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A Arca de Noé

Último trabalho de Vinicius de Moraes, disco infantil se tornou um dos mais importantes da música popular brasileira pós-1980

texto Itamar Dantas e Ricardo Tacioli

Alexandre Rampazo reconstrói a arca salvadora de Noé e Vinicius. Foto: A. Rampazo/Álbum Itaú Cultural

>> Publicado originalmente em outubro de 2012

No mês do 99o aniversário de nascimento de Vinicius de Moraes, o Álbum apresenta seu primeiro dossiê, que investiga o projeto A Arca de Noé, a última produção do letrista de “Garota de Ipanema” e “Chega de Saudade”. Lançados em 1980 e 1981, os dois discos do projeto são, ao lado da obra de João de Barro e do primo Os Saltimbancos (1977), fundamentais para a consolidação do  mercado fonográfico e televisivo dedicado às crianças.

Mesmo com essas medalhas, os discos ainda não têm o merecido reconhecimento. Prova disso é a dificuldade de encontrar informações sobre esse projeto do poeta-diplomata e de Toquinho, seu fiel braço direito. Não há qualquer citação em seu documentário (Vinicius, 2005, dir. Miguel Faria Jr.), as biografias trazem menções superficiais, há pouquíssimos registros iconográficos das gravações e a internet reproduz sempre as mesmas histórias. Esta pequena e atrevida aventura investigativa do Álbum Itaú Cultural permite descobrir pegadas pouco observadas do sujeito que foi remoçando com o passar dos anos, como disse seu parceiro Edu Lobo.

O LIVRO

As primeiras braçadas pelo mundo das crianças começam nos anos 1950, momento em que sua carreira diplomática e literário-jornalística estão a todo vapor. Alguns dos poemas de Vinicius criados para os filhos Susana (1940), Pedro (1942), Georgiana (1953) e Luciana (1956) são musicados pelo paranaense Paulo Soledade (1919-1999). Duas composições são gravadas em 1954 por Silvio Caldas (1908-1998): “O Relógio” e “São Francisco”, mas passam despercebidas do público. Nessa leva de poeminhas com melodia estão “O Peru”, “A Formiga” e “A Cachorrinha”, como confirmou Soledade ao produtor Fernando Faro, no programa MPB Especial, da TV Cultura, em 1975.

Na década do otimismo propagado por Juscelino Kubitschek e de seu  ”50 anos em 5″, em que o disco de 78 rotações convive com o nascente long-play de 33 rotações por minuto, em que a TV revoluciona a comunicação e o samba-canção anuncia a chegada da bossa nova, a música autoral para crianças ainda está restrita às adaptações de clássicos da literatura infantil por Braguinha (1907-2006) – que nos anos 1960 originam a Coleção Disquinho, da gravadora Continental – e aos ecos de “Canção da Criança”, último hit do cantor Francisco Alves (1898-1952).

Ilustração de Marie Louise Nery para o poema “O Relógio”. Foto: reprodução

Para além de suas obrigações junto ao Itamaraty, as décadas de 1950 e 1960 também embalam a vida de Vinicius: divide a paternidade da bossa nova (1958); é lançado o filme Orfeu Negro (baseado na sua peça Orfeu da Conceição); ganha a Palme d’Or do Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro; torna-se avô (1960); compõe com Pixinguinha, Carlinhos Lyra, Baden Powell e Edu Lobo; sobe pela primeira vez num palco; ouve sua voz em discos que divide com Odete Lara, Dorival Caymmi e Baden; e troca alianças pela quarta vez.

Mas, durante esse tempo, sua produção infantil não está à mostra. Em 1970, ano em que nasce o seu quinto filho (Maria, a caçula) e em que firma parceria com o instrumentista paulistano Toquinho, tem esse quintal de escritos infantis aberto ao público: é lançado o livro A Arca de Noé – Poemas Infantis de Vinicius de Moraes (Ed. Sabiá). A publicação reúne poeminhas já editados, como aqueles que Paulo Soledade musicou nos anos 1950, e outros inéditos. São 20 temas no total: “A Arca de Noé”, “São Francisco”, “Natal”, “O Girassol”, “O Relógio”, “O Pinguim”, “O Elefantinho”, “A Porta”, “O Leão”, “O Pato”, “A Cachorrinha”, “A Galinha d’Angola”, “O Peru”, “O Gato”, “As Borboletas”, “O Marimbondo”, “As Abelhas”, “A Foca”, “O Mosquito” e “A Casa”.

