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Thiago França e a malandragem paulistana

Novo álbum do saxofonista homenageia conto de João Antônio: Malagueta Perus e Bacanaço

texto Itamar Dantas

Thiago França no ambiente do conto Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio. Foto: Itamar Dantas

Malagueta, Perus e Bacanaço são três malandros que saem pela noite paulistana de mesa em mesa de sinuca atrás de dinheiro e jogatina. Os personagens são do conto homônimo escrito por João Antônio há 50 anos, obra revisitada agora no novo álbum de Thiago França.

Rodrigo Campos foi quem apresentou o escritor a Thiago França. À época, em 2010, a dupla fazia uma gafieira no bar Ó do Borogodó, em São Paulo, e Thiago fez o primeiro tema baseado no conto. “No mesmo dia que terminei de ler, eu fiz ‘Malagueta, Perus e Bacanaço’, já levei lá e o Rodrigo me incentivou a levar isso pra frente. No primeiro mês, com o impacto do livro, já vieram mais três temas: ‘São Paulo de Noite’, ‘Tema do Carne Frita’ e ‘De Volta à Lapa’.”

Dali, já começava a se esboçar um trabalho mais complexo baseado na obra literária. Em 2011, a gafieira acabou e Thiago França, envolvido em outros projetos, teve de deixar o disco para depois. Mais tarde vieram as vinhetas de cada personagem e os convites para que seus amigos também dessem suas visões para a obra. Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Rodrigo Ogi somaram aos temas instrumentais de Thiago França canções que também tratam de aspectos do conto.

França é responsável por oito composições, três baseadas nos personagens principais: o samba “Picardia” foi para Bacanaço, o malandro mais tradicional, bem vestido, com anéis de ouro e outras pompas; já para Malagueta, o malandro mais velho, maltrapilho que pede esmolas e faz a vida na sinuca, foi o free jazz “Fome”; e Perus, talentoso jovem jogador que quer fazer a vida nos jogos da Vila Alpina, ganhou o tema “Nostalgia”. “Tinha uma vontade disso, de reproduzir o universo do livro como se fosse uma trilha sonora”, conta Thiago França.

A obra do escritor e jornalista João Antônio (SP 1937 – RJ 1996) já ganhou as telas do cinema por Maurice Capovilla em O Jogo da Vida (1977), com trilha sonora assinada por João Bosco e Aldir Blanc, compositores próximos do universo do bilhar. Para não ser influenciado, Thiago França nem chegou a ouvir a trilha. “A gente que vem do samba de São Paulo tem um ambiente muito familiar das coisas de periferia, com essa malandragem menos ostensiva e menos maliciosa do que o samba dos cariocas. Todos os projetos que a gente faz têm uma própria crueza, uma reverência a esse lugar menos óbvio, essa coisa das figuras do cotidiano tendo São Paulo como pano de fundo”, revelou França.

Acompanham França no disco Malagueta, Perus e Bacanaço Anderson Quevedo (sax barítono), Amilcar Rodrigues (trompete, flughel), Didi Machado (trombone), Welington “Pimpa” Moreira (bateria, percussão), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (cavaquinho, guitarra, violão, locução, voz) e Kiko Dinucci (guitarra, voz, violão, percussão). Daniel Ganjaman, Rodrigo Ogi, Juçara Marçal, Romulo Fróes e Maurício Pereira formam o time de convidados especiais.

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