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A história esquecida de José Prates

O músico que divulgou a cultura brasileira em mais de 90 países

texto Itamar Dantas

Detalhe de um cartaz do grupo Brasiliana, de 1955, desenhado pelo polonês Feliks Topolski. Arquivo: Gino Askanasy

“Quem é José Prates?” A pergunta abria a matéria sobre a primeira apresentação da companhia de dança Brasiliana em Belo Horizonte. Na publicação de 16 de abril de 1958 do jornal Diário de Minas, Theotônio Júnior prosseguia: “Poucos saberão responder a esta pergunta, no entanto, estamos diante de um dos mais talentosos e inteligentes compositores da música popular brasileira”. A reportagem trazia uma entrevista com o maestro José Prates (1928-2004), àquela época já aplaudido em mais de 30 países com suas composições que embalavam a companhia de dança Brasiliana. Passados 45 anos, a questão de Theotônio continua sem respostas. José Prates não está nas principais publicações brasileiras relacionadas à memória musical do país, mas seus discos são disputados por colecionadores graças à qualidade de sua música e a uma particularidade: a faixa “Nanã Imborô”, do álbum Tam… Tam… Tam…!, de 1958, guarda muitas semelhanças com a música “Mas que Nada”, de Jorge Ben Jor, lançada pela primeira vez no álbum Tudo Azul, de Zé Maria e seu Órgão, datado de 1962.

O primeiro a levantar o nome de José Prates na internet foi Ed Motta, músico e colecionador de discos, com mais de 30 mil títulos na estante. De passagem certa vez pela Tropicália Discos, loja da capital fluminense, os proprietários Bruno Alonso e Márcio Rocha lhe mostraram o achado: era o LP Tam… Tam… Tam…!. Em um de seus posts no Twitter, com o link para a música “Nega Zefinha”, Motta sentencia: “Brasiliana e José Prates, com o timbre incrível da voz de Nelson Ferraz”. Já em outro post, Motta fala da semelhança entre as criações de Prates e Jorge Ben Jor: “José Prates – Nanã Imborô: Very similar to Mas que Nada”.

O terceiro especial do Álbum foi pesquisar a história de José Prates. E, para contá-la, traz à tona também a trajetória das companhias de dança folclórica Brasiliana e Brasil Tropical, ambas com a parte musical regida por Prates. Nesse entremeio, uma história da divulgação da cultura afrobrasileira em mais de 90 países, entre os anos 1950 e 1980.

O músico José Prates. Foto: reprodução

Marco zero

Nascido em Recife, em 12 de fevereiro de 1928, José Prates se mudou para o Rio de Janeiro ainda criança. O interesse pela música aflorou de vez nas bandas militares da Marinha, em que foi recruta depois de terminar o, na época, ginásio. Filho mais velho, vivia com a mãe, Maria Izabel Prates da Silva Moura, e com os dois irmãos mais novos, Josias e Jonas, seus parceiros de aventuras na infância. Com José empunhando seu cavaquinho, Josias o seu pandeiro e Jonas o triângulo, eram frequentes as visitas de vizinhos para reclamar do barulho dos rapazes.

O Grupo dos Novos e a criação da Brasiliana

Enquanto José Prates ainda brincava, dançava frevo com os irmãos e aprontava pela vizinhança, desembarcava no Brasil, em julho de 1939, Miécio Askanasy, escritor e jornalista polonês fugido da Alemanha nazista. “Filhinho de papai bastante rico, eis-me de repente transformado num pobre emigrante sem eira nem beira. Da Europa nenhum dinheiro podia me ser enviado. Meu pai fugira para Nova York”, conta Miécio em seu livro Tudo É Samba, lançado somente na Alemanha, no qual narra os primeiros passos no país tropical e a criação da Brasiliana. Miécio se tornaria, mais tarde, figura fundamental na vida de José Prates.

Ao chegar ao Brasil, Miécio não tinha como se sustentar. Intelectual, gostava de escrever, mas no Brasil escrever era, segundo ele, “hobby da classe burguesa”. Sem alternativa, o imigrante pôs-se a redigir textos sobre religião, Nietzsche, a tradição de liberdade na América, entre outros assuntos. Depois, para levantar algum dinheiro, começou a vender livros de porta em porta. Conseguia livros de contatos na Europa e os revendia a outros inúmeros estrangeiros que chegavam ao Rio de Janeiro. E o negócio prosperou. Com a ajuda de um imigrante alemão, Miécio abriu uma pequena livraria no centro da cidade que batizou de Askanasy, seu sobrenome. Ali, além de vender livros, o agora empresário expunha pinturas de amigos. A livraria acabou se tornando a “primeira galeria de arte moderna do Brasil – a Galeria Askanasy! Que pulo!”, narra em seu livro.

