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“Sou a sacerdotisa que guia a cerimônia”

Folclore e música contemporânea dão a tônica à carreira da cantora Titane

texto Itamar Dantas

Titane apresenta no Auditório Ibirapuera repertório de seu DVD, Titane e o Campo das Vertentes. Foto: João Castilho

A cantora Titane registrou seu segundo álbum em 1986, homônimo, e lá já misturava as tradições folclóricas mineiras à música popular contemporânea. Passados quase 30 anos desse disco, a essência do trabalho permanece e a cantora vem a São Paulo apresentar o resultado dessa combinação, inspirada em novos autores de ambas as referências: os compositores Sérgio Pererê, do lado folclórico, e Makely Ka, do urbano.

Em 2012, a intérprete lançou o DVD Titane e o Campo das Vertentes, em que deu voz às músicas de Pererê e Ka e trouxe canções de domínio público e de artistas consagrados da música brasileira, como Chico César, João Bosco e Aldir Blanc, Chico Buarque e Luiz Tatit.

No show em São Paulo neste domingo, 23, no Auditório Ibirapuera, a cantora apresenta a base de seu registro mais recente junto a um coro e forte base percussiva, sob direção do premiado teatrólogo João das Neves. Acompanham a cantora os músicos Rogério Delayon (guitarra, violões, charango e cavaquinho), Adriano Campagnani (baixo) e Serginho Silva (bateria e percussão).

Em entrevista ao Álbum, a cantora fala de sua relação com a música folclórica, a cena musical mineira atual e as diretrizes do novo trabalho.

ÁLBUM – Como será o show no Auditório Ibirapuera? Há novidades em relação ao DVD?
TITANE – Faremos a íntegra do DVD. A novidade é a presença de Makely Ka como convidado, ao lado de Sérgio Pererê. De certa maneira, este trabalho é dedicado à obra deles, que compõe a maior parte do repertório.

Desde os anos 1980 trabalhando com o congado… O folclore sofreu mudanças significativas nos últimos 30 anos?
As mudanças são tão profundas que quase afetam sua natureza. O congado, por exemplo, sempre existiu sob pressão, repressão, preconceito. Na virada do século experimentou o interesse de diferentes segmentos da sociedade e até mesmo o assédio. O desafio hoje é repensar suas relações com o mundo sem perder de vista seus fundamentos. Aprendo muito com João das Neves quando o assunto é a estreita e delicada relação entre arte e culturas tradicionais. Do alto de seus 80 anos, ele tem muita experiência e reflexão acumulada. Nossa parceria é antiga. Ele é o diretor de Em Titane e o Campo das Vertentes e eu, além de intérprete e diretora musical, sou a preparadora do elenco. Daí em diante passei a assumir as mesmas funções em alguns espetáculos dirigidos por ele, a exemplo de Galanga Chico Rei, com texto e música de Paulo César Pinheiro. Neste momento, João e eu trabalhamos juntos no projeto YURAIÁ – o Rio do Nosso Corpo, um texto inédito dele que narra, com elenco indígena e não indígena, a saga da Nação Kaxinawá, do Acre. Queremos que essa montagem aconteça em comemoração dos 80 anos que ele acaba de completar.

Como o seu repertório mais popular (Luiz Tatit, Chico César, João Bosco, Aldir Blanc, Tom Jobim…) se mistura às raízes folclóricas?
Esses autores têm o umbigo na música brasileira que nasceu dentro de nossas festas populares, também chamadas folclóricas. E, como eu, praticam uma espécie de hibridismo misturando heranças tradicionais e informações contemporâneas.

Como anda a produção musical atual de Belo Horizonte? Há dificuldades para mostrar o trabalho fora de Minas Gerais?
A produção em Belo Horizonte é extensa e multifacetada na música e em todas as outras linguagens. Não temos faixas de mercado definidas a ponto de não se misturarem. Isso provoca uma promiscuidade musical muito fértil. É cada vez melhor morar em Minas. As dificuldades para mostrar o trabalho pelo mundo hoje são bem menores do que sempre. A mobilidade, hoje, é uma característica da vida.

O que você pode falar mais sobre o show?
Sempre fui feliz trabalhando em São Paulo. Fiz amigos e parceiros. Tenho um público que quero reencontrar e a quem quero mostrar o que de melhor se faz hoje em Minas. Titane e o Campo das Vertentes é o resultado de um encontro de artistas em diferentes estágios de maturação. Um ritual coletivo. Sou a sacerdotisa que guia a cerimônia, na qual reina o caráter solene e colorido de nossas Festas do Rosário. Nem de longe se trata de reproduzir tais festas. É um espetáculo contemporâneo que tem consciência das relações da arte com a ancestralidade.

SERVIÇO

Local: Auditório Ibirapuera (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n)
Dia: 23 de março de 2014
Horários: 19h
Duração: 90 min (aproximadamente)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação indicativa: livre para todos os públicos

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