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A magia dos bares de Nova Orleans em São Paulo

A história da casa de shows que se tornou ícone de jazz, blues e soul no Brasil: a Bourbon Street Music Club

texto Cristiane Batista

Casa de shows inaugurada em 1993 já recebeu músicos como Ron Carter e B.B. King. Fotos: Roger Sassaki/Pedro Guida

Show time, Bourbon Street! Quem frequenta esse clube na região sul de São Paulo ou os festivais produzidos por ele está acostumado a ouvir o chamado de que a apresentação no palco irá começar. Na casa de shows paulistana, assim como na legítima Bourbon Street, a música não para.

Fio condutor de sua história, o som que faz o estilo de ser e viver da cidade norte-americana de Nova Orleans inspirou a casa muito antes da construção de seu QG, em Moema. O mariliense Luís Fernando Mascaro, um veterinário e baixista apaixonado por música, visitou pela primeira vez essa cidade no estado da Louisiana em 1987 e ficou obcecado pela ideia de recriar, em São Paulo, a atmosfera típica dos bares do French Quarter, seu bairro mais famoso.

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“Ele era visionário e entusiasta”, conta Edgard Radesca, cunhado de Mascaro, cofundador e sócio-proprietário do clube. “Passou por Nova Orleans, desbundou com tudo aquilo, fez amigos e voltou com a ideia de trazer os músicos maravilhosos de lá para cá.”

O “tudo aquilo” que impressionou o aspirante a músico são as características da cidade, carinhosamente chamada de Nola – ou Big Easy, por sua informalidade. Fundada em 1718 e colonizada por franceses, espanhóis e afro-americanos, é berço de ritmos como jazz, blues, soul, funk, rhythm and blues e zydeco, surgidos das comunidades de negros escravizados. Ganhou fama por seus festivais e suas festas, como o Mardi Gras, o Carnaval local. Ali, diz-se que as crianças ganham instrumentos musicais ao nascer e os tocam mesmo depois de morrer, já que até os funerais têm trilha de sopros com as brass bands.

Como no clássico de louvor “When the Saints Go Marching in”, eternizado pelo nativo Louis Armstrong (1901-1971), a música feita ali é, antes de tudo, um ato coletivo de resistência. Situada a 5 metros abaixo do nível do mar, entre o Rio Mississipi e o Lago Pontchartrain, Nova Orleans é uma região de pântano e mangue que foi devastada em diversas ocasiões. Pela febre amarela, por enchentes, tornados, incêndios e, mais recentemente, pelo furacão Katrina (2005), tragédia que fez com que sua população caísse de 400 mil para 85 mil pessoas – entre elas, 70% afro-americanos e pessoas de baixa renda. Esse espírito de entusiasmo, sempre superior às adversidades – o laissez les bons temps rouler (“deixemos o que é bom acontecer”) –, influenciou a história do Bourbon Street Music Club.

Do sonho de Mascaro à abertura da casa no número 127 da Rua dos Chanés, em Moema, foram inúmeros percalços: quatro anos de obras, a aventura de um festival de blues no interior de São Paulo realizado com pouquíssima experiência em produção e parca tecnologia, várias crises financeiras e muita ajuda dos amigos. Em 13 de dezembro de 1993, ninguém menos que o rei do blues, B.B. King (1925-2015), inaugurou o espaço.

Hoje, contrariando a maré das sempre difíceis fontes de patrocínio, o endereço é considerado pela revista norte-americana Downbeat “uma das melhores casas de jazz do mundo”. O local recebe apoio do New Orleans Convention and Visitors Bureau, instituição oficial de divulgação da cidade, e é considerado a segunda casa dos músicos de lá, que se referem a ela como “Nova Orleans fora de Nova Orleans”. O clube expandiu os limites físicos para produzir e promover eventos que reuniram até 160 mil pessoas – caso de Ray Charles (1930-2004) no Parque Ibirapuera em 1995.