No novo espaço, Miécio recebeu as exposições de Roger van Rogger, da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva e do pintor brasileiro Antônio Bandeira, e uma exposição com quadros vetados pelo II Reich (Império alemão existente entre 1871-1918 e conduzido pelo chanceler Otto von Bismarck), que reuniu obras de Kandinsky, aquarelas de Paul Klee, Pechstein, Segall, Schmidt-Rottluff e Beckmann, Rohlfs.

Miécio ia a casas de umbanda e tinha amigos da comunidade negra. Na época, um grupo de negros tomava o cenário cultural do Rio de Janeiro, indo da dança à poesia e ao teatro. O Teatro Experimental do Negro (TEN), de Abdias Nascimento, havia iniciado as atividades em 1944 e apresentava peças como O Imperador Jones, de O’Neil, e Calígula, de Camus. Mercedes Baptista foi a primeira bailarina negra do Teatro Municipal, entrando para o corpo de baile em 1958. (Mercedes, no final dos anos 1950, criaria ainda a sua própria companhia da dança, que se tornaria celeiro para a Brasiliana recrutar novos dançarinos e, mais tarde, em 1972, ela mesma assumiria a companhia.)

>> OUÇA A PLAYLIST “A MÚSICA E O BATUQUE DE JOSÉ PRATES”

Em uma visita para assistir ao TEN, Miécio conheceu Haroldo Costa, jovem ator de 18 anos de idade. Com alguns membros do TEN, Haroldo Costa e o diretor de teatro Wanderley Batista haviam criado o Grupo dos Novos, que iria promover atividades culturais e palestras. Miécio cedeu espaço em sua livraria para que se desenrolassem os ensaios. A proposta do grupo era fazer um espetáculo que refletisse a cultura negra brasileira por meio da dança. Começou com um grupo de dez pessoas. Aos poucos, somaram-se outros interessados na proposta. Entre meados de 1949 e janeiro de 1950, o grupo ensaiou diariamente na livraria.

Depois de bastante trabalho e algumas dissidências, configurava-se a partir dali a criação do Teatro Folclórico Brasileiro, dirigido por Haroldo Costa, Wanderley Baptista, Miécio e Dirceu Oliveira e Silva, advogado amigo em comum de todos. Nelson Lima, filho de José Prates e autor do livro Dança Afro e Brasilidade no Rio de Janeiro (Multifoco, 2012), conta que a seleção de novos dançarinos e músicos era feita pela cidade. “Os primeiros bailarinos e músicos do Teatro Folclórico Brasileiro foram recrutados por Haroldo Costa nas escolas de samba, nos terreiros de macumba, nos cabarés, nos morros e nos bairros populares da cidade.” Com a entrada de Miécio, Solano Trindade (poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta pernambucano, 1908-1974), que a princípio fazia parte do grupo que formava o Teatro Folclórico, se afastou por divergências ideológicas e criaria o Teatro Popular do Negro (TPB).

Um músico, José Prates

Certo dia, um simpático jovem entra na livraria com um cavaquinho embaixo do braço tocando uma música. Era José Prates mostrando uma de suas composições. “Fiquei sem saber o que dizer, não me pareceu nem bom nem mau. A melodia era clara, porém muito monótona. A letra bonita, feita, entretanto, de palavras muito banais”, narra Miécio em seu livro e prossegue: “Ordinário e comum era apenas o que José Prates tocava e cantava. Outra coisa era como o fazia… O olhar astuto e malicioso, a boca expressiva, a decisão e firmeza de sua execução, as mãos ágeis, nervosas e sutis, dedilhando as cordas do instrumento, a cabeça meio inclinada… Mas isso é um artista! – pensei comigo mesmo”.

José Prates foi convidado a entrar para o grupo. Começou como músico, passou a também dançar e, observando os coreógrafos, a coreografar. Mas seus maiores feitos se davam na música. No decorrer dos ensaios, aprimorou-se como compositor e instrumentista. “Certo dia, ei-lo a tocar piano, e nada mal! Uns dias mais, e Prates já lia música escrita. Nem mesmo nós – que estávamos sempre em sua companhia – sabíamos dizer como conseguira aprender tanta coisa”, garante Miécio.

O músico levou ao grupo seu irmão Jonas Prates, que se tornaria um dos melhores dançarinos de frevo da companhia. Já José apurava seu talento com a música, ao mesmo tempo que tomava os trabalhos como compositor e maestro do Teatro Folclórico. Os ensaios se seguiram entre o segundo semestre de 1949 e 25 de janeiro de 1950, quando a trupe fez sua estreia.

