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“A arte é um limite entre a marginalidade e a criminalidade”, diz Gaspar, do Z’África Brasil

Confira a entrevista que o rapper cedeu em 2008

texto Ricardo Tacioli

# Publicado originalmente em Zonas de Conflito, blog do seminário internacional Antídoto, realizado no Itaú Cultural em 2008 em parceria com o Grupo Cultural AfroReggae.

Criado em 1995 por Gaspar e Fernandinho Beatbox, o Z’África Brasil é um dos representantes do rap nacional com um dos discursos mais coerentes da praça. Mergulhadas no universo afro-brasileiro, as letras versam sobre preconceito racial, opressão e desigualdades sociais. “O que importa é a cor / E quem tem cor age / Tem coragem de mudar o rumo da história / Coragem para transformar cada dia em vitória / É o canto da sabedoria / É o ataque / Reage agora, reage / Tem cor age, capoeira de maloca / Do fundo do coração proliferam idéias/ Centuplicando o pão a cada passo de uma centopéia”, expõe em “Tem Cor Age”, faixa-título do álbum de 2006 cantada no palco do Itaú Cultural neste sábado e domingo (11 e 12 de outubro de 2008). “Os caras ficam com medo de ir ao Capão, a Campo Limpo, mas basta pegar o ônibus na Consolação, descer no fim da linha que você estará na quebrada! Agora, quem te impediu de ir lá? A barreira é mental. A gente canta esses mundos, essa diversidade de gente, de povo, mas do lado oprimido”, resume MC Gaspar, durante entrevista ao Blog Zonas de Conflito.

O MC Gaspar, do Z’África Brasil, cumprimenta uma senhora de 88 anos de idade durante show no Itaú Cultural/SP. Foto: Cia de Foto

O rap do grupo paulistano não se resume à herança norte-americana e jamaicana. Sintetiza batuques, música eletrônica e nordestina com o canto falado brasileiro, como a embolada. “Tudo tem a mesma origem. E posso usar as 80 modalidades (do canto falado) em meu trabalho em vez de ficar parado no quatro por quatro mal rimado”, provoca Gaspar que, em 2003, participou de um projeto com repentistas radicados em São Paulo.

Por essas e outras (como a atuação em movimentos sociais), o grupo se diferencia no cenário musical brasileiro e roda o mundo. Além de Gaspar e Fernandinho Beatbox, conta ainda com Pitchô, Funk Buia e DJ Tano. Tem dois discos de carreira (Antigamente Quilombos, Hoje Periferia, 2002, e Tem Cor Age, 2006) e o EP Verdade e Traumatismo (2007).

Abaixo, trechos da entrevista que Gaspar cedeu ao Blog Zonas de Conflito, encerrada com a declamação de “Caboclo Roceiro”, de Patativa do Assaré (…“De noite tu vives na tua palhoça / De dia na roça, de enxada na mão / Caboclo  roceiro, sem lar, sem abrigo / Tu és meu amigo, tu és meu irmão”).

Gaspar, como a música chegou em sua casa?
A música chegou em casa pelo meu pai, que toca sanfona. Desde que me conheço por gente ouço forró: Ari Lobo, Três do Nordeste, Trio Nordestino, Luiz Gonzaga, Dominguinhos. E crescendo no Campo Limpo, Capão Redondo e no Jardim Maria Sampaio é inevitável não ter acesso ao rap ou ao samba-de-raiz.

O Z’África Brasil é um grupo representativo do rap. E você lida com muitos ritmos musicais. O rótulo rap é limitante para entender o trabalho do grupo?
Eu odeio rótulos, tá ligado? Tenho até um som que diz “Tira o Rótulo”, mas o mais importante é a mensagem e o entendimento da arte que você está desenvolvendo. O nosso trabalho gira em torno da obra e não de uma opinião. E o Brasil sabe misturar as coisas – os ritmos que vêm de fora e os ritmos regionais. A gente começou a fazer isso com o rap, que até então era muito (calcado no) tradicional norte-americano. O Z’África veio com uma mistura brasileira, pegando as raízes jamaicanas, o bumbo e a caixa universais do rap norte-americano. O Funk Buia veio do samba; eu vim da embolada, do baião, do forró; o pai do Tano é de Pernambuco. O meu é do Rio Grande do Norte. O Pitchô é da Bahia. Somente o Buia não tem origem nordestina. A nordestinidade é um papel importante no trabalho do Z’África, junto com a africanidade, que todo o brasileiro tem. E a cultura hip-hop, com a música rap, fez aflorar isso dentro da gente para que a nossa música – o ritmo e as misturas – tivesse uma verdade no contexto social, que representasse uma comunidade. […] Como falo, todo brasileiro é afrodescendente, é afro-ascendente, assim como todo maloqueiro é o verdadeiro brasileiro, porque maloca é casa de índio, e quem nasce em maloca é maloqueiro. O Z’África conta essas histórias. Infelizmente, somos quase todos doentes, mas nem tudo se infectou.