Com ilustrações da artista plástica, figurinista e cenógrafa suíça Marie Louise Nery (1924), o livro de 76 páginas é uma homenagem do poeta ateu e materialista ao velhinho barbudo que salvou as espécies animais do maior dilúvio de que se tem notícia. Na verdade, mais do que um tributo ao personagem bíblico, a arca é a solução editorial para compilar seus poemas sobre bichos e insetos.

A  incursão pela literatura infantil é bem-sucedida. O livro A Arca de Noé tem várias reedições. Em novas impressões, como a da Cia. das Letras, de 1998, apresenta 32 poemas em suas 76 páginas: inclui as letras das canções dos discos A Arca de Noé 1 e A Arca de Noé 2 (com exceção de “Aula de Piano”) e três inéditos (“O Peixe-Espada”, “A Morte de Meu Carneirinho” e “A Morte do Pintainho”). O tempo e a sorte transformam um exemplar da primeira edição em objeto de desejo: sua versão autografada custa R$ 1.500 em um site de comércio eletrônico.

O DISCO ITALIANO

Com quase 60 anos de idade, exonerado do Itamaraty pela ditadura militar (1964-1985) e morando na Bahia, Vinicius de Moraes não para de trabalhar e de viver. Adorado pelos universitários, que o têm como um guru hippie, encara com Toquinho uma rotina intensa de gravação de discos e de shows dentro e fora do Brasil. Dois exemplos são os álbuns La Vita, Amico, È L’Arte Dell’Incontro (de Vinicius, Giuseppe Ungaretti e Sergio Endrigo) e Per Vivere un Grande Amore (de Vinicius e Toquinho), gravados e lançados na Itália em 1969 e 1972, respectivamente. E nesse mesmo 1972 chega o LP L’Arca – Canzoni per Bambini, di Vinicius de Moraes, um disco produzido por Sergio Bardotti, com arranjos e direção de orquestra do argentino Luis Enríquez Bacalov (1933). Com ilustrações de L. Cajani, o álbum prefacia a versão brasileira lançada nove anos depois: uma seleção de artistas cantam as músicas infantis de Vinicius. No time, o calejado Sergio Endrigo (famoso no Brasil pelo sucesso “Canzone Per Te”, gravado e defendido por Roberto Carlos no Festival de San Remo de 1969), Marisa Sannia, Franco Gatti dei Ricchi e Poveri, Vittorio De Scalzi dei New Trolls e o coro infantil The Plagues (As Pragas). O Poetinha canta em 5 das 12 faixas.

>> Ouça a playlist “A arca italiana”

Com versões próximas daquelas que seriam registradas no Brasil, L’Arca apresenta ao mundo as composições divididas com Paulo Soledade (“O Relógio” vira “L’Orologio”), com Toquinho (“Piccinina”, “La Foca”, “La Papera”) e com Bacalov (“Le Api” ou “As Abelhas”) e, principamente, aquelas para quais criou a melodia, como “Le Pulce” (“A Pulga”). “Muitas vezes você encontra grandes poetas que jamais fariam letras de música. Por incapacidade, porque é uma outra história, porque envolve musicalidade; você tem de ter ouvido legal, você tem de compreender como a frase musical se desenha… E é por isso que Vinicius foi importantíssimo, porque além de grande poeta é um grande melodista”, afirma Edu Lobo no já citado documentário. Abaixo, um registro em vídeo da participação de Vinicius, Toquinho e Sergio Endrigo num programa de TV em que cantam “La Casa”, gravada em La Vita, Amico, È L’Arte Dell’Incontro e não incluída em L’Arca.

Com reedições em vinil em 1976 e 1982, e em CD em 2003, L’Arca emplaca um sucesso junto ao público italiano: “Il Pappagallo”, interpretada por Endrigo e que não subiu na arca brasileira. Consta que o cantor era dono de um papagaio chamado Mio.

