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Veneno nos pés

Sapato em apresentação da Nhocuné Soul relembra tradição dos calçados na cultura negra

texto Itamar Dantas

Os sapatos vermelhos de Renato Gama em show no Auditório Ibirapuera em 25 de maio de 2013. Foto: Beto Andrade

“Veneno” foi o nome escolhido para o par de sapatos que o compositor e ator Renato Gama usava no show da banda Nhocuné Soul, no Auditório Ibirapuera, em 25 de maio de 2013. Feito sob medida, o mocassim vermelho chamava a atenção, em contraste com a roupa branca do artista, ao melhor estilo dos tradicionais dançarinos dos sambas de gafieira. No repertório – sempre voltado ao samba rock –, músicas do álbum mais recente, Banzo, disponível para download.

O pisante foi confeccionado na sapataria Calçados But’s, próxima à Vila Nhocuné, zona leste de São Paulo, onde o grupo nasceu. No estabelecimento, quatro senhores se revezam nas atividades para dar conta dos pedidos, feitos em sua  maioria por evangélicos e dançarinos da região. “Tem dançarino que compra sapato quase toda semana. Tem um baixinho, que saiu agora daqui, que deve ter pelo menos uns 30 pares de sapato. Ele gosta que a gente ponha o salto um pouco mais alto, porque ele é pequeno. Aí ele fica mais ou menos da altura da mulher”, conta o sapateiro Pedro Batista, há mais de 40 anos no ofício.

Há calçados de todos os tipos na loja: sapatos bicolores, com desenhos variados e as mais diversas combinações de cores. Pedro Batista comenta que a maioria dos modelos é feita a partir das indicações dos clientes. “O modelista faz o modelo pra gente. Aí o freguês vem e fala: ‘Eu quero com uma faixa aqui’. Aí eu pego e ponho a faixa ali. O freguês dá muita orientação pra gente. Tem muito modelo que foi o cliente que inventou.” Um sapato demora em torno de cinco dias para ficar pronto. “Eu poderia fazer um sapato em uma hora aqui pra você, mas não ia ficar legal, tem de aguardar o tempo de secagem”, garante Pedro.

Renato Gama estava passando pela rua quando um fã da banda – que havia saído da sapataria – o abordou. Ao entrar lá, um aspecto chamou sua atenção e o fez refletir sobre o ato de cantar: a humildade dos sapateiros e o respeito ao ofício. “Esses senhores são artistas, mas não tratam ninguém de forma diferente. Ninguém é mais que ninguém. Vai um monte de gente lá e eles tratam todos da mesma maneira, do jeito deles. É isso que a gente tem de aprender. Senão o artista fica se achando uma pessoa abençoada por Deus. Que nada! É trabalho, meu irmão! É igual ao pedreiro, ao feirante”, reflete.

Mesmo inconscientemente, o ato de fazer um sapato despertava em Renato várias histórias relacionadas à sua banda e às músicas de seu disco. Ele se lembra dos bailes Nostalgia, que agitavam a região onde vive ao som de Barry White, Al Green e outros ícones dos anos 1970 e 1980. Ainda adolescente, ia às festas e reparava como a roupa “na estica” era pedida obrigatória dos frequentadores. Um desses elementos está presente na letra “Engraxate”, que o grupo apresentou no show. “Meu senhor não use tênis/ De sapato você fica de bom trato/ Simpático, esporte chique interado/ Sujeito elegante, ajeitado/ Na quebrada é respeitado”, pede a letra que homenageia os engraxates.

O nome da banda vem de Vila Nhocuné, onde foi gestado o grupo em 1996 sob o nome Clã. De lá pra cá, a Nhocuné Soul vem trabalhando perto da comunidade, desenvolvendo atividades como aulas de música, de teatro e trabalhos sociais. Uma das explicações para o nome do bairro diz que a região era uma fazenda de escravos antes de se unir à capital paulista. E a palavra “nhocuné” seria uma corruptela de coronel, pronunciada pelos escravos: Sinhô Coronel > Nhô Coronel > Nhocuné.

A simbologia do sapato na cultura negra vem de longa data. Os escravos eram proibidos de usar sapatos e, ao se tornar livres, ter um sapato representava a sua nova condição social. Quando resolveu criar a história de Banzo, Renato Gama foi atrás da história das famílias que vivem na Vila Nhocuné. E chegou ao Nordeste brasileiro. “Quando fui fazer esse disco, comecei a pesquisar um pouco da tradição do negro da periferia, mas você acaba caindo na questão de que o negro da periferia nada mais é do que um migrante da Bahia, de Pernambuco. Eu estava compondo músicas que tratam dessa linguagem. Os negros na Bahia não tinham sapato, mas eles conseguiam o linho branco. Então eles faziam seus ternos de linho branco, mas iam descalços pra igreja porque não tinham sapatos. É todo um lance. Era um glamour desses negros ir aos bailes mostrar o sapato: ‘Olha o sapato que eu mandei fazer!’”, finaliza Renato.

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