“A encenação do ‘Maracatu’, preparada por Solano Trindade, promete, entretanto, ser bacana! O ritmo e a melodia do ‘Maracatu’ são, por certo, conhecidos no Rio de Janeiro. Mas o pessoal daqui jamais viu esta espécie de Carnaval de Corte, tal como o dançam nas cidades do Norte. Penso que o público vai ficar encantado ao descobrir este tipo de arte popular de seu próprio país”, dizia Miécio em suas anotações dois meses antes da primeira apresentação.

A estreia se deu no Teatro Ginástico, no Rio de Janeiro. Como um presságio das plateias que acompanhariam a companhia até seus últimos dias, os turistas estrangeiros lotaram os teatros.

O espetáculo era composto inicialmente de quadros que traziam aspectos da história e do folclore da cultura negra: : “O Navio Negreiro”, “Samba”, “Festa do Coco”, “Macumba”, “Funerais de Rei Nagô”, “Frevo” e “Maracatu”. Na encenação da macumba era comum os dançarinos entrarem em transe no palco. “Toda noite eu temia que nosso quadro ‘Macumba’ degenerasse em catástrofe! [...] Corria logo um dos homens e amparava nos braços a garota que se debatia em convulsões, soltando gritos histéricos. O público achava que semelhante êxtase fazia parte de uma coreografia premeditada!”, conta Miécio. “Às vezes até membros da plateia entravam em transe com os dançarinos.”

As turnês

Depois de se apresentar no Rio de Janeiro, o grupo foi a São Paulo. Mariano Norsky, empresário, ficou entusiasmado e resolveu abraçar a ideia. Dali surgiu a proposta da primeira grande turnê da companhia, que por essa época passaria a se chamar Brasiliana por sugestão de Norsky. A trupe percorreu alguns estados brasileiros e seguiu pela América do Sul. Visitaram Uruguai, Chile, Equador, Peru, Colômbia e Venezuela. Mambembe, com muita gente envolvida e pouco dinheiro, a viagem foi sofrida. Sem a devida infraestrutura, na Colômbia um naufrágio os deixou sem teto e sem comida. Dias se passaram até o grupo conseguir se rearranjar e retomar a estrada.

Nas viagens os problemas eram vários. Em matéria do jornal Última Hora, de 21 de outubro de 1973, o jornalista Thor Carvalho falava do fim da Brasiliana, criticando a postura de pagamentos da companhia desde sua fundação. “Vivia o grupo graças ao espírito de sacrifício de seus componentes. Jamais foi um elenco profissional na acepção comercial do termo. Quando havia dinheiro, havia pagamento. Em contrário, defendia-se a hospedagem e olhe lá. O sr. Askanasy nunca foi o responsável pelos artistas e costumava dizer que, naquele gênero de teatro, todos tinham que se sujeitar ao que desse e viesse”, defende na matéria intitulada “A Brasiliana acabou quando estava acabada”.

À viagem pela América Latina seguiu-se a primeira turnê mundial e o grupo visitou Espanha, Itália, Suíça, Bélgica, Holanda, Portugal, França, Irlanda, Suécia, Finlândia, Noruega, Tunísia, Argélia, Marrocos, Alemanha, Inglaterra e a então Iugoslávia. Durante as temporadas, era comum integrantes do grupo abandonar a turnê para casar com pessoas dos países que visitavam.

Nasce um maestro: José Prates

Durante as viagens, Prates ampliava os seus conhecimentos musicais. Seu ouvido apurado impressionava tanto as plateias quanto os colegas. Em cada país, rapidamente o músico aprendia o novo idioma. Em seu livro, Miécio narra um episódio em que Prates foi posto à prova: “Prates nunca teve aulas de música. Mas o que não tinha aprendido através das lições teóricas sabia-o eximiamente por intuição e experiência. E tinha igualmente consciência de seu próprio valor. Certa feita, durante um ensaio de orquestra, dirigida na ocasião por um maestro belga, notou um desafinamento qualquer e chamou a atenção do ‘regisseur’. O belga não gostou e achou que podia fazer menos dos conhecimentos do colega de cor. Meu caro senhor – disse-lhe José Prates, num tom de calma e irônica modéstia – admito que, em teoria, eu entenda menos do que o distinto. Mas nisto aqui (e apontou para o ouvido) não há ninguém que me vença”.