O ÚLTIMO CAPÍTULO

Os anos 1970 correm apressados. Enquanto segue com os shows, excursões pelo Velho Mundo, gravação de discos – que garantem gols de placa como “Tarde em Itapoã”, “Sei Lá (A Vida Tem Sempre Razão)” e “Cotidiano Nº 2″ – e engata o nono casamento, agora com Gilda de Queirós Mattoso, Vinicius sente sua saúde debilitada. E, em 1979, numa volta de viagem à Europa, sofre um derrame cerebral no avião. Mesmo enfraquecido, Vinicius mantém seus hábitos: bebe, fuma, cria… e retoma seu projeto infantil. Além das músicas criadas com Paulo Soledade, adapta as italianas e, com Toquinho, concebe novas melodias para outros poemas. A intenção é lançar dois discos com suas canções para crianças.

Toquinho, que na época mora com o amigo na Gávea, disse que na noite de 8 de julho de 1980 eles entraram madrugada adentro conversando. Num determinado momento, Vinicius fala que vai tomar um banho e descansar. No banheiro, tem dificuldades em respirar. É encontrado deitado na banheira na manhã seguinte pela empregada. Acudido por Toquinho e Gilda, não resiste. Morre em 9 de julho vítima de edema pulmonar. “Estávamos escolhendo os intérpretes para gravar a segunda versão da ‘Arca de Noé’. E o mais incrível é que no dia em que ele morreu, e foi de manhãzinha, passamos a madrugada toda conversando e recordando tantas coisas, só nós dois, ao som do violão. Um dos assuntos era a escolha dos intérpretes. Ele ria muito ao lembrar das Frenéticas cantando ‘Aula de Piano’ e imaginar Ney Matogrosso no papel de ‘A Galinha d’Angola’”, explica o parceiro.

Em entrevista a Tárik de Souza, o produtor Fernando Faro reafirma que Vinicius trabalhou até pouco antes de morrer. “Na madrugada em que se foi, vertia do italiano para o português os poemas da Arca. E cobrava de mim: ‘Faro, me dá logo esse treco!’. Ele respirava esse disco, atento a todos os detalhes”, conta o produtor dos shows e dos álbuns da dupla Toquinho-Vinicius.

Nesse processo das escolhas dos poemas, o poeta percebe que perdeu uma das músicas. “O Vinicius era muito desorganizado. Quando ele estava separando as músicas que entrariam no segundo disco, percebeu que havia perdido o poema ‘O Pintinho’. Eu tive de traduzir a versão italiana lançada pelo Sergio Endrigo como ‘Il Pulcino’. E aí ele refez o poema a partir da minha tradução”, relembra Gilda.

A primeira A Arca de Noé é lançada pela gravadora Ariola em LP e fita-cassete numa sexta-feira, 10 outubro de 1980, numa operação casada com a TV Globo, que produz o especial Vinicius para Crianças, apresentado naquele mesmo dia. Apesar de ter sido gravado pouco depois do primeiro, o segundo volume da Arca chega ao mercado no ano seguinte.

OS DISCOS BRASILEIROS

“Vendo ao longe aquela serra e as planícies tão verdinhas, diz Noé: ‘Que boa terra para plantar as minhas vinhas’”; canta Milton Nascimento ao lado de Chico Buarque e de um coral infantil. Assim começa a história dos animais que desembarcam da arca para repovoar a Terra depois do dilúvio no álbum infantil A Arca de Noé. O arranjo orquestral do tropicalista Rogério Duprat agiganta o tom épico da abertura do disco, digna de filmes hollywoodianos.

Um pouco diferente da narrada no livro sagrado, esta arca reúne brincadeiras, letras bem-humoradas e sutileza ao transitar entre temas adultos e infantis. Vinicius apresenta seus personagens em canções interpretadas por nomes da música brasileira como Milton Nascimento, Chico Buarque, Elis Regina, MPB-4, Alceu Valença, Moraes Moreira, As Frenéticas e Boca Livre.

