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O som que fez o som do Metá Metá

Os músicos do Metá Metá - Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França - indicam, cada um, cinco músicas que lhes ensinaram liberdades novas

Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci apresentam suas influências. Foto: Fernando Eduardo

A banda paulistana Metá Metá acaba de lançar seu terceiro álbum, o MM3 (baixe no site oficial do grupo). Encontro de músicos que se desdobram em vários outros projetos – Kiko Dinucci na guitarra, Juçara Marçal nos vocais e Thiago França no saxofone (acompanhados nesse álbum por Marcelo Cabral no baixo e Sergio Machado na bateria) –, a banda, que já misturava pop e influências da música africana tradicional com rock e jazz, absorve agora a sonoridade dos países árabes.

MM3 sucede Metal Metal (2012) e Metá Metá (2011), além dos projetos solo dos componentes do grupo (sendo Encarnado, lançado por Juçara em 2014, o álbum mais recente); das participações em grupos com outros músicos na dianteira [Kiko e Thiago ajudaram a criar A Mulher do Fim do Mundo (2015), de Elza Soares; Juçara e Thiago compõem o Conversas com Toshiro (2015), de Rodrigo Campos]; e dos trabalhos com outras formações (Kiko com o Bando Afromacarrônico e o Passo Torto; Thiago com o MarginalS). Os projetos se alimentam mutuamente.

Para o Álbum, Juçara, Kiko e Thiago indicam, cada um, cinco músicas que fizeram o seu som. Um processo criativo novo aqui, um jeito distinto de sentir as canções ali – a cada faixa indicada, o que eles parecem ter encontrado é outra liberdade.

Juçara Marçal

1. “Odé”, de Pai Euclides Talabyan

“Conheci Pai Euclides na época em que o grupo A Barca, do qual eu fazia parte, foi pro Maranhão pra registrar alguns rituais da Casa Fanti-Ashanti. Fiquei muito impressionada com a força desse verdadeiro mestre da ancestralidade brasileira de herança africana. Além de cantar lindamente (ele canta de uma forma que parece suspender o tempo, pelo timbre de sua voz, pela maneira ralentada com que vai pronunciando as palavras na melodia, pela completa concentração no ato de cantar), levava os diversos ritos em sua casa com rigor e dedicação. Lançou livros, gravou discos, participou de filmes, tudo com a intenção clara de manter o legado que herdou ao se tornar chefe da Casa Fanti-Ashanti. Pai Euclides faleceu no ano passado. É minha maior referência quando penso em canto – e mestre espiritual pra sempre. Foi ele que leu nos búzios que meu orixá é Odé.”

2. “Gothan Lullaby”, de Meredith Monk

“Já tinha ouvido o disco da Meredith e me inspirava muito. Mas fiquei absolutamente chocada quando a vi no palco, em 1994, num show que fazia parte do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Aconteceu no Teatro Sérgio Cardoso lotado, e ela cantava apenas com acompanhamento de piano. Supersimples. E um mundo de emoções vindas daquela voz tão cheia de possibilidades, para além da palavra.”

3. “Coisas do Mundo, Minha Nega”, de Paulinho da Viola

“Todas as vezes que vejo o Paulinho cantando e tocando esse samba, fico emocionada. Porque o Paulinho cantando samba é uma coisa do outro mundo e porque em especial esse samba traz todo aquele lirismo tirado das coisas simples, das tristezas simples do dia a dia do sambista, do homem comum. Uma crônica maravilhosamente construída em forma de samba.”

4. “Luzia”, de Itamar Assumpção

“Eu fazia faculdade na época em que Itamar, Rumo e Premê bombavam em São Paulo. Fui a um show do Itamar e da banda Isca de Polícia na Funarte [Fundação Nacional de Artes]. Pirei com o jeito de ele cantar. O jeito como a voz dele e a das meninas se encaixavam de forma aparentemente ‘desencaixada’ da base. Aquele jeito articuladíssimo, ultrarrítmico e ao mesmo tempo tão fluido era muito diferente de tudo que eu conhecia até então. Virei fã absoluta desde então.”

5. “England”, de P.J. Harvey

“A P.J. foi das minhas descobertas mais recentes. Conheci primeiro o disco Let England Shake e então fui atrás dos álbuns anteriores. Suas canções têm uma força que vem da simplicidade. Isso está também no jeito de cantar despojado, nos arranjos de sonoridade particular, no uso de samplers de forma inusitada, sem deixar de ser supermusical, nessa música em particular.”

