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“Villa-Lobos é o pai da música brasileira contemporânea!”

Mario Adnet comenta seu novo álbum, dedicado à obra do autor de "Trenzinho do Caipira"

texto Itamar Dantas

Capa do álbum Um Olhar sobre Villa-Lobos e o dono da obra, Mario Adnet. Fotos: divulgação

“É a primeira vez que eu consigo entender a letra dessa música”, disse Edu Lobo a Mario Adnet enquanto ouvia Mônica Salmaso interpretar “Dança (Martelo)”, parte das Bachianas Nº 5 de Villa-Lobos. A interpretação está presente no novo álbum de Adnet, Um Olhar sobre Villa-Lobos, que acaba de ser lançado e será apresentado no Auditório Ibirapuera (SP) no dia 27 de novembro.

Nessa frase, Lobo resume o tratamento dado à música do compositor erudito na obra. Adnet quis escolher uma intérprete que cantasse “de forma mais popular” um tema normalmente interpretado por cantoras líricas. “Em todo o álbum, o que eu fiz foi acentuar alguns suingues, mudar um pouco a cor. Estou tentando clarear, deixar em um contexto um pouco mais aberto. Nem tanto erudita nem tanto popular”, diz Adnet.

Adnet contesta inclusive que Villa-Lobos seja definido como “compositor erudito”, e um dos objetivos da obra é quebrar esse estigma. “Sempre falam que Villa-Lobos era um compositor erudito. Não que eu ache que isso seja uma coisa ruim, porque erudito tem a ver com conhecimento. Mas ele adorava Cartola, Pixinguinha, João da Baiana, era fã do Tom Jobim, do Cláudio Santoro. Ele acompanhava o que estava acontecendo na música brasileira”, explica.

Para fazer essa releitura, Adnet reuniu Edu Lobo, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Muiza Adnet, Paula Santoro e Yamandu Costa. Cada um deles participa do disco com uma apresentação em duo e outra solo.

No Auditório Ibirapuera, Mario Adnet subirá ao palco acompanhado de uma orquestra de 50 músicos, de uma banda com cinco instrumentistas e dos artistas que gravaram o álbum, exceto Milton Nascimento. O cantor Renato Braz também participará do show.

Em entrevista ao Álbum, o compositor e arranjador fala de seu novo trabalho e de suas impressões sobre a obra de Villa-Lobos.

ÁLBUM – Como surgiu a ideia do projeto Um Olhar sobre Villa-Lobos?
Mario Adnet – Villa-Lobos já povoa a minha música há muito tempo. Eu fiz um trabalho em 2000 (Coração Popular, Indie Records), justamente para mostrar como a música dele não tem fronteiras. E, desta vez, resolvi fazer um novo trabalho, mais sofisticado, sem amarras. Escolhi o repertório na base da intuição, do coração, do amor. Escolhi as coisas que eu achava que davam um bom arranjo, uma boa orquestração. Como um CD é muito pouco para falar de Villa-Lobos, tem uma música representante de cada época da obra dele.

Qual é a importância de Villa-Lobos para a música brasileira?
Considero o Villa-Lobos o pai da música brasileira contemporânea. É como se ele fosse uma fonte. Ele tanto buscou referências pelo Brasil, que virou referência na música nacional. Luiz Paulo Horta diz que o Villa-Lobos tinha um faro excepcional para tudo que é brasileiro. E, quando diz isso, fala do que ele buscava, dessa mistura de brasileiros, europeus, africanos que nos deixou com toda essa riqueza cultural. Ele procurava as canções anônimas; fez as bachianas tendo como referência músicas anônimas nordestinas. E é assim que ele foi se tornando fonte… Introduzia elementos sofisticadíssimos depois de deglutir, de fazer essa antropofagia. Ele transformava essas referências em uma coisa nova, que deu toda a base para a música contemporânea que a gente ouviu na décadas de 1960 e 1970. Conheci Villa-Lobos por meio do Tom Jobim, que bebeu muito na obra dele. E minha mãe também tinha aula de canto orfeônico com Julieta, irmã da Mindinha [esposa de Villa-Lobos]. Ela até já se apresentou pessoalmente para ele. O fato de Villa-Lobos colocar todo mundo para cantar [o compositor foi responsável por introduzir o canto orfeônico em escolas brasileiras na década de 1930] criou um bom gosto na música nacional. Muitos o criticam por conta de sua aproximação com Getúlio Vargas, mas ele aproveitou a oportunidade, porque sabia que isso iria trazer benefícios para quem entrasse no canto orfeônico. Ele ajudou pessoas a desenvolverem alguma educação musical e gosto para a música. Hoje, isso acabou se perdendo.

>> OUÇA ESPECIAL VILLA-LOBOS – NARRAÇÃO DE LEANDRO CARVALHO 

Que temas você destaca do novo trabalho?
Destaco as raridades. Achei um tema muito bonito chamado “Ondulando”. Segundo o catálogo de Villa-Lobos, é de 1914. E ele fez isso no piano. Eu fiquei encantado com a melodia, com a harmonia tão avançada para os seus 27 anos de idade. Fiz um arranjo que vai de acordo com o piano, alterando as cores. Tem outro tema chamado “A Menina das Nuvens”, que abre o álbum. Ninguém sabe direito se é de 1952 ou 1957. É um tema lindo, que me lembrou “A Valsa de uma Cidade”, composição do Ismael Neto e do Antonio Maria lançada pelo grupo Os Cariocas. Fiquei pensando que o Villa-Lobos deve ter ouvido isso. Não tenho certeza se é anterior ou posterior à obra de Os Cariocas, por conta dessa incerteza em relação à data, mas existe a semelhança. Não estou falando que é plágio; as pessoas se confundem muito com essa ideia de plágio hoje em dia. E há também os temas mais conhecidos. Por exemplo, para este disco, desafiei mais uma vez a Mônica Salmaso. Só a chamo para desafios! Desta vez, eu a convidei para fazer a “Dança (Martelo)”, das Bachianas Nº 5. E a Mônica cantou lindamente essa peça, totalmente inteligível. O Edu Lobo fez um comentário interessante: “É a primeira vez que eu entendo essa letra”. E é exatamente isso. Estou tentando clarear, deixar em um contexto um pouco mais aberto. Nem tanto erudita nem tanto popular. Cada artista convidado apresenta uma música solo e uma em duo. O Edu Lobo canta o “Trenzinho do Caipira”. Foi ele quem gravou pela primeira vez essa música com letra. Ele foi atrás da poesia do Ferreira Gullar e lançou a música em 1978 (Camaleão). Também canto alguns temas no álbum, que tem participações também da Paula Santoro, do Milton Nascimento, da minha irmã Muiza Adnet e do violonista Yamandu Costa. A gente fez tudo com uma super qualidade, indo contra a maré da mp3. Porque, ao mesmo tempo em que a tecnologia evolui e torna mais fácil ouvir música em qualquer lugar, ela também evolui para os audiófilos. Temos visto, inclusive, muitos lançamentos que voltam ao som valvulado, que deixam o som mais fiel. Pensando nisso, queremos fazer uma master com uma qualidade superior inclusive à do CD e deixar em algum site internacional de downloads. Mas isso em um segundo momento.


SERVIÇO
Um Olhar sobre Villa-Lobos, com Mario Adnet e convidados
Datas: 27 e 28 de novembro de 2012
Horário: 21h
Local: Auditório Ibirapuera
Endereço: Av. Pedro Alvares Cabral, s/n – Portão 2 – Parque do Ibirapuera, São Paulo-SP
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação indicativa: Livre para todos os públicos

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