O disco faz um sucesso danado no Brasil e no exterior, vendendo 1,5 milhão de cópias para cada um dos dois volumes desde o seu lançamento (em 1980 é lançado o volume 1 e, em 1981, o volume 2). O projeto é reconhecido como uma das principais obras destinadas ao público infantil até os dias de hoje. Toquinho, um dos mentores da empreitada, relembra com alegria: “Desenvolvemos as canções como se brincássemos com os bichinhos. Rimos muito fazendo o que gostávamos, com espírito leve e solto, produzindo músicas para os dois projetos”.

>> Ouça a playlist: “A Arca de Noé” 

O artista plástico paulistano Elifas Andreato (1946) foi o ilustrador escolhido para confeccionar as capas dos LPs. Já havia trabalhado com Vinicius, Toquinho e o produtor Fernando Faro no disco de 1975 (Vinicius/Toquinho), que marca o nascimento da amizade do ilustrador com a dupla.

Autor de dezenas de capas de álbuns de artistas brasileiros, como os de Paulinho da Viola, Chico Buarque e Martinho da Vila, Elifas mantém uma relação próxima com o meio artístico. Porém, é tido pelas companhias fonográficas como um ilustrador difícil de se trabalhar. Ele explica: “Esse convite veio de forma natural. Eu já trabalhava com o Vinicius, o Toquinho e o Faro. Quando o Toquinho começou a discutir o projeto, eles já me incluíram. Foi sempre assim comigo nesse período. As gravadoras tentavam me tirar porque eu inventava demais. Mas eu fui para o estúdio, ouvi as gravações, participei de todo o processo. O pessoal da Ariola acabou comprando a ideia que eu tive”.

A Arca de Noé, 1980

Capa do primeiro disco da série A Arca de Noé, lançado em 1980. Foto: reprodução

A sugestão inicial para a capa era fazer os animais com recortes de papel. Elifas recebe alguns livros de Vinicius lançados anteriormente, com ilustrações do artista plástico cearense Antonio Bandeira (1922-1967), mas resolve traçar um caminho próprio. “Eu vi as fotos de algumas ilustrações, mas não dei muita bola, não. Eu já sabia mais ou menos o que ia fazer. Veio a ideia de que as próprias crianças pudessem criar as suas capas.” O LP traz uma das faces em branco e, na frente, em uma capa destacável há a indicação: “Recorte e cole na capa do seu disco”. Dessa ideia, ainda surge um concurso, em que as crianças enviam para a gravadora as capas criadas. Segundo Elifas, são recebidos mais de 150 trabalhos: “Selecionamos os melhores, alguns bem bonitos. Mas eu não sei que fim levaram. Ninguém sabia muito bem da importância daquilo tudo”, confessa.

>> Ouça a playlist: “A Arca de Noé 2″

Com arranjos de Duprat e Toquinho, as músicas dos dois discos espelham o quão variada e inventiva era a bagagem da arca de Vinicius. Além dos animais, insetos, fenômenos da natureza e de duas entidades sobre-humanas (Noé e São Francisco), o veículo aquático carrega um relógio, uma casa, uma porta, um girassol e oferece aula de piano.

Atualmente dono do selo MZA Music, Marco Mazzola era o diretor de estúdio da gravadora Ariola em 1980 e acompanha as gravações dos discos. Lembra-se da gravação de “O Pato” com o MPB-4, uma das músicas que mais repercutem na época. “Foi a mais engraçada! O pessoal do MPB-4 não sabia que tinha de ter um som de pato na música. Então nós começamos a gravar e no final resolvemos fazer uma brincadeira, para ver se alguém topava imitar o pato. No final da gravação, o Mutinho (baterista) começou a imitar e todo mundo caiu na gargalhada!” Fernando Faro, produtor dos dois discos, relata na biografia de Toquinho (Toquinho – 30 Anos de Música) que Magro, do MPB-4, protesta durante as gravações: “Nós somos um grupo sério!”.

A liberdade dada aos artistas para as interpretações das canções também é unânime. Zé Renato, do grupo Boca Livre, conta sobre a gravação de “A Casa”, outro sucesso do disco. “Nós cantamos e tocamos de acordo com o nosso estilo, com viola; do nosso jeito. Eles fizeram questão de deixar muito transparente a sonoridade que tinha o Boca Livre. Isso foi muito bacana!”