José Prates não tem uma longa discografia. Seus trabalhos mais importantes datam dos anos 1950, em suas gravações com a Brasiliana. Dessa época, dois discos: Orquestra Brasiliana – Teatro Folclórico Brasileiro, de 1955 (Columbia), e Tam… Tam… Tam…!, de 1958 (Polygram). Ambos os álbuns são raros hoje em dia. O Tam… Tam… Tam…! foi redescoberto por Márcio e Bruno, donos da loja Tropicália Discos, no Rio de Janeiro.

Além da semelhança de “Nanã Imborô” com a música de Jorge Ben Jor, as características sonoras do disco impressionaram a dupla: a eruditização da música folclórica e a voz marcante e grave de Nelson Ferraz. “Você vê que o José Prates pegou elementos tradicionais, eruditizou aquilo. Uma coisa que chama atenção no disco é a coisa das madeiras. Você escuta bem os fagotes, os oboés… Você pega ritmos brasileiros negros, como a capoeira, o maracatu e os vários pontos de umbanda diferentes, mas com uma roupagem  brilhante”, defende Márcio.

A cantora, atriz e apresentadora paulistana Inezita Barroso, que na década de 1950 iniciava sua carreira artística, foi uma das responsáveis por alguns registros de músicas de Prates. Inezita já circulava bastante pelo meio da arte dramática – seu cunhado, Maurício Barroso, era um dos atores do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) – e vivia acompanhando peças e frequentando os mesmos locais de Prates. Ela relembra um dos encontros que teve com o “pernambucano sorridente e carismático”.  “Assistimos juntos, no Theatro Municipal, ao musical Carrossello Napoletano, uma seleção de danças e músicas das tradições italianas. Era uma produção estrangeira de perder o fôlego. Aliás, aquele espetáculo me marcou porque sempre o julguei extremamente inovador. Ficou na minha memória como uma inspiração para fazer algo parecido com as danças brasileiras. O José Prates, que também vinha de uma trajetória que juntava teatro e música, também ficou impressionado. E a partir desse primeiro encontro conversávamos sempre. Ele começou a me mostrar suas músicas: a maioria delas eram temas folclóricos muito bem adaptados e arranjados. Ele tinha grande capacidade para aprimorar esses temas. Em 1954, gravei nos estúdios da RCA Victor duas músicas dele para dois diferentes compactos: ‘Soca Pilão’ e ‘Pregão da Ostra’, ambos cantos de trabalho adaptados por ele. Aliás, o ‘Soca Pilão’ tem um tambor com uma batida africana que dificilmente se encontra hoje em dia. Também tinha uma amplitude grande e uma variação melódica sofisticadíssima. E ‘Pregão da Ostra’ fez um sucesso absurdo, talvez o maior que conheci dele.”

Inezita Barroso gravou em 1955 um outro 78 rotações com a música “Maracatu Elegante”, de autoria de José Prates. A composição seria mais uma vez registrada em seu disco Vamos Falar de Brasil, Novamente, de 1966, e integra também seu álbum Ronda, de 2005. “Coco Verde” foi outra canção de Prates que aparece em alguns dos discos de Inezita Barroso: Recital No. 2, de 1969; Inezita Barroso, de 1972; e a Série Colagem, com sucessos da carreira, de 1973. “Essa música também era dos espetáculos do grupo de Prates e Miécio, com bailarinos negros sensacionais. Lembro que ‘Coco Verde’ era cantada por uma negra que entrava com uma cesta de coco na cabeça. Era um musical maravilhoso!”, conta Inezita.

Outra composição de Prates está presente em mais um álbum brasileiro raro: Tribo Massáhi, Estrelando Embaixador (1972). O disco tem pegada afro, com batuques de umbanda e um groove apurado. Como registrado no próprio álbum, “a finalidade é mostrar a música jovem africana, com todas as suas nuances que caracterizam a música do continente negro”. Há ainda a música “Fareuá”, de Prates.

Pelo mundo

Ator Marcelo Mastroianni cai nas graças da dançarina Dalva Eirão. Arquivo Gino Askanasy

José Prates acompanhou a Brasiliana em suas grandes turnês pelo mundo: entre 1950 e 1955; 1956 e 1958; e 1958 e 1961. Na volta da terceira turnê, sem shows agendados, o grupo se desfez.

Prates partiu então para uma carreira solo que o levou a reformar as partituras de música brasileira do Teatro Olympia, em Paris. Lá, trabalhou ao lado da cantora britânica Petula Clark e do cantor e compositor belga Jacques Brel (1929-1978, autor do sucesso “Ne Me Quitte Pas”). Em 1967, a Brasiliana volta a excursionar pela Europa em outra grande turnê que se estenderia até 1973.

