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Tesouro perdido

Primeiro registro fonográfico de Cartola, a faixa “Quem Me Vê Sorrindo”, integra a coletânea Native Brazilian Music, nunca lançada no país

texto Adriana Ferreira Silva

Encarte do álbum Native Brazilian Music lançado em 1987”. Imagem: divulgação/Itaú Cultural

Em agosto de 1940, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) subiu o Morro da Mangueira e convidou Cartola (1908-1980) para se juntar a Carlos Cachaça (1902-1999), Donga (1890-1974), Pixinguinha (1897-1973) e João da Baiana (1887-1974), entre outros bambas, numa roda de samba armada num local inusitado, um navio atracado no píer da Praça Mauá, no Rio de Janeiro (RJ).

O maestro Villa-Lobos – segundo a historiadora Nilcemar Nogueira, neta de Cartola – assumia-se grande fã do compositor. “Ele afirmava que Cartola era um gênio”, diz. “Villa-Lobos valorizava o que vinha do morro e considerava as canções criadas ali a genuína música brasileira. Sempre que precisava fazer uma incursão sonora para apresentar a um artista internacional, por exemplo, procurava Cartola e Carlos Cachaça.”

Naquela ocasião, o chamado do músico erudito tinha uma razão especial. A bordo do navio SS Uruguay estava o maestro britânico Leopold Stokowski (1882-1977), ex-diretor da Orquestra Sinfônica da Filadélfia e, à época de sua passagem pelo Brasil, famoso no mundo todo pela participação no clássico filme Fantasia, da Disney. Acompanhado pela All-American Youth Orchestra, Stokowski realizou dois concertos no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Já no palco da embarcação, ele tinha a missão de reunir e registrar as composições de nomes locais. Fã de música brasileira, o britânico pediu ajuda a Villa-Lobos para concretizar o projeto de agrupar os principais representantes de samba, batucadas, marchas de rancho, macumba e emboladas para uma sessão de gravações que, posteriormente, se transformariam na coletânea Native Brazilian Music, lançada em 1942 pela Columbia Records.

 

Boa vizinhança

 

“O encontro fazia parte da política de boa vizinhança durante a Segunda Guerra”, explica Nilcemar. No período, os Estados Unidos estavam empenhados em manter os países da América do Sul neutros ou contra a coalizão liderada por Adolf Hitler, personagem por quem o então presidente Getúlio Vargas havia demonstrado simpatia. “Essa ação se manifestou de diversas maneiras. Uma delas era cultural”, completa a historiadora norte-americana Daniella Thompson, autora de uma extensa pesquisa sobre a histórica performance no SS Uruguay.

Com essa mesma intenção, após a passagem de Stokowski, vieram ao país o empresário Walt Disney, em 1941, e o cineasta Orson Welles, no ano seguinte. O primeiro descobriu a canção “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso – que, como parte da trilha sonora da animação Saludos Amigos, se tornou um hit internacional. O segundo foi menos bem-sucedido, ao aventurar-se na produção do filme It’s All True (É Tudo Verdade). Durante as turbulentas filmagens, um jangadeiro que participava do longa morreu afogado, e a Paramount, responsável pela produção, cortou a verba de Welles – cuja carreira entrou em declínio após esse episódio.

Daniella teve acesso à correspondência entre Villa-Lobos e Stokowski em 2002, graças à ajuda do jornalista brasileiro Aloisio Milani. “Ele leu um artigo que publiquei em 2000 e me enviou cópias escaneadas de duas cartas. Uma de Villa-Lobos para Stokowski e outra de Donga para Villa-Lobos”, conta a historiadora. Nelas, o maestro brasileiro se dispõe a juntar a nata da MPB para o encontro, do qual participaram ainda os sambistas Zé Espinguela (1890-1945) e Zé da Zilda (1908-1954), a dupla cômica Jararaca (1896-1977) e Ratinho (1896-1972) e o compositor de choro Luiz Americano (1900-1960). A maior parte deles esteve presente por sugestão de Cartola e Carlos Cachaça. “O Cartola levou [Dona] Neuma e a irmã dela [tia Cecéia] para fazerem o coro, porque elas eram filhas do presidente da Mangueira, amigo dele. Naquele tempo, os sambas eram ancorados nas vozes das pastoras”, revela Nilcemar.