Como uma pequena parte do elenco de A Arca de Noé, a cantora Jane Duboc cultiva sua relação com o universo infantil pós-1980. Na verdade, já havia escrito dois livros (Jeguelhinho e Bia e Buze), que viram peças musicais; participado do álbum Acalantos Brasileiros (Discos Marcus Pereira, 1978) – dividido com José Tobias, da Coleção Taba (Abril Cultural, 1982) – e de outros discos e especiais de TV, como Sítio do Picapau Amarelo, Pirlimpimpim, Balão Mágico e Castelo Rá-Tim-Bum. Duboc está no segundo volume da Arca; interpreta “O Girassol”. “Eu viajava muito com o Toquinho. Eu o vi na Itália compondo e ele já havia me convidado para participar do segundo disco, com produção do Faro”, conta.

Com o “surpreendente” êxito comercial dos discos, o projeto acaba por também impulsionar a carreira de alguns dos artistas ou, no mínimo, mostrá-los para um público diferente do já conquistado. O Boca Livre, por exemplo, havia acabado de lançar o primeiro álbum de sua carreira (Boca Livre, 1979) e entra para a Arca dividindo o espaço com nomes consagrados. “Para nós foi ultraimportante. Estávamos junto a vários artistas de que a gente gostava: Fagner, Alceu Valença, Chico. Era um painel do que estava acontecendo na música brasileira. Estávamos iniciando um trabalho e já entramos no projeto com todos esses artistas”, confessa Zé Renato.

Segundo disco do projeto repetiu a dose do primeiro: arte gráfica e elenco diversificado. Foto: reprodução

Uma das maiores preocupações de Vinicius e Toquinho na realização do disco era a escolha dos intérpretes de cada canção. Para cantar “Aula de Piano” o nome selecionado é o das Frenéticas e isso não se dá à revelia. Criado na boate Dancin’Days, de Nelson Motta, o grupo é símbolo da era das discotecas e da sensualidade. As letras de suas músicas reforçam o caráter “pecaminoso” do sexteto feminino, como a música “Perigosa” (Roberto de Carvalho, Nelson Motta e Rita Lee), lançada no disco de estreia, Frenéticas, de 1977, cujo refrão “Vou deixar você louco dentro de mim” é repetido com humor, gemidos e requebros. “Aula de Piano” narra um encontro amoroso entre a aluna e seu professor de piano. A escalação das meninas reforça a intenção da letra, que hoje seria enquadrada como “politicamente incorreta”. Toquinho defende a escolha: “Pelo próprio tema, só podia ser cantada pelas Frenéticas, que esbanjavam erotismo e humor picante”, declara o músico. Leiloca devolve o elogio, exaltando a composição de Vinicius. “‘Aula de Piano’ tem uma letra e música impecáveis. Transita no fetiche milenar entre professor e aluna. Retratada de forma pura, infantil.” A artista continua: “[Participar desse álbum] foi muito importante para nós. Mesmo que o nosso primeiro LP tenha sido disco de ouro em poucos meses, foi a Arca de Noé que nos deu o único disco de platina (250 mil cópias vendidas) da nossa carreira”.

A variedade dos intérpretes é uma marca do projeto: do cantor-galã Fábio Jr., do vanguardista Walter Franco, do camaleônico Ney Matogrosso, do sambista Paulinho da Viola, das novatas Bebel (Gilberto) e Marina (Lima) aos consagrados Tom Jobim, Elis Regina, Chico Buarque e Milton Nascimento. O time-base que garante a instrumentação dos discos tem nomes como o dos pianistas Amilson Godoy e Agostinho Silva, os baixistas Arthur Maia e Cláudio Bertrami, o percussionista Marçal e o baterista Mutinho. E o coro presente no segundo volume conta com Lúcia Lins, ou Lucinha Lins, cantora e atriz que participa da maioria das faixas e figura em muitas produções infantis dos anos seguintes (Sítio do Picapau Amarelo, Saltimbancos Trapalhões etc.).

