o que alimenta o programa.

Depois do forró, quem ocupa o segundo lugar no ranking musical roraimense é o tal do rock and roll. São mais de 20 bandas de rock em suas diversas tendências. Há um encontro anual dessas bandas e algumas delas, principalmente a banda Garden que já faz shows em Manaus, animam a noite boavistense. Assim como as bandas de forró, poucas bandas têm composições próprias. Produzem pouco e reproduzem muito. Há apenas três registros do rock made in Roraima: o CD Bem-vindo Rock’nRoll, com apenas oito músicas, das bandas Garden, LN3, Atecubanos e Mercedes, os CDs com composições do roqueiro Ben Charles, pioneiro do gênero em Roraima, e o CD demo com cinco músicas que a banda Mercedes lançou no início de 2005.

Mesmo sendo o Estado brasileiro mais próximo da Jamaica e fazendo fronteira com a Venezuela e a Guiana, Roraima não ouve a música caribenha. Eu passei toda a minha infância e adolescência sintonizando emissoras de rádio venezuelanas e dezenas de emissoras do Caribe como a proibida Rádio Havana Cuba. O mesmo não se dá com a geração atual. Não há nenhum tipo de intercâmbio, radiofônico, real ou virtual. Raramente artistas caribenhos fazem show em Roraima. Não há nenhuma velocidade em busca de algum contato.

O reggae, por exemplo, tem em Roraima apenas dois representantes: a banda Gui-Bras, liderada pelo guianense Mark Edward, conhecido como Mike, e a banda Roraima Reggae criada por mim e por George Farias, cantor e compositor cearense residente em Roraima. Mike, da Gui-Bras, faz shows interpretando músicas de Bob Marley e já lançou um CD demo com algumas composições. George Farias já lançou dois CDs com composições próprias e produz reggae e MPB.

Quando George e eu criamos a Roraima Reggae, em 2003, nosso objetivo era popularizar em Roraima esse ritmo, que é um dos nossos preferidos embora não sejamos exclusivamente “regueiros”, e ao mesmo tempo produzir um reggae diferenciado do chamado reggae roots. Batizamos nosso reggae de reggae leaves e nosso show de Reggae da Floresta. Não é da raiz, é da folha: veio da Jamaica, mas vive na Amazônia. Além de diversas apresentações em Boa Vista, fizemos o show Reggae da Floresta em Manaus, Belém, Porto Velho. Com a minha saída, hoje a banda Roraima Reggae está sob a responsabilidade de George Farias.

É também reduzido o número de produtores de samba e de música instrumental. Com exceção das bandas militares e da banda municipal, há somente dois grupos produzindo música instrumental em Roraima: o grupo Os Carajazz, com formação e repertório eclético, e os músicos mineiros residentes em Boa Vista Pedro Link e Renato Costa, que fazem shows, acompanham outros artistas e lançaram em 1998 o CD Terra dos Ventos, com composições próprias. Alguns desses músicos são professores da Escola de Música de Roraima, única escola de música do Estado.

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A escola foi fundada em 1985 pelo governo estadual, mas até hoje não foi registrada e não pode dar certificados dos cursos que oferece. Mesmo assim a fila de matrícula é imensa a cada ano e os critérios de seleção são rigorosos. Porém, pouca gente aprende música ou sai tocando um instrumento musical. A escola sempre chega ao fim do ano com menos da metade dos alunos matriculados. Embora disponha de um auditório com mais de 300 lugares, não são oferecidos shows nem recitais. Há um recital anual dos estudantes feito para pais e professores. Os professores não recebem capacitação e aperfeiçoamento como deveriam e é grave a carência de pessoal especializado. Há alterações contínuas na direção, como resultado das mudanças políticas, e a escola pouco tem contribuído para o fortalecimento da expressão musical em Roraima.

Outros lugares onde se pode estudar música em Boa Vista são o Sesc e o Sesi. Essas entidades oferecem cursos livres de violão e teclado para crianças e adolescentes. E tem o trabalho anônimo, mas fundamental, dos mestres particulares. Esses que põem uma plaquinha na porta: “ensina-se violão” ou “ensina-se teclado”. A maioria desses professores é formada por músicos que trabalham na noite e encontram no ensino do instrumento uma atividade para o período diurno.

Creio que a velocidade maior da música em Roraima está no movimento de criação musical. Compomos numa velocidade muito maior do que podemos mostrar ou gravar. Eu mesmo só lancei meu primeiro CD, Amazônia Legal, aos 40 anos. A maioria das composições não está registrada nem em fita cassete. Estamos produzindo música em Roraima apenas pelo prazer, alegria e necessidade de compor e criar. Sem pensar no futuro. “Remando contra a corrente, só pra exercitar”. Se a educação musical é precária, se o ensino e o processo de gravação são lentos, se a circulação é lenta, se o rio é lento, não importa: a atividade de criação atinge a velocidade do som.

Envolvidos nesse trabalho criativo, além dos nomes citados, eu destaco os compositores e parceiros Armando de Paula, João Aroma e Sérgio Barros, nosso representante no Projeto Pixinguinha 2005. Outros cantores e compositores que já lançaram CDs e estão em atividade hoje em Roraima são Halisson Crystian e seu pai Ailton Cruz, Joemir Guimarães, Jataí D’Albuquerque, Paulo André e Márcio Alexandre. A participação feminina ainda é pequena, mas os principais nomes são as compositoras Lourdes Ferreira e Elienai Menezes, que já lançaram CDs, e as cantoras Chirley Reis, Vânia Rufino, Naira Paracat, entre outras, que têm faixas gravadas em CDs coletivos. Entre as mais jovens estão a cantora Sansara Buriti, minha filha, que gravou um CD com música infanto-juvenil aos 12 anos, a cantora negra Helena Fernandes e a grande revelação do momento, a intérprete Andressa Nascimento.

Como cantor e compositor, como poeta-letrista – tenho mais de uma dezena de parceiros em toda a região Norte — e como pensador, participei nos últimos 20 anos dos principais debates e movimentos culturais em Roraima e na Amazônia brasileira. Posso assegurar que há vida inteligente na floresta. Creio que já temos uma voz própria. Uma musicalidade nossa, particular e universal. Nós somos da mesma aldeia, estamos na mesma canoa. Remo com meu instrumento e não me canso de remar porque remo cantando. Um dia essa canoa ganhará novos rumos e a música de Roraima será ouvida em todo Brasil.

 

>> ELIAKIN RUFINO nasceu em Boa Vista (RR). É poeta, cantor, compositor, produtor cultural e professor. Um dos selecionados Rumos Itaú Cultural, tem quatro CDs solo: Amazônia Legal (1997), Me Toca(1998), Eliakin em Porto Alegre ao Vivo (2006) e Mestiço(2008). Sua música “Pimenta com Sal” foi gravada pela cantora paraense Gaby Amarantos.

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