Na noite de 8 de agosto de 1940, todas essas estrelas embarcaram no SS Uruguay. “Para muitos deles, incluindo Cartola, esse seria o primeiro registro fonográfico”, conta a neta do sambista. “Até então, as composições do meu avô eram gravadas apenas por intérpretes como Francisco Alves e Aracy de Almeida. Ele e seus parceiros não pensavam que poderiam cantar num disco as próprias canções.” A noitada foi descrita por jornais e livros, como a biografia Pixinguinha, Vida e Obra, do jornalista Sérgio Cabral. No texto, o autor fluminense afirma que o show começou com “os maracatus e frevos de autoria de Pixinguinha”. “Em seguida, solo de choro por Luiz Americano e seu conjunto. A parte cantada principiou com Janir Martins, cantora da Rádio Nacional, possuidora de boa voz e boa interpretação do samba, e José Gonçalves, em ‘Seu Mané Luiz’. O mesmo José Gonçalves gravou o samba de breque ‘Uma Festa de Zés’. A Estação Primeira de Mangueira, escola de samba, cantou, após, quatro produções de Cartola, todos [sambas] do mais legítimo sabor de nossos morros [...].”

 

“Quem Me Vê Sorrindo”

 

No total, foram 40 músicas, das quais se escolheram 17 para compor dois álbuns, cada um com quatro discos de 78 rotações por minuto. Entre as canções estava “Quem Me Vê Sorrindo”, parceria de Cartola e Carlos Cachaça. “Encontrei a lista descrevendo as 17 composições porque elas foram registradas na Livraria do Congresso [norte-americano] em 1940 e 1941”, explica Daniella. “Das minhas descobertas, certamente a mais importante é a de que oito matrizes inéditas das sessões realizadas no SS Uruguay sobreviveram em boas condições e ainda estão armazenadas no cofre da Columbia”, conta a historiadora. “Dessas oito matrizes, três foram gravadas por Cartola: ‘Tristeza’, ‘Primeiro Amor’ e ‘Meu Amor’ [as duas últimas em parceria com Aluísio Dias] – todas com a participação das pastoras da Mangueira.”

O disco recebeu elogios da revista Time – que o apontou como “o melhor e mais dançante” –, porém nunca ganhou versão no Brasil. Segundo Daniella, a maioria dos músicos morreu sem ouvir as gravações, e poucos foram pagos por elas. “Um ano e meio depois do registro, Cartola recebeu 1.500 réis, o suficiente para comprar dois ou três maços de cigarro barato, mas nunca foi remunerado pelos direitos autorais”, afirma. “Ele ouviu o álbum pela primeira vez quase 20 anos depois, na casa de Lúcio Rangel [historiador e crítico de música].”

Rangel foi um dos poucos que conseguiram uma cópia. Daniella afirma que ele a cedeu aos arquivos do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ), de onde desapareceu. “Native Brazilian Music é um tesouro que reúne alguns dos mais importantes artistas populares do Brasil e representa um espectro da diversidade musical do início do século XX”, acredita a pesquisadora. “Ele inclui gravações raras, e algumas delas são as únicas feitas por aqueles artistas. Os álbuns nunca foram reeditados, a não ser por uma versão não oficial realizada pelo Museu Villa-Lobos em 1987. Felizmente, graças à tecnologia digital, hoje estão disponíveis na internet.”

Daniella é uma das militantes que há mais de uma década realizam petições públicas e pedidos por canais diplomáticos para convencer a Sony Music, proprietária da Columbia, a liberar as músicas, incluindo as oito matrizes nunca prensadas. “Até agora, não deu em nada.” Ainda que seja um tesouro inacessível, de certa maneira o álbum cumpriu a intenção de Stokowski. “Cartola não tinha o costume de falar sobre essas gravações, mas, quando o fazia, dizia que todos eles haviam ficado muito embevecidos por estarem ali”, conta Nilcemar. “Carlos Cachaça e ele tinham muito orgulho de terem sido escolhidos para representar a música brasileira, sobretudo por eles mesmos estarem cantando suas composições, com o aval de Villa-Lobos.”

Numa entrevista ao MIS em março de 1967, Cartola relembrou o episódio e descreveu a reação de Stokowski à sua participação: “Ele ficou maravilhado, gostou muito e até prometeu que, se voltasse ou se viesse alguém aqui, ele mandaria buscar mais músicas minhas, mas nunca fui procurado”.

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