E o que infecta, Gaspar?
O que infecta é o racismo, o preconceito, a discriminação. Uma pós-abolição que não teve reparação. Um país que comemora 200 anos da Corte, mas foi D. João VI que fugiu de Napoleão, enquanto aqui havia a Revolta dos Malês, Quilombo dos Palmares; várias revoluções que foram ocultadas na história e que estão sendo recontadas por meio do hip-hop, do movimento negro. E contar a verdadeira história dos caras que construíram este país. Aqui na Avenida Paulista qualquer prédio tem mão nordestina e africana. [ canta ] “Não tenha medo em dizer que tu é preto / Não tenha espanto em dizer que tu é branco / Não seja omisso em dizer que tu é índio / Nos tambores correm sangue nordestino / É brasileiro”. Do ponto de vista do multiculturalismo é lindo ver São Paulo, mas São Paulo está pouco se fudendo para entender sua mistura cultural e diversidade étnica. A última forma de escravidão no Brasil já não distingue tanto a cor da pele, mas o ser humano.

Qual é a utopia, então?
A utopia está se realizando… A Europa tentou fazer o que o Brasil fez em 500 anos. A tendência agora com essas novas tecnologias é as pessoas se misturarem mesmo. Faço parte de um movimento chamado Humanitude. “Indígena atitude, branquitude, negritude, mas para a plenitude precisamos mais de humanitude.” Entender a riqueza cultural e a diversidade étnica de cada um. Eu falo que se você me jogar na África, vou usar meu lado africano que o Brasil me deu. Se você me jogar na Europa, vou usar meu lado europeu. E qualquer afrodescendente do Brasil também fala português e não adianta negar sua ascendência europeia. O que eu faço? Não é ser camaleão, mas um cara que se adapta ao mundo. […] Sei das minhas riquezas. Em vez de discriminar e tirar isso de mim, que está na frente e só não vê quem não quer, trago para mim. Tudo quanto é riqueza indígena, eu trago para mim. Se a gente come mandioca e toma banho todo dia é por causa dos indígenas. Eu moro na estrada do Pirajussara-Valo Velho, não tem como não buscar minha “indigenatitude”.

O artista tem um papel em relação à sociedade?
Eu vejo a arte, não vejo o artista. Minha mãe sempre falava que eu era arteiro; então não me defino como artista. Sou um arteiro. O artista é quando chega num topo que não precisa alcançar e mudar mais nada. Continuo lutando, porque preciso mudar o meu redor… Na sociedade, os caras misturam marginalidade e criminalidade. Tenho orgulho de ser marginal, mas não sou criminal. Então, no limite da marginalidade e da criminalidade a arte é necessária porque é ela quem mantém o diálogo. É a única forma de’u poder estar aqui na Avenida Paulista, dentro do centro financeiro do Brasil podendo captar e conversar com pessoas que têm acesso aos caras da grana que podem ajudar nossos projetos. Em vez de chegar revoltado, vou dialogar. Então, a arte nos oferece e permite isso. Tenho uma poesia em que falo: “Venho do mocambo para fazer escambo / Quando os homens vêm, eu cambo / Eu volto para o quilombo / […] / Eu podia estar roubando / Mas estou criando / Criando harmonia por onde estou passando”. Poderíamos estar fazendo coisas piores, mas temos a arte, que é o limite entre a marginalidade e a criminalidade. E, graças a Deus, fui salvo não somente pelo hip-hop, mas pela arte. E o poder de diálogo que o Z’África tem pode contribuir muito para a quebrada. E a gente vem contribuindo. Estamos comemorando o oitavo aniversário da Ponte Preta do Jardim Leme – Taboão da Serra. Temos um projeto lá que se chama A Firma e fazemos a festa para as crianças no Campus do Jardim Leme todos os anos. E cada vez mais as expectativas e a responsabilidade aumentam. E é isso que é trabalho de comunidade, como faz o Ilê Aiyê e o AfroReggae. Você está lá dentro, dentro da problemática. Vamos falar de Paulo Freire? A gente trabalha com a problemática! Tenta-se resolver lá e depois trazer (os resultados) pra cá… É um grande escambo!

Gaspar, de onde vem seu conhecimento musical e de assuntos diversos?
Hoje a gente compõe, não rima somente. Se eu quiser rimar, faço um improviso, é mais fácil. Para escrever, a gente compõe. Dependendo do tema, leio dois, três livros, pesquiso na internet. Tem coisas que faço em 15 minutos com aquilo que pesquisei em um ano. No CD Tem Cor Age a última faixa é a “Rei do Cangaço”, em que fiquei seis meses fazendo a letra e pesquisando a história do cangaço. E se você for lá na Elemental, que é o nosso espaço, tem livros. A toda hora estou escambeando nos saraus da Cooperifa. O músico tem de estudar, pesquisar e buscar sempre novas coisas. O rap está muito óbvio! Então o Z’África busca o que não fizeram. Por isso que dá gosto misturar rap com embolada.

O rap pode se renovar?
Sempre. O rap tradicional se perdeu no jamaicano e no norte-americano. Não se olha para o nosso canto falado, e é isso que eu digo, que há muita coisa para evoluir, porque quando se mistura com o nosso, fica louco. “E quem foi que falou que repente e embolada não é rap? Na certa estava enganado, ele é rap sim senhor”. Isso é que dá gosto. E você vai quebrando preconceitos.

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