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A música da minha terra

Um panorama histórico do samba: dos índios corumbás aos escravos baianos e fluminenses

texto Mariana Sgarioni

A Lapa, reduto do samba e da boemia carioca, retratada por Heitor dos Prazeres. Foto: reprodução

Perguntado, certa vez, como definiria o samba, Aniceto Menezes, o Aniceto do Império, pensou, pensou. Depois de muito refletir em busca de uma teoria para aquilo que simplesmente fazia parte da sua vida, disse: “Olha, o samba tem que ter hora para começar, mas não para acabar, já que os versos são livres, feitos na hora. E precisa do coro”. É isso e ponto final.

Samba é África, Caribe, Europa, que acabaram culminando em Brasil. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. Na contramão de seus padroeiros, como Aniceto, neste texto vamos tentar dar um começo e um meio à trajetória desse gênero musical que está longe de ter um fim.

Cantoria, batucadas e umbigadas

De onde veio essa música? A resposta mais comum é rápida: dos negros escravos africanos.

Sim, os negros trouxeram boa parte do ritmo e do batuque que hoje consideramos samba. Mas já existem pesquisadores mostrando que o gênero é bem mais antigo no Brasil do que a escravidão. Segundo o escritor Bernardo Alves, autor de Pré-História do Samba (edição do autor, 2002), esse som começou com os índios do Nordeste. “Para festejar a colheita, os corumbás levavam viola e dançavam o ‘semba’, como era chamado. Já os almocreves levavam especiarias para vender no litoral, e à noite, quando acabavam o trabalho, dançavam o ‘semba’. Existe uma gramática da língua cariri, de 1699, que fala do samba”, conta.

Ao fazer contato com os negros escravos de todo o Brasil (e não apenas da Bahia, como se imagina), o ritmo ganhou palmas, dança – a chamada umbigada, em que um passista vai para o meio da roda e requebra e outro lhe dá uma batida de umbigo -, atabaque, cuíca e gongo. Todo engenho que se prezasse tinha uma boa roda de samba.

Com a transferência, no meio do século XIX, da mão de obra escrava da Bahia para o Vale do Paraíba e, logo após, com a abolição da escravatura, os negros deslocaram-se em direção à capital do país, Rio de Janeiro.

Esses baianos migrados, já ex-escravos, consolidaram na então capital o que hoje reconhecemos como samba. Instalados em sua maioria na Cidade Nova, bairro central do Rio onde hoje se localiza o sambódromo, eles ali fundaram um gueto conhecido como Pequena África. Nas casas das chamadas tias baianas, as festas de umbigada corriam soltas. Ali foram incorporados outros gêneros musicais tocados na cidade, como a polca, o maxixe, o lundu e o xote. Foi assim que a receita ficou pronta e dessa mistura de temperos saiu o estilo carioca urbano e carnavalesco. Tanto que, em 1917, Donga (Ernesto dos Santos) gravou e assinou a música “Pelo Telefone”, considerada o marco do gênero, sobretudo no quesito autoria, já que até então tudo era criado coletivamente, sem assinatura. “Até hoje as coisas funcionam um pouco assim. Numa roda de partido-alto, um inventa um pedaço, outro completa, outro emenda”, lembra o sambista Monarco, da velha guarda da Portela.

Donga, autor do primeiro samba gravado. Foto: Reprodução

Além da música

Esse ritmo nunca ficou restrito às rodas e às cantorias. Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, dizem, brigavam por meio de seus sambas-canções. “Até hoje, quando se fala em samba, as pessoas pensam em festa, em encontros. O samba representa não só nossa música miscigenada, como também nossas aspirações ideológicas, nossa estética”, afirma o historiador André Diniz, autor de Almanaque do Samba (Zahar, 2006). Ele ressalta a intrínseca ligação da popularização do gênero com a política nacional. “Quando Getúlio Vargas assume o poder, em 1930, ele investe pesado na popularização da cultura e o samba era uma escolha do povo. Isso coincide ainda com a disseminação do rádio, que integrava o país a partir do Rio de Janeiro, a capital”, explica. Com o rádio, o ritmo caiu nas graças da classe média, ganhando compositores como o ex-estudante de medicina Noel Rosa e o ex-estudante de direito Ary Barroso. É o que se chama até hoje de samba de asfalto, em contraposição com o de morro, que deu origem às escolas.

Em contrapartida, o gênero ganhou também ares de glamour, elegância e fama internacional. Quando misturado ao jazz, formou-se a bossa nova, nos idos da década de 1950.

Um Brasil de sambas

Contando assim a história do samba, fica parecendo que se trata de um gênero somente carioca com uma genética baiana. Não é bem assim. Claro que a Bahia contava com o refinamento de Dorival Caymmi e o regionalismo de Batatinha, por exemplo. Mas São Paulo, injustamente tido como o “túmulo do samba”, sempre teve rodas de pareia, estilo dançado pelos escravos em dupla, além de ser o berço de Adoniran Barbosa, que retratava sua classe trabalhadora. O Rio Grande do Sul era de Lupicínio Rodrigues, que influenciado pelo bolero era um ícone sentimental. “A gente tem muitos sambas. Ele é a cara da miscigenação brasileira, é fruto das migrações internas”, diz Diniz.

O que aconteceu no Rio foi a consolidação do gênero que conhecemos hoje. Os negros da capital fluminense começaram a usar a percussão – uma vez que não tinham dinheiro para comprar o cavaquinho. E essa percussão fez um tremendo sucesso no rádio, seguido pelas escolas de samba.

No livro O Mistério do Samba (Zahar, 1995), o antropólogo e pesquisador musical Hermano Vianna mostra que os sambas folclóricos aconteciam em todo o país. Quem engrossa esse coro é a cantora e compositora gaúcha Elizah, madrinha da Copa Lord, a mais antiga escola de samba de Florianópolis. Formada por uma comunidade quilombola, a escola fica num lugar que foi habitado, em grande parte, por mulheres, ex-escravas alforriadas, lavadeiras que cantavam ladainhas durante o trabalho. “Santa Catarina não é um estado louro de olhos azuis. Muitos escravos vieram a Florianópolis e se mantiveram silenciosamente presentes. A maioria dos agricultores do interior é de caboclos, negros e índios, que fazem um samba de resistência”, diz ela. Por isso, brasileiro que se preze, venha de onde vier, deve pedir a bênção ao cantar um samba, como fazia Vinicius de Moraes. Porque, “se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração”.

 

# Publicado originalmente na Revista Continnum, edição janeiro/2010.

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