23 anos de shows

Nesses quase 23 anos de atividades ininterruptas, passaram por seu palco cerca de 700 artistas. De shows intimistas e silenciosíssimos a catarses em coro e/ou dança, o público aplaudiu Nina Simone, Wynton Marsalis, Diana Krall, Ron Carter, Buena Vista Social Club, Koko Taylor, Pat Metheny, Bobby Mc Ferrin, Take 6, T.S. Monk, Dee Dee Bridgewater, Shirley Horn, Sharon Jones, John Pizzarelli, Dianne Schuur, Chucho Valdés, Cassandra Wilson, Jane Birkin, Cat Power, Incognito, Soulive, Joss Stone e a estreia de Esperanza Spalding no Brasil, entre muitas outras estrelas internacionais.

O cast nacional inclui bambas como Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos, Elza Soares, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Dominguinhos, Jorge Ben Jor, Nana, Dori e Dorival Caymmi, Jair Rodrigues, Bebel Gilberto, Raul de Souza, Sergio Mendes, Paulo Moura, Heraldo do Monte, Guinga, Dom Salvador, Baden Powell, Roberto Menescal e João Donato. Após recente passagem pela casa, Donato frisa: “É muito bom ter uma casa no Brasil como essa. Não tem outra igual. Eu me sinto como no Blue Note [referindo-se ao clube nova-iorquino]”.

Isso sem contar as participações especiais e aparições-surpresa de músicos como George Benson, Vernon Reid (Living Colour) e Ron Wood (Rolling Stones), que se empolgaram durante visita ao clube e fizeram jams para o deleite do público.

Artistas e frequentadores dizem que o clima faz blueseiros se sentirem no Mississippi ou em Chicago e dançarinos amadores e profissionais se esbaldarem como se estivessem nas pistas da disco e da soul music dos anos 1970. Amantes da música instrumental têm destino certo para marcar ponto, e novatos no zydeco se surpreendem com os solos e os grooves hipnóticos.

O Bourbon Street coleciona também uma série de momentos inesquecíveis e inusitados. Entre eles, Hermeto Pascoal fazendo música com uma piscina no palco; Alcione cantando em inglês, francês, italiano e espanhol e fazendo solos de trompete com a boca; a cantora franco-israelita Yael Naim apresentando-se à luz de velas num show totalmente acústico.

Em memória

Mascaro, o idealizador da casa, faleceu aos 49 anos, em 2000, em consequência de um câncer. Quando ele descobriu a doença, aos 35 anos, os médicos lhe deram pouco tempo de vida, mas o veterinário-baixista viveu por mais 14 anos. Inaugurou o Bourbon e realizou o sonho de gravar um disco. Seu retrato está no piano-bar, espaço no qual fazia jam sessions ao lado do baixo autografado pelos maiores nomes do instrumento que passaram por lá. Seu enterro foi conduzido por uma street band e a missa de sétimo dia foi acompanhada pelos timbres de uma cantora de soul.

As lembranças afetivas de Mascaro e sua equipe permanecem na memória e nas declarações de amor de gigantes da música que passaram pelo clube, que inclui uma galeria de autógrafos.

O Bourbon antes do Bourbon

Em uma madrugada de 1989, Radesca e Mascaro se tornaram sócios e passaram a imaginar como seria o clube que gostariam de abrir. Depois de muitos telefonemas e cartas, viajaram a Nova Orleans, onde conseguiram uma audiência com o secretário de Relações Internacionais da prefeitura da cidade. O objetivo era pedir dinheiro para montar a casa no Brasil. Embaixo do braço levaram o projeto desenhado a bico de pena em ocre e aquarela, com a planta do lugar em perspectiva, criada por Bernardo Kopfler (arquiteto e saxofonista da banda de Mascaro). No plano,  um lugar que reproduzia a cultura local, música, arquitetura, comida e bebida cajun e creole.

A estratégia rendeu um envelope com duas folhas de papel. Uma delas era uma carta de recomendação que dizia: “A quem possa interessar, estamos dando apoio a esse projeto”. Na outra havia uma lista de telefones e de pessoas importantes que poderiam ajudá-los: empresários, galeristas e jornalistas.

Não conseguiram dinheiro, mas uma injeção de ânimo: “Queremos que vocês entrem em Nova Orleans pela porta da frente”, disse o secretário. Os parceiros seguiram pelas ruas da cidade fotografando tudo o que viam. Eles registraram 1.500 imagens de fachadas, colunas, paredes de tijolos descascadas, terraços, pátios, escadas, balcões de bar, fontes, bancos, cadeiras, drinques e pratos típicos. Todas as fotos seriam usadas como referência posteriormente.