Nessa turnê, destacou-se o Concerto Anual Beneficente da Unicef, de 1967, realizado em Paris. O grupo dividiu a grade de programação com artistas de renome internacional como o ator Marlon Brando, que tocou música havaiana, The Beach Boys, Victor Borge e Ravi Shankar.

Os espetáculos nem sempre conquistavam a crítica, mas uma coisa era certa: sempre eram exaltadas a espontaneidade dos bailarinos e a beleza das dançarinas. Em 1967, durante a temporada da Brasiliana em Roma, até o galã italiano Marcello Mastroianni (1924-1996) caiu nas graças de Dalva Eirão, uma das vedetes da companhia. Uma foto de Mastroianni com a marca de batom da dançarina estampou o jornal Il Tempo, de junho de 1967, e também chegou às manchetes brasileiras.

Nelson Lima, filho de José Prates e autor do livro Dança Afro e Brasilidade no Rio de Janeiro, afirma que o Brasil Tropical, novo grupo inspirado na Brasiliana, surgiu mais ou menos nessa época na Bahia. “Em 1972, quando Askanasy passou o comando de Brasiliana para Mercedes Baptista, Prates trabalhava no recém-criado grupo baiano Brasil Tropical, o qual buscava repetir a fórmula de sucesso de Brasiliana com mais luxo e riqueza em cena, contudo, sem se constituir em novidade e sem a mesma qualidade dos bailarinos”, garante Nelson.

Nessa estada baiana, José Prates sofreu um acidente de carro. Teve o pulmão perfurado e precisou tirar parte do órgão. Depois de um longo período de recuperação, o músico voltaria para a estrada com a Brasil Tropical. Em 1974, foi lançado na Alemanha mais um disco dirigido pelo artista, agora com o nome da nova companhia: Brasil Tropical. Na capa, a inscrição: “Um show como café: quente, negro, doce”. No álbum, a orquestração de Prates dá continuidade às suas propostas musicais iniciadas nos discos da Brasiliana. Três anos depois, em 1977, o músico gravaria na Alemanha um álbum chamado Festa Brasileira, atuando como compositor e arranjador.


Austrália: o último capítulo

De volta ao Brasil, no início dos anos 1980, o músico trabalhou no Hotel Nikei, na região central de São Paulo. E também tocava na Plataforma, churrascaria com shows para estrangeiros localizada na Avenida Paulista. A condição financeira não era das melhores. José Prates foi morar com Jonas, que na época fazia figurações em programas de TV, como A Praça É Nossa, e tinha uma condição mais estável.

O músico já tinha passado dos 60 anos de idade quando a Plataforma fechou sua filial de São Paulo. Nessa época, ele viajou com a namorada para a Austrália, e por lá ficou. Chegando a Sidney, teve de recomeçar. A música ainda era o seu objetivo, mas seria difícil conseguir se firmar já com idade avançada e sem conhecer muita gente na área. Empregos convencionais também não eram opção. Ao mesmo tempo, a lambada estourava no Brasil. José Prates dançava bem e resolveu abrir uma escola de dança de salão para ensinar salsa e outros ritmos latinos. Tornou-se o pioneiro no ensino da dança latino-americana na Austrália.

Paralelamente à nova atividade, tentava desenrolar seus projetos como músico. Montou a Big Band Tropicana e promovia shows de música brasileira. Em 2000, com dez anos de estadia, foi o responsável pela parte musical de um evento em homenagem aos 500 anos do Descobrimento do Brasil. No mesmo ano, quando Sidney sediou a olimpíada, José Prates preparou um material de sua banda e o entregou aos organizadores para tocar em algum dos eventos oficiais na cidade australiana. E conseguiu. A Big Band Tropicana se apresentou em hotéis onde estavam hospedadas delegações internacionais.

Em 2003, José Prates soube que tinha câncer gástrico. Segundo os médicos, haveria poucas chances de recuperação a partir de quimioterapia. O músico optou por não fazer o tratamento. Continuou em suas atividades até onde pôde. Morreu em Sidney no dia 19 de dezembro de 2004, aos 76 anos de idade.

  1. Muito interessante, muito bem pesquisado, bem apresentado. Que tal disponibilizar os discos na internet?

    | joão carlos rodrigues
  2. Muitíssimo obrigada, preciosas informações.
    Fiquei curiosa e gostaria de obter detalhes sobre as referências..

    | Carola
    • Carola, envie um e-mail para itamardo@gmail.com. Verei em que posso ajudá-la.

      | album

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