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“Villa-Lobos não deixa de ser nosso Jesus Cristo”, diz Nelson Ayres

Confira a entrevista completa com o maestro

texto Patrícia Colombo

Nelson Ayres (segundo da esq. p/ dir.) com seu grupo Pau Brasil e a capa do CD Villa-Lobos Superstar. Foto: divulgação

Após um processo de elaboração de quase cinco anos, chegou finalmente ao mercado brasileiro o álbum Villa-Lobos Superstar, com 12 releituras de obras do compositor modernista Heitor Villa-Lobos (1887-1959). O projeto foi encabeçado pelo pianista, arranjador e compositor Nelson Ayres, junto ao seu grupo, o Pau Brasil, e conta também com o cantor Renato Braz e o conjunto de cordas Ensemble SP.

Boa parte das peças que integram o disco ganhou uma nova roupagem, em adaptações que visaram manter as ideias originais, em respeito à obra do compositor, porém, trazendo o estilo do Pau Brasil. Os arranjos foram trabalhados por Ayres em parceria com o violonista Paulo Belinatti. “Temos certeza de que o Villa adoraria ver sua música transcendendo os limites da partitura, o que ele próprio fazia constantemente”, contou o pianista, em entrevista ao Álbum. Leia abaixo:

Álbum – Como nasceu o projeto Villa-Lobos Superstar?
Nelson Ayres -
Há alguns anos fui chamado pelo Sesc Pompeia para dirigir um projeto Villa-Lobos. Na ocasião não houve participação do Pau Brasil, mas participaram Renato Braz e o Ensemble SP, assim como Eduardo Monteiro, Fábio Zanon e outros solistas. Pouco depois apareceu a oportunidade de adaptar essa ideia para o Pau Brasil, que sempre se interessou por Villa-Lobos e já havia gravado algumas peças. A evolução foi meio natural, e começamos cada vez mais a acrescentar outras composições “villalobianas” no repertório, até que virou um projeto, que apresentamos pela primeira vez no Memorial da América Latina, já com o Ensemble SP e o Renato Braz.

O material traz recriações de 12 obras de Villa-Lobos. Quais foram os critérios de escolha de tais temas e quais os cuidados tomados em respeito à obra dele?
Não houve um critério rígido, foi um processo bastante orgânico. O Bellinati adaptou algumas peças para violão, eu trouxe o “Prelúdio” e a “Ária da Bachianas Brasileiras Nº 4”, que já tocava em solo e com o meu trio, o Ensemble sugeriu o “Quarteto Nº 5”, e o “Sexteto Místico” foi ideia do Rodolfo Stroeter. O principal cuidado que tomamos foi encontrar a expressão mais natural possível, tentando sempre descobrir as intenções do Villa por detrás das notas das partituras. Por outro lado, nós nos sentimos com total liberdade para rearranjar e reorquestrar as músicas − temos certeza de que o Villa adoraria ver sua música transcendendo os limites da partitura, o que ele próprio fazia constantemente.

Quais os pontos mais difíceis e os mais fáceis na elaboração de um trabalho como este?
O mais difícil é sem dúvida manter esse equilíbrio delicado entre a concepção original e aquilo que criamos em cima dessa concepção. Nossa liberdade criativa não significa que podemos trair a intenção original das obras. O respeito é fundamental, e tivemos muito cuidado para que o Villa fosse sempre mais importante que o Pau Brasil. Pontos fáceis não existiram, mas existiu um enorme prazer em trabalhar muito intimamente com músicos absolutamente brilhantes como é o caso do Ensemble SP e do Renato Braz. Para mim, pessoalmente, os ensaios foram verdadeiras aulas de música; cada um trazia sua visão na busca dos detalhes que fazem emergir toda a beleza da música do Villa.

Villa-Lobos foi o maior nome da música brasileira? Como o senhor enxerga a obra dele?
Ele não é apenas o maior nome da música erudita brasileira, mas um dos mais importantes símbolos de nossa cultura como um todo. Numa época em que apenas o que era europeu era valorizado, ele teve coragem de lutar quase sozinho contra os preconceitos que predominavam contra nossa música folclórica, nossa música popular, nossos valores culturais mais populares. Villa-Lobos trouxe o violão para a sala de concertos; mostrou ao mundo a beleza de nossos choros, da música nordestina, de nossas canções infantis; e até hoje é referência para muitos e muitos compositores brasileiros, eruditos e populares.

Tendo ele sido um artista tão ligado ao nacional, à cultura brasileira, por que o lançamento de um álbum em tributo a ele com uma referência em inglês no título?
Apesar do Villa ter sido essa presença tão gigantesca em nossa música, os músicos sempre sentiram certa intimidade com ele, uma espécie de irreverência bem brasileira, como se fosse um velho amigo. E o título Villa Lobos Superstar é quase que uma brincadeira que fazemos com esse velho amigo. É nosso compositor erudito mais conhecido e mais executado internacionalmente; era um visionário, enxergava muito além da mentalidade tacanha de seus contemporâneos; lotava estádios de futebol com coros cantando música genuinamente brasileira, sob sua regência; assim como sua musicalidade, seu ego era também de enormes proporções. Que palavra sintetiza tudo isso melhor que “Superstar”? E existe também, é claro, a referência ao musical Jesus Cristo Superstar – Villa-Lobos não deixa de ser nosso Jesus Cristo, o salvador da música brasileira. 

O senhor tem outros projetos envolvendo Villa-Lobos? Há interesse das partes em seguir a ideia desse primeiro Villa-Lobos Superstar e lançar outro com outras peças?
Estamos todos muito satisfeitos com o resultado artístico do projeto e também com a qualidade técnica da gravação. Temos muita vontade de seguir explorando a música do Villa, mas devemos levar em conta que o Villa-Lobos Superstar levou uns cinco anos para se desenvolver totalmente. E ainda esperamos fazer muitos shows com esse repertório − gravar é muito bom, mas o grande prazer do músico é o contato direto com o público, insubstituível. Precisamos respirar um pouco antes de encarar outro projeto dessa envergadura.

Assista ainda ao vídeo promocional de Villa-Lobos Superstar:

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