“A Bourbon Street era a rua mais legal de Nova Orleans, a mais conhecida, para onde migraram os cabarés, com música dos dois lados da calçada”, diz Radesca. “Tinha uma simbologia no nome, que era a mais importante: um lugar que capturasse o público e se destacasse em meio a todos os outros por sua qualidade, capaz de hipnotizar as pessoas. A gente queria trazer essa magia a São Paulo.” Sem experiência em entretenimento, Radesca trabalhava em consultoria de marketing e finanças e vendas. Dessas atividades, aproveitou o jogo de cintura para driblar as dificuldades do negócio que abraçou.

Mascaro, além de trabalhar no departamento de zoonoses da prefeitura de São Paulo, tocava com sua banda no Café Piu Piu, no Bexiga. E também era sócio da irmã, Elisa Mascaro, numa famosa boate gay, a Corintho. Com ela, viajava para Nova York e trazia meias brilhantes, cílios postiços e maiôs para os transformistas que se apresentavam em performances elogiadas pela imprensa e por seu público fiel.

Após a tripla jornada, voltava para casa de manhã, sorrindo, o que despertou o interesse do porteiro de seu prédio, o pernambucano Eraldo Santiago, conhecido como Bill: “Seu trabalho deve ser muito bom, rapaz. Sempre chega em casa com esse astral”, dizia ele. Mascaro o convidou para trabalhar na Corintho, onde ele aprendeu o ofício de barman.

Ainda em 1989, Mascaro e Radesca convidaram os amigos e parentes Clóvis de Cerqueira César e Edmilson Santilli para fortalecer a sociedade. Encontraram um ponto na Rua dos Chanés, em Moema, próximo à Corintho, e escalaram Bill para ajudar na reforma.

A obra começou com parte do dinheiro necessário. Um pouco vinha da Corintho, outro tanto do comércio de algumas cabeças de gado da família de Cerqueira César, as economias pessoais de todos. A ideia era começar a obra e depois conseguir o restante com colaboradores para concluí-la. Em fevereiro de 1990, eles foram surpreendidos pelo Plano Collor, que confiscou e congelou a retirada de parte do dinheiro do quarteto. “Possuíamos moeda escritural, na base do ‘devo não nego, pago quando puder’. Mesmo assim, seguimos a ordem de trabalho, emitindo promissórias. Só depois de um tempo a economia voltou a andar e conseguimos outros apoios”, lembra Radesca.

A “Caravana Holiday” do blues

Mesmo sem dinheiro, resolveram empreender, produzindo um festival de blues no interior de São Paulo. Com o faturamento, queriam investir na obra. “Nunca tínhamos feito um único show, mas resolvemos criar um festival com duas bandas de Nova Orleans passando por oito cidades”, conta Radesca. A ideia era que eles mesmo contratassem produtores locais, fizessem contato com rádios e jornais, cuidassem dos patrocínios e vendessem os ingressos.

Mascaro e Radesca voltaram a Nova Orleans em 1990, para o famoso New Orleans Jazz & Heritage Festival – evento no qual, desde então, é feita a contratação de artistas para apresentação no Bourbon –, e negociaram com Joan Duvalle Magee and Foundation Band e Bryan Lee and the Jumpstreet Five.

À época, o Free Jazz Festival já existia, com repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo. Faltavam opções no interior paulista. Naquele momento, o blues era um ritmo estourado. No ano anterior, havia sido realizado com êxito de público o Festival de Blues de Ribeirão Preto, com nomes como Buddy Guy, Etta James, Junior Wells, Albert Collins e Magic Slim, além de André Christovam e a banda Blues Etílicos.

Assim surgia a turnê Bourbon Street Blues. Contataram 114 empresas para patrocínio e conseguiram apoio da última, a Souza Cruz, com a bandeira de cigarros Free. “Não dá pra trocar por Free Blues?”, pediram os empresários. A dupla foi categórica: “Não! Precisamos fortalecer a nossa marca”.

Conseguiram apoio da American Airlines, que cedeu as passagens e é parceira do Bourbon até hoje, além da Coca-Cola, que ofereceu o palco. A arte do cartaz foi replicada em oito versões, para atender aos apoios locais de cada cidade, com fotos selecionadas e recortadas das atrações, imagens do público de Nova Orleans e uma guitarra como símbolo.

