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Toninho Ferragutti: “Tem de cuidar do seu próprio quintal”

Acordeonista fala de seu novo CD e do papel do músico na era da internet

texto Itamar Dantas

O acordeonista e compositor Toninho Ferragutti. Foto: divulgação

O acordeom e o sorriso largo de Toninho Ferragutti são velhos conhecidos dos ouvintes de música instrumental brasileira. Além de seu trabalho autoral, suas notas ressoam em discos de figuras como Gilberto Gil, Tom Zé, Chico Buarque e Antônio Nóbrega. No dia 30 de novembro de 2012, o músico apresentou no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, o repertório de seu novo disco, O Sorriso da Manu.

Os temas do álbum foram compostos como trilha sonora para o espetáculo de dança Grupo Luceros Dança Toninho Ferragutti, dirigido por Clarisse Abujamra. O ritmo predominante na obra é o flamenco – no qual Ferragutti assume sua falta de fluência. Mas, com a experiência na música popular, o trabalho foi tomando consistência nos ensaios, durante os arranjos e por meio das participações especiais. “A música flamenca tem apenas três ou quatro acordes. Nós pegamos a célula rítmica e fomos levando às últimas consequências”, explica o músico.

Os arranjadores foram Edson José Alves, Rodrigo Morte, Neymar Dias, Alexandre Mihanovitch e Adail Fernandes. O CD foi gravado ao vivo no teatro Fecap, em São Paulo, em apenas três sessões de seis horas de duração. “Eu queria que o disco fosse mais quente, por isso a gravação ao vivo”, conta.

No Auditório, o músico se apresentou acompanhado dos instrumentistas Alexandre Ribeiro (clarinete), Beto Angerosa (percussão), Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo acústico), Paulo Braga (piano) e do quarteto de cordas formado por Ricardo Takahashi, Liliana Chiriac (violinos), Adriana Schincariol (viola) e Raiff Dantas Barreto (violoncelo). O nome do disco, e do show, é uma homenagem à sua filha caçula, Manuela.

Com essa formação quase erudita para o show (Ferragutti a define como “miniorquestra”), a improvisação – uma das características de suas apresentações – ficou em segundo plano para dar lugar a arranjos já estabelecidos. “Na minha música, gosto de ter a possibilidade de improvisar. Com toda essa estrutura que montamos, ficou um pouco mais difícil. Mas, com o passar do tempo e fazendo outras apresentações, vamos abrindo esse espaço para a improvisação…”

Com mais de 20 anos de estrada, o músico revela otimismo em relação ao espaço dado para projetos instrumentais no Brasil. Em tempos de internet e redes sociais, o papel do músico mudou, tornando-se responsável não somente pelo trabalho artístico, mas também por sua divulgação. “Eu acho que é necessário saber cada vez mais onde está seu público e onde sua música pode ser divulgada. Tem de cuidar do seu próprio quintal, e cuidar direito. A boa notícia é que hoje as coisas estão mais fáceis. Faço música instrumental, e faço com prazer, então, não tem jeito. Tem de fazer um ótimo trabalho e achar formas pelas quais ele chegue às pessoas”, finaliza.

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