Alguns artistas estão presentes nos dois discos, como Boca Livre, que interpreta no volume 2 “O Ar (O Vento)”; As Frenéticas com “O Pintinho”; Ney Matogrosso em “A Galinha d’Angola”; e o próprio Toquinho (“O Pinguim”). Fagner, Paulinho da Viola e Elba Ramalho figuram entre os novatos da segunda Arca. Fagner é amigo de Vinicius e é convocado Fernando Faro. “Nós estávamos voltando do campo (de futebol) do Chico quando o Faro me mostrou ‘O Leão’. Ali mesmo no carro eu peguei o violão e já comecei a musicar o poema. Depois foi muito tranquilo ir para a gravação.”

Com sucessos como “Noturno” (“Ah, coração alado…”), lançada em 1979, Fagner não saía das rádios. Mas garante que um dos méritos do disco A Arca de Noé para sua carreira é o de ter levado a um público diferente. “As pessoas me apontavam para as crianças e falavam: ‘Olha o leãozinho ali’”, afirma.

DO DISCO PARA A TV; DO BRASIL PARA O MUNDO

No período de lançamento ainda do primeiro álbum, em outubro de 1980, a Globo apresenta o especial infantil Vinicius para Criança. Em homenagem ao poeta que havia morrido recentemente e ao Dia das Crianças, as canções do disco A Arca de Noé são interpretadas pelos mesmos artistas que as cantam no LP, em meio aos cenários lúdicos criados por Federico Padilla no Teatro Fênix, no Rio de Janeiro, e às técnicas inovadoras de estúdio para a época. Dirigido por Augusto César Vannucci (1934-1992), o programa é apresentado por sua afilhada, Aretha Marcos, então com seis anos de idade. Além da exibição no Brasil, Vinicius Para Criança também circula por outros países, como Dinamarca, Israel e Portugal, depois de conquistar o Emmy de Ouro na categoria Popular Arts (EUA), o Prêmio Ondas (Espanha), ambos em 1981, e o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1982.

As duas edições televisivas de A Arca de Noé contribuem para eternizar a obra infantil de Vinicius. Como as gravações dos discos, as dos programas também reúnem boas histórias. Uma semana antes do teste para definir quem seria o apresentador mirim do especial, a filha dos cantores Vanusa e Antônio Marcos quebra o braço brincando no Parque da Lage, no Rio de Janeiro. Faz o teste com o braço engessado ao lado de outras crianças, filhos de diretores e atores da TV Globo. Aretha é escolhida. Das gravações, recorda-se que corre atrás de Ney Matogrosso e da atenção especial que recebe dos atores e técnicos, como do assistente de palco Russo: “Lembro do cuidado dele em arranjar um canto no cenário para eu cochilar na madrugada”. Porém, como o ritmo das grandes produções é intenso, gravar nem sempre é um mar de rosas. “Meu cabelo é cacheado e o Vannucci o queria liso, o que fazia ter uma pessoa alisando o meu cabelo o tempo todo com escova. Isso era chato. Muito chato!”, conta Aretha.

Mas um susto para a direção do programa foi quando a apresentadora ficou doente. Vestida de pintinho para o clipe da música de mesmo nome, Aretha está com febre e, mesmo assim, tem de gravar. O prazo de entrega do programa já está estourado. “Já era bem tarde da noite e eu tive de me sentar num cubo chroma bem alto para dizer: ‘Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?’. Tivemos de repetir várias vezes por eu estar com o rosto muito vermelho e muito mole. Acabei capotando do alto do cubo, dando um susto enorme em todos. Gostei mesmo foi da caixa de bombons enorme que recebi em casa da equipe da TV no dia seguinte”, diz a apresentadora.

Com o sucesso do programa, a carreira de Aretha deslancha. Incentivada pelo padrasto Vannucci, a menina protagoniza diversos musicais infantis nos anos 1980 e começa cedo a carreira de cantora, gravando o primeiro disco em 1984, aos dez anos de idade. “Tive uma infância diferente das outras crianças. Foram 15 especiais, 12 LPs pela Som Livre, com shows pelo Brasil inteiro. Eu trabalhava como adulto. Meu recreio na escola era tumultuado. Passeio em shopping virava confusão. Porém, é uma riqueza que tenho na vida, o pensamento mágico presente na canção ‘Menininha’”.