Kiko Dinucci

1. “Lonely Woman”, de Ornette Coleman

“Ouvi essa música pela primeira vez num programa sobre a história do jazz na TV Cultura, no começo dos anos 1990. Enquanto a música tocava, ouvia-se um depoimento do Ornette dizendo que ele tinha rompido com o modelo tradicional de tempo, que estava buscando utilizar um tempo mais irregular, parecido com o da respiração.”

2. “A Coisa Tá Feia”, de Tião Carreiro e Pardinho

“São Paulo não conhece a música de São Paulo. Nessa composição do Tião Carreiro com Lorival dos Santos vemos um exemplo do que é chamado pagode pelos violeiros. Um ritmo dançante que mistura versos de cururu (São Paulo não conhece) com a batida da catira (São Paulo não conhece), sempre com letras provocadoras e astuciosas. As violas do Tião Carreiro me inspiraram a tocar cordas de um jeito mais percussivo.”

3. “I Don’t Want to Push It”, de Sonic Youth

“O SY me mostrou que é possível tocar guitarra de um jeito diferente, com afinações fora dos padrões e com uma sonoridade mais original, longe dos clichês do blues e do rock tradicional. Nessa faixa, o rock como gênero é totalmente desconstruído, seja nas guitarras, seja na bateria africana.”

4. “Expresso 2222”, de Gilberto Gil

“Alucinei quando ouvi pela primeira vez o Gil fazendo os arpejos rítmicos no violão. Até hoje me assusto com esse jeito de tocar. Pra mim esse violão une o samba do Recôncavo Baiano com futurismo. Fiz o riff de ‘Logun’ inspirado no violão de ‘Expresso 2222′.”

5. “Candomble”, de Baden Powell

“Esse samba me impressiona muito; Baden fica num ré menor a música inteira, variando de maneira rítmica, imitando os tambores Le, Rumpi e Rum do candomblé. Uma sinfonia polifônica de um homem só, com fortes acentuações nos baixos e nos acordes agudos que desconstroem o samba com intimidade.”

Thiago França

1. “Acknowledgement”, de John Coltrane

“Em 2010, eu acho, fui com o Kiko assistir a uma mostra do Jean Rouch na cinemateca, e num dos filmes um cara induzia o transe duma senhora falando na orelha dela, num movimento e com uma melodia que imediatamente me lembrou o tema de abertura do [álbum de John Coltrane] A Love Supreme. Uma ficha gigantesca caiu pra mim nesse dia.”

2. “Morrendo Verso em Verso”, de João Nogueira

“Passei muito tempo da vida tocando samba e choro, mas tocava e gostava mais de samba, porque choro tem muita nota, tem pouco respiro pro sax, e eu não me ligo em rápido. Eu me identifiquei muito com o João Nogueira, que canta pra suingado, mais dolente. Ele me lembrava muito o Dexter Gordon, que eu também ouvi muito quando comecei a estudar saxofone. João tem um jeito intuitivo, meio misterioso; a melodia não é muito precisa, me gusta. Tem muito dessa atmosfera no Malagueta, Perus e Bacanaço [álbum de Thiago lançado em 2013].”

3. “Ponta de Areia”, de Wayne Shorter e Milton Nascimento

“Essa foi a primeira vez que eu ouvi um sax soprano – e a primeira vez que eu percebi um jeito de tocar muito mais intuitivo do que técnico. O soprano parece um animal vivo, selvagem, tem uma beleza improvável, rasgada mas sutil. Foi quando eu entendi a história de o instrumento ser extensão do corpo. Era um jeito de tocar que ignora clichês, os licks, as frases prontas que todo mundo estuda e toca igual. Essa influência apareceu na gravação do Conversas com Toshiro [2015], do Rodrigo Campos.”

4. “Space Is the Place”, de Sun Ra

“Fiquei muito intrigado quando ouvi: como uma música podia ser tão longa e ter tantos momentos dentro dela, e como há sentido em tanto caos, tantas possibilidades… Do jeito que eu vejo, Sun Ra mexe muito com cores, com combinações, este instrumento com aquele, todos ao mesmo tempo, caos, volta pro tema, desconstrói completamente e volta; se há técnica de arranjo, no sentido clássico, não transparece. E me fascina muito o compromisso dele com a arte, a ponto de você não saber se é um personagem ou se ele acredita realmente no que está falando.”

5. “Netsanet”, de Mulatu Astatke

“O som do Mulatu abriu muito a minha cabeça pra outras escalas, esse lance de misturar Ocidente e Oriente me estimulou a encontrar outras sonoridades pro sax. De todas as músicas, essa tem um lance especial, porque toquei com ele: na hora do breque, em que ninguém conseguia entender que compasso era aquele, ele explicou: ‘Não muda nada, é só respirar… e volta’. Foi bem importante essa experiência, entender essas percepções não cartesianas da música.”

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