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Um fagote no jazz

Fagotista com apetite pelo jazz e improvisação, Alexandre Silvério trilha caminhos inusuais para seu instrumento

texto Itamar Dantas

Fagotista com apetite pelo jazz e improvisação, Alexandre Silvério trilha caminhos inusuais para seu instrumento. Foto: divulgação

Alexandre Silvério é o primeiro fagotista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Com longa e sólida formação erudita, percorre as notas da pauta da música clássica com a destreza de quem estudou muito para exercer o ofício com maestria. Porém, quando o assunto é o trabalho solo, o músico prefere pisar em outros terrenos, um pouco mais volúveis, como o choro e o jazz, nos quais pode experimentar a improvisação.

Recentemente, Alexandre lançou o álbum Entre Mundos, em que põe o fagote a serviço do jazz, do tango, do samba e do choro com o timbre peculiar do instrumento dando novas cores aos ritmos. No disco, toca suas composições e a de amigos ao lado dos músicos Fabio Leandro (piano), Vinícius Gomes (guitarra), Igor Pimenta (baixo) e Sergio Reze (bateria).

Em entrevista ao Álbum, o músico conta um pouco sobre os motivos de o fagote ter historicamente visitado pouco esses ritmos e sobre o novo trabalho.

ÁLBUM — Historicamente, o que afasta o fagote do jazz?
ALEXANDRE SILVÉRIO — Essa é uma pergunta difícil. Alguns músicos já usaram o fagote no jazz, como o saxofonista Illinois Jacquet, na década de 1960. De lá para cá, pouquíssimos ousaram usar. O fagote é um instrumento muito difícil de dominar tecnicamente. A digitação é muito complexa, é muito difícil ter agilidade. O processo de confecção de palhetas também é algo muito peculiar para o fagotista, que tem de se preocupar em fazer as próprias palhetas para produzir o som ideal, dedicando incontáveis horas da sua rotina de estudo na busca da palheta perfeita. E talvez o aspecto da projeção sonora também tenha contribuído para afastar o fagote do jazz, o fagote não é tão prático, ele não tem tanto volume de som quanto os instrumentos de sopros de metal. Necessita de amplificação para tocar junto com um combo de jazz. Com tanta dificuldade, acho que a maioria dos fagotistas acaba trilhando o caminho mais comum, que é tocar o repertório de música sinfônica, orquestral, o repertório erudito, que já foram escritos originalmente para fagote pelos compositores há séculos. Mas o timbre do fagote é mágico. O fagote não é comum e acho que usá-lo em outros universos além da música erudita é muito gratificante, dando a esse belíssimo instrumento o destaque que ele merece. Acredito que o fagote está se firmando cada vez mais como um instrumento do jazz e certamente muito mais fagotistas de jazz irão surgir.

Como a sua formação erudita o influencia no trabalho com o jazz?
Acho que a música erudita e o jazz estão totalmente ligados. A sofisticação do jazz é a mesma que a da música erudita. A diferença está no fato de que, na erudita, a música já está escrita no papel, enquanto o jazz se trata de composição em tempo real, através da improvisação. Sempre tive em mente, em primeiro lugar, estudar o repertório erudito para obter domínio sobre o instrumento, com controle da sonoridade, da técnica, do fraseado. Na minha opinião, esse domínio é fundamental para o músico ter a firmeza de tocar as melodias complexas do jazz. Quando toco jazz, tento agregar aspectos  que são mais específicos da música erudita, como controle da sonoridade, afinação, dinâmicas, precisão. E quando estou tocando música erudita costumo prestar atenção nos elementos mais importantes para o jazzista, que se tratam da harmonia, da interação com os outros músicos e da criatividade espontânea, algo característico da improvisação. Na música erudita busco tocar com o mesmo frescor de um improviso novo. Isso tudo ajuda e consigo me divertir muito mais em ambos os estilos pensando dessa forma.

Você pode citar uma ou duas de suas composições do álbum Entre Mundos e contar um pouco sobre o processo criativo ou alguma história curiosa?
A música Gordus Power se trata de um blues rápido. A melodia é complexa e passa por todas as oitavas do fagote, desde o ré bemol grave ao ré bemol agudo. Criei a melodia tocando no fagote e depois adicionei os acordes com a ajuda do piano. O nome Gordus veio do meu irmão Marcelo, mais velho do que eu e antigamente apelidado de Gordo. Ele foi uma grande influência musical para mim. Sempre me incentivou a estudar muito o fagote, era um tipo de sparring [como no boxe], ficava sempre me instigando a melhorar, a perseverar. Achei Gordus Power  um título bem apropriado por ser uma música desafiadora e cheia de energia. Já “Meu Fagote Chorou” compus tentando usar progressões harmônicas mais características do jazz, mas adaptando-as ao universo do choro. A forma dela também não é usual no choro, está na forma AABA. Procurei usar na melodia intervalos grandes, que são característicos do fagote. Pelo fato de o fagote não ser comum, esse choro também não deveria ser comum. Virou um choro-jazz.

  1. Alexandre é excelência tanto no erudito , como no jazz!

    | Marcos Franco

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