Como o disco, o especial Vinicius Para Criança é lançado depois da morte do poeta. Segundo confessa, Aretha tem apenas um encontro com o criador da casa muito engraçada, que não tinha teto nem nada. “Minha mãe tinha uma produtora bem conhecida no cenário artístico e boêmio do Rio. Ela era faz-tudo, cuidava do lado artístico, da casa, da gente. Estávamos na praia de Ipanema e fomos almoçar tarde no bar Garota de Ipanema. Vinicius estava lá. A produção do programa ainda estava bem no começo, mas eu já tinha recebido o áudio das canções. Lembro perfeitamente da roupa, do olhar, do jeito da boca falar… Ele disse: ‘Gente, olha o jeito que essa menina tá me olhando!’. E foi só essa vez”.

No especial televisivo, Zé Renato não se conformava com o sapato que é escolhido para usar na gravação da música “A Casa”. “Eu estranhei um pouco na hora; tinha de usar um sapato enorme de palhaço e eu sou meio tímido, não gostei muito não. Meio por nervosismo eu ficava batendo o pé, e no final das contas foi o que ficou mais engraçado da nossa participação”, relembra.

SUCESSO E LEGADO

Em 2012, o projeto completa 32 anos de seu lançamento. Nessa longa estrada, os discos e os especiais para TV se tornam referência de trabalho destinado ao público infantil. Quando perguntados sobre as características que deixam essa obra com um legado tão duradouro, os artistas não economizam elogios. “É um projeto para crianças feito por pessoas que trabalhavam com o público adulto. O que mais importa nisso era a capacidade de Vinicius de atingir todos os públicos. Foi pioneiro nesse sentido”, garante Fagner.

Com relação à Arca de Vinicius, o cantor e compositor Paulo Tatit, que ao lado de Sandra Peres integra o Palavra Cantada, um dos principais nomes da música infantil produzida pós-1990, comenta suas preferências: “Canções como ‘O Pato’, ‘A Corujinha’, ‘A Casa’ e ‘O Ar’ são especialmente ótimas! Tem outras ótimas, como ‘O Peru’ e a ‘Galinha d’Angola’, que são muito legais, mas a qualidade da gravação deixa a desejar. Gravava-se muito mal no Brasil nos anos 1980. Culpa das câmeras de reverb artificiais que surgiam nessa época e que encantavam todos os técnicos de estúdio”, analisa o autor do sucesso “Rato” (com Edith Derdyk).

Da discografia do Palavra Cantada, Tatit destaca duas composições que poderiam “pular” para dentro da Arca. “As canções ‘O Camaleão’ e ‘O Velho Noé’ do disco Mil Pássaros que fizemos com a autora Ruth Rocha.”

Para a jornalista e radialista Patrícia Palumbo, “Vinicius tem qualquer coisa de Manoel Bandeira quando escreve para crianças; uma graça, uma doçura e ao mesmo tempo trata dos temas com inteligência, não subestima o pequeno leitor. Essa foi a marca, junto à qualidade musical e aos artistas da primeira linha da música popular. Como o trabalho virou referência, é dificil não comparar. Virou o top de excelência!”, afirma.

Já para o crítico literário Antonio Candido (1918), um dos méritos da obra do poeta é a sua coloquialidade. “O Vinicius é um homem apegado à métrica, à rima, às formas poéticas tradicionais, como o soneto, a ode etc. Portanto, é um poeta que está inserido na tradição. Mas esse poeta inserido na tradição, exatamente por conta dos grandes recursos formais e técnicos que ele tem, se aproximou mais do que nenhum outro daquilo que os modernistas queriam, que é a vida cotidiana, que é a destruição do tema poético nobre, que é a frase coloquial. (…) No entanto, dentro da continuidade, da poesia formal”, analisa no documentário Vinicius.

Toquinho é mais incisivo na hora de destacar as qualidades do álbum encabeçado por ele e pelo amigo poeta. O sucesso se deve não somente à proposta inovadora, mas aos cuidados de toda a equipe na elaboração. “As melodias completam a genialidade poética de Vinicius, que torna vivos os bichos em seus versos; os arranjos de Rogério Duprat são muito bem sincronizados com a característica de cada tema; e os intérpretes completam essa associação de valores musicais”, finaliza o músico.

 

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