O escritório da pré-produção era a sala da casa de Radesca. De lá emitiram as passagens e a primeira parte do dinheiro para a banda Bryan Lee and the Jumpstreet Five, mas o valor acabou não chegando ao seu destino. Três dias antes do embarque, receberam um telefone do músico Bryan Lee: “Olha, Edgard, nós não vamos porque o nosso dinheiro não chegou. O Larry [Willians], líder da banda, está irredutível”. Radesca entrou em pânico, mas acalmou o músico garantindo que havia mandado a remessa e que iria resolver a situação. Foi então que lembrou de um primo que morava em Orlando e lhe pediu ajuda, financeira e logística, para que fosse até Nova Orleans despachar a banda.

Os músicos chegaram empolgados para a turnê, que passaria por Ribeirão Preto, Bauru, Marília, São José do Rio Preto, Campinas, Piracicaba, São José dos Campos e São Carlos. “Fizemos uma faixa e enrolamos no ônibus da banda: ‘Bourbon Blues Festival’”, descreve Radesca. “O Larry, que até então estava descrente, achou a produção de primeira classe.”

Começava a “Caravana Holiday” do blues. A equipe pegava a estrada em carreata, descansava em postos de gasolina, despertava com o sol no rosto e seguia à base de café açucarado. Dentro de um caminhão iam som, cenografia e todos os equipamentos de palco. Os músicos das duas bandas, com seus respectivos instrumentos, ocupavam um ônibus. Em carros próprios, a produção prestava apoio.

Palco, fundo de palco e P.A. (o sistema de caixas de som) eram montados e desmontados em cada cidade. Não havia telefone celular. Os compromissos tinham de ser combinados e cada um cumprir à risca os acordos, pois na estrada a única maneira de se comunicar era nos orelhões. Daqueles de ficha.

A estreia teve shows espetaculares, e público nem tanto. Com capacidade para receber 10 mil pessoas, o maior ginásio de Ribeirão Preto, o Cava do Bosque, foi ocupado por 2 mil. Em Bauru, os espetáculos começaram com atraso, porque a produtora e o técnico de som engataram um romance e demoraram a ser encontrados. Quando o staff chegou a Marília, achou que teria sucesso garantido (Mascaro era de lá), mas encontrou a cidade em clima de velório com a morte de um tio, figura popular na cidade.

A caravana seguiu até São Carlos, e a turnê se pagou. O balanço financeiro foi zero a zero. Não receberam o dinheiro esperado, mas ganharam experiência e fortaleceram os vínculos de amizade para trabalhar na conclusão da obra.

O “engenheiro Jaque” e a inauguração com B.B. King

A obra seguia sob os preceitos do “engenheiro Jaque”. “Pensávamos: ‘Ah, já que o bar terá a forma de um piano, vamos fazer também uma chopeira no formato de um sax. Já que vamos subir o mezanino, então temos também de construir outro banheiro’. E por aí vai…”, descreve Radesca, brincando com a combinação do “já que”, o tal “engenheiro Jaque”.

A dupla seguiu procurando patrocinador até receber a informação de que a General Motors havia lançado o Vectra em Nova Orleans e gostaria de fazer uma festa em São Paulo para promover o modelo como carro do ano. Era a deixa que faltava. O dinheiro que pagaria a ambientação da festa seria destinado ao arremate da reforma. A montadora pediu um show da blueseira Marva Wright (1948-2010). Era novembro de 1993.

Começou um bochicho em torno da abertura, e a festa da GM estava com o prazo apertado. “Na noite da festa, a casa parecia uma praça de guerra. Tinha poeira por todos os cantos. O caminhão cheio de entulho saiu no mesmo instante em que os jornalistas e os convidados começaram a chegar. Todo mundo da família, que fez um mutirão para botar tudo de pé, estava sujo e com as camisetas molhadas de suor. Ao final, todos nos olhamos emocionados. É quando as coisas maravilhosas acontecem, né?”, relembra Radesca.

