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Tons do desconforto

A morte é o tema predominante no disco de estreia da cantora Juçara Marçal

texto Itamar Dantas

Com longa vivência na música, Juçara Marçal faz sua estreia em álbum solo. Foto: José de Holanda

Em setembro de 2012, Juçara Marçal apresentava com seus parceiros Kiko Dinucci, Thiago França, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Sílvio Modesto o álbum Plínio Marcos em Prosa e Samba (1974). Ali, para além de entoar canções do icônico disco do samba paulistano, Juçara vivia a experiência de esboçar arranjos junto a Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, partindo da confluência entre duas guitarras e voz.

Foi dessa experiência que Juçara começou a desenhar a estética de seu primeiro álbum solo, Encarnado, recém-lançado. “Estava na hora de propor algo em que o norte fosse meu”, diz a cantora. A direção partiria das guitarras complementares de Kiko e Rodrigo para levantar sua voz em canções que selecionou a dedo. “Não tinha uma decisão de roteiro, ou decisão de tema a priori; tinha músicas. Por ser intérprete, tem várias músicas que vou conhecendo, que vou colocando na roda. É como se a sonoridade fosse delineando um roteiro. No meio do processo percebi que tinha um eixo, da perda, da morte”, conta.

Na seleção, incluiu canções de Rodrigo Campos, Douglas Germano, Everaldo Ferreira da Silva, Romulo Fróes, Alice Coutinho, Gui Amabis, Regis Damasceno, Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba e Thiago França, além de uma vinheta de sua autoria, “Odoya”, que antecipa a “Ciranda do Aborto”, de Kiko Dinucci. “Essa vinheta é uma brincadeira com o modo lídio [escala dos modos gregos] e ela calhou muito bem com a música do Kiko. Por vários momentos eu falei ‘Ah, não precisa colocar!’, mas na hora que começamos a preparar a ‘Ciranda do Aborto’, que é superforte, achei que era hora de trazê-la”.

LEIA “THIAGO FRANÇA E A MALANDRAGEM PAULISTANA” 

“Ciranda do Aborto” é apenas uma das canções que trazem a morte como tema. Dividem esse universo as composições “A Velha da Capa Preta”, “Damião” e a faixa de abertura “Velho Amarelo”, com versos de Rodrigo Campos: “Quero morrer num dia breve, quero morrer num dia azul, quero morrer na América do Sul”.

Para a interpretação desses temas, Juçara buscou tons diferentes do convencional para a sua voz. “Quando escolho uma música, não necessariamente busco um tom que seja confortável para minha voz. Por exemplo, em ‘Presente de Casamento’, pelo que dizia a letra, pelo que a gente estava elaborando, forçar o agudo mostrava mais a aspereza do que pedia a música. Escolhi um tom para ficar desconfortável mesmo”, conta a cantora que viu o desconforto como guia para o álbum. “Na ‘Canção de Ninar Oxum’ escolhi uma região de passagem para ela ficar bem fragilzinha, falhando, como se fosse uma canção que você está cantando ao ouvido.”

Apesar de Encarnado ser seu disco de estreia, Juçara Marçal já é uma veterana na música de São Paulo, com mais de 20 anos de estrada. Participou dos grupos Vésper, com quem iniciou os trabalhos em meados da década de 1990, e A Barca, no início dos anos 2000. Atualmente, destaca-se como cantora à frente do grupo Metá Metá, em que divide os palcos com Kiko Dinucci e Thiago França, além da participação em projetos de inúmeros contemporâneos, como Criolo, Emicida e Cacá Machado.

Encarnado pode ser baixado na íntegra no site da cantora.

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