E ele segue contando que, quando as pessoas entraram, viram a casa pronta, com música tocando e o bufê. Na hora do show, um telão projetou imagens de Nova Orleans com o vídeo institucional e a cantora surgiu, sincronicamente, ao vivo e triunfal. “Foi um estouro!”, conclui.

Foi apenas a primeira noite. Depois, era necessário montar uma agenda de atrações. Após tanto tempo de espera, Radesca e Mascaro queriam um artista bombástico para a inauguração oficial, em dezembro. Entre os cotados, B.B. King, Ray Charles, Aretha Franklin e Joe Cocker.

A internet era uma raridade. As informações eram repassadas no boca a boca. Depois de semanas, os sócios reuniram os contatos dos empresários e começaram a busca. A cada telefonema, um sonoro não. Radesca recorda a conversa com o escritório do empresário Sid Sardenberg que, para ele, foi o vai ou racha:

– Oi, aqui é do Bourbon Street Music Club, novo clube de São Paulo, no Brasil.

– B.B. King só faz show em estádios, casas maiores.

– Desculpe, não desligue, queremos comprar quatro datas.

– Isso é sério?!?

Por coincidência, King estaria na América Latina no mesmo período para uma turnê de um empresário chileno. O Brasil fazia parte do roteiro, mas ainda não haviam firmado contrato. O Bourbon precisou participar de um leilão para tentar trazer o Rei do Blues.

Os amigos colaboraram com uma vaquinha – que hoje se chama crowdfunding. Caso eles saíssem vitoriosos, cada participante ganharia uma cota de entradas e uma mesa para a apresentação. “De novo trabalhamos na rede social verbal e conseguimos um monte de gente querendo aderir para ajudar”, conta Radesca.

Os dois mandaram a proposta mesmo sem ter atingido o teto financeiro. Uma semana depois, receberam a resposta: haviam ganho a concorrência. B.B. King aterrissou em São Paulo para quatro dias de apresentações em dezembro de 1993. Na estreia, no dia 13, formou-se uma fila imensa na porta. As mulheres usavam vestidos de noite; e os homens, impecáveis paletós. A imprensa estava ouriçada para a cobertura.

Mascaro e Radesca sabiam que ainda faltavam detalhes no clube. Na entrada, as pessoas recebiam um cartão que dizia: “Seja bem-vindo ao Bourbon Street. A casa ainda não está pronta do jeito que gostaríamos que estivesse. Tínhamos duas opções: inaugurar assim, sem o B.B. King, ou como ela está, com o B.B. King. Optamos pela segunda e esperamos que você compartilhe e nos perdoe por qualquer falha”. Não houve reclamações.

Bill, o porteiro/barman/ajudante de obras, a essa altura preparava drinques como ninguém. Bill continua no bar-piano até hoje. “Tenho orgulho de ter ajudado a construir o Bourbon, cada tijolo tem uma história”, diz. Outros que continuam no clube desde a inauguração são o técnico de som Sergio Mota, também da extinta boate Corintho, e Juan Jose Perea, responsável pela carta de bebidas. Quando ele chegou ao Bourbon, três meses antes da abertura, ouviu de Mascaro a frase profética: “Você nunca mais vai sair daqui”. Perea, agora, terá a oportunidade de se aposentar, mas não avalia essa possibilidade.

Quanto a B.B. King, essa seria a primeira de cerca de 40 gigs que o bluesman faria com a produção da casa. Em todas elas, viajava em um ônibus coberto por adesivos com seu nome e o do Bourbon, dentro do qual havia uma cama king size no mezanino, confortável o suficiente para que o músico cumprisse sua agenda no país da maneira como mais gostava, on the road, parando para comer frango assado, sempre com o olhar perdido nos campos das cidades do interior. Talvez fosse uma maneira de ele se lembrar da época em que colhia algodão no Mississippi, em sua juventude.

Soube-se depois que B.B. King tomou conhecimento da história dos dois rapazes sonhadores que tinham feito uma vaquinha para trazê-lo ao Brasil e, simpático à causa, aceitou a proposta mesmo sem que eles tivessem feito a melhor sugestão financeira.

Uma guitarra Lucille assinada pelo artista está em exposição na entrada do Bourbon, dentro de uma redoma de vidro. No aniversário de dez anos do clube, outro exemplar do instrumento, também doado por King, foi leiloado em prol de uma instituição que cuida de pessoas com paralisia cerebral. Radesca acompanhou o funeral do amigo músico, em 2015, nos Estados Unidos.

A voz do “show time, Bourbon Street!”

Em 1991, quando a caravana do Bourbon Street Blues chegou a Ribeirão Preto, Herbert Lucas já era conhecido nos backstages e estava na cidade em turnê com o guitarrista de blues Andre Christovam. “Eu era cabeludo, tinha cara de doidão, mas trabalhava com produção desde os 16 anos”, conta.

Lucas é de uma época em que não existiam especificações para quem cuida do palco, da banda, do artista ou da turnê. O manager, ou empresário, era o responsável por tudo, sozinho. Nessa função, ele conduziu a carreira do guitarrista Andre Christovam e produziu o primeiro disco de blues do Brasil, lançado pela gravadora Eldorado – um sucesso na ocasião, com cerca de 30 mil cópias vendidas.

O paulistano conheceu Mascaro e Radesca e se tornou parceiro dos dois. Mais tarde, em 1995, realizou com eles a turnê de Ray Charles e o lendário show no Parque Ibirapuera. Também foi convidado para acompanhar Donald Kinsey, guitarrista responsável por imprimir a marca do blues rock de Chicago no famoso solo da canção “Johnny B Good”, de Peter Tosh: “Ele teve uma megaexplosão de pânico por abstinência de heroína, destruiu o quarto do hotel inteiro, tive de chamar um médico e também resolver as questões práticas”, conta.

Na turnê de Buddy Guy, mandou algumas fitas cassete para que o guitarrista ouvisse e escolhesse a banda de abertura. Entre todos os aspirantes, o artista optou pelo som de uns moleques que procuraram Lucas ainda em Ribeirão Preto, o hoje guitarrista Fred Sun Walk e sua banda, os The Dog Brothers.

Mascaro coordenava a programação, ao lado do produtor e baterista Azael Rodrigues. A cada mês havia uma atração de Nova Orleans, acompanhada de uma banda brasileira batizada de BandZydeco. O grupo, formado por Toninho Ferragutti (acordeão), Cassio Poletto (violino, guitarra e violão) e Caio Faro (vocais), fez, entre outras apresentações, a abertura do show de B.B. King. Ali era inaugurado o piano-bar, com o pianista Hildebrando Brasil tocando antes e nos intervalos das atrações.

“O Luís comprou o piano sem nem ter lugar onde colocá-lo. Era tão animado que empolgou a gente também. Aí montou a banda, tocávamos blues e zydeco, esse estilo tão interessante com a sanfona creole. Ensaiamos pela primeira vez na casa com ela ainda cheia de poeira. Recentemente toquei lá com a cantora italiana Mafalda Minozzi. Nós no centro e o público em volta acompanhando. Muito bom ter espaços como esse, com público atento e que tem o hábito de escutar a música. Dou valor à escola que não descola da realidade”, afirma o músico Toninho Ferragutti.

Herbert Lucas assumiu a direção artística do Bourbon Street no início de 1996. Com experiência no Brasil e também nos Estados Unidos, aproveitou-se da expertise para promover intersecções com a música negra, sempre de DNA dançante. “Em um bar, até um jazz-cabeça tem de ser executado de forma energética, para prender a atenção do público”, acredita.

No início, Lucas recrutava sua “mídia de guerrilha” para criar cartazes em formato de lambe-lambe. A colagem nas ruas era feita com ácido, maisena e água. A tropa chegava a distribuir milhares de panfletos – os hoje chamados flyers – para promover um único show.

O Bourbon expandiu as atividades como produtora e ganhou visibilidade ao promover shows gratuitos, ao ar livre, realizados em parques como Ibirapuera, Aclimação, Carmo e do Povo (mais de 130 apresentações). Também investiu na realização de espetáculos em casas com grande capacidade de público.

Esse trabalho de idealização, produção, acompanhamento, promoção e realização do show fideliza artistas como o guitarrista norte-americano John Pizzarelli, que se derreteu em elogios em sua mais recente turnê: “Herbie [referindo-se a Herbert Lucas], você é o melhor produtor/road manager que já tivemos. Se houvesse dez Bourbon Streets no mundo, com pessoas tão carinhosas e profissionais, seria tudo muito melhor. Criamos a melhor parceria possível nestes quase 20 anos. I love you all”.

Outros têm ainda seus talentos revelados, caso recente da banda Brasilidade Geral, formada por jovens capixabas que foram conectados a Hamilton de Holanda, Ivan Lins e Rosa Passos. “Tenho muito orgulho de saber que ajudei algumas pessoas a sair da toca”, afirma Lucas. Hoje, graças a Radesca, à sua mulher, Célia, a Lucas e a toda a sua leal equipe, a marca Bourbon Street realiza festivais em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Paraty, Ilhabela e Mangaratiba, além de turnês internacionais na Argentina, no Chile e no Uruguai.

“Nosso diferencial é não ter necessariamente grandes nomes populares. Apostamos no que fazemos”, explica Radesca. “Hoje, temos um grupo formado por funcionários, ex-funcionários, amigos e colaboradores chamado ‘Vi, ouvi, gostei’, no qual compartilhamos as boas experiências de todos e temos sempre novidades.”

Celebrando Nova Orleans na alegria e na tristeza

O Bourbon Street Fest nasceu em 2003 para comemorar os dez anos da casa. Inspirado no New Orleans Jazz & Heritage Festival, que apresenta shows em diversos palcos, dedicados a vários estilos musicais, o evento brasileiro chega, em 2016, à sua 14a edição.

O encontro anual promove uma semana de festa com sete atrações, representantes do panorama musical da cidade norte-americana. Os palcos são montados no próprio Bourbon – com direito a um brunch inspirado na gastronomia cajun e creole –, e há apresentações gratuitas no Parque Ibirapuera. Nas primeiras edições, elas também ocorriam na rua em frente à casa, que ficou pequena para tamanha multidão.

Em 2005, o clima foi diferente. Nova Orleans passava por sua mais recente e traumática tragédia, com a passagem do furacão Katrina, que destruiu parte da cidade e causou a morte de mais de 1.500 pessoas. Boa parte da população teve de abandonar o município. A catástrofe também expôs a deficiência do sistema de assistência social às vítimas.

Na ocasião, sete bandas estavam em São Paulo. “Foi um clima bem pesado. Enquanto celebrávamos Nova Orleans, a cidade estava sendo inundada. Os músicos choravam. Todos ficaram chocados, acompanhando a distância, pela TV, preocupados com suas famílias e casas. A gente fez o que pôde – se solidarizou, cuidou, alimentou, emprestou dinheiro”, diz Radesca.

“Havia um músico que chegou para o festival todo contente, dizendo que tinha conseguido construir uma casa e um estúdio”, descreve Lucas. “Ele ficou sabendo do desastre e viu, pela TV, a placa com o nome de sua rua caída. Foi quando percebeu que havia perdido tudo. Perdeu também a respiração e desmaiou por causa da forte emoção. Corremos para o hospital, ele retomou, mas passou horas sem conseguir falar com ninguém.”

Outro que perdeu tudo foi o trombonista Corey Henry. “Ele ficou sozinho, sem ninguém para recebê-lo, sem dinheiro, e conseguiu fazer contato só uma semana depois”, afirma Lucas. “Lembro-me daquele homem de 1,90 metro emocionado por eu tê-lo levado para comer um hambúrguer. Atualmente, ele toca com a banda Galactic, está superbem e sempre se lembra desse episódio.”

O Bourbon Street promoveu um show para ajudar os músicos de Nova Orleans. Radesca e Lucas continuam visitando a cidade e contratando suas atrações. No dia a dia, o grupo segue brindando a magia de seus bares com o drinque Hurricane, mistura de rum Oro, suco de limão, açúcar e um mix de frutas vindo diretamente de Nola; a Jambalaya, paella típica de lá, com camarão, frango e linguiça temperada à moda creole; e, nos festivais, distribui os clássicos beads, colares de bolinhas coloridas que, na cidade norte-americana, são dados a quem tiver a coragem de mostrar os seios, no caso das moças, ou o bumbum, para os rapazes. “Aqui não precisa fazer isso”, dizem Radesca e Lucas, em coro, sorrindo. Como escrito no exuberante backlight da casa: It’s New Orleans